Citação de Ana Suy em 'Não pise no meu vazio'
Quando eu ouvi o astrônomo instruído,
Quando as provas, as figuras, eram dispostas diante de mim em colunas,
Quando me sentaram e me explicaram com muito aplauso na sala,
Como logo fiquei cansado e enjoado;
Até que, levantando-me e deslizando para fora,
Passei sozinho na noite mística e úmida,
E de vez em quando,
Olhei para cima, em perfeito silêncio, para as estrelas.
Walt Whitman. Leaves of Grass.
“(...) Com curiosidade meiga, envolvida pelo cheiro de jasmim, atenta à fome de existir, e atenta à própria atenção, parecia estar comendo delicadamente viva o que era muito seu. A fome de viver, meu Deus. Até que ponto ela ia na miséria da necessidade: trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estava viva.”
Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Não esperar nada acontecer
Ser gentil com qualquer pessoa
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Ter saudade no final da tarde
Para quando escurecer, esquecer
Ao se deitar para dormir, dormir
Dormir.
É preciso estar escuro
Pra eu poder dormir em paz
Mas em mim há uma luz
Que não sei como apagar
Eu canto
Incontido cortando o escuro
Sexto sentido saltando o muro
É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar
Mundo mandala
Mudando o impuro
Tempo tempero
Tecendo o futuro
Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai-ai-ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar
Mundo mandala
Mudando o impuro
Tempo tempero
Tecendo o futuro
Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas...
Itamar Assumpção / Ricardo Amaral Rego
Fábio Bialo
"(...) Havia tantos anos que não nos víamos! E, de repente, num estacionamento, os nossos caminhos se cruzaram. Dizem que isso se chama “coincidência” – quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter sido preparados. De fato, foi um acidente. Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.
Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que “coincidências” não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências quando vistas na face direita do tapete. Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens vêem o direito; os deuses tecem o avesso."
Rubem Alves. Carta a um amigo.
o amor, esse sufoco,agora há pouco era muito,agora, apenas um soproah, troço de louco,corações trocando rosase socos
Paulo Leminski. Distraídos Venceremos
Alma estranha esta que abrigo,
Esta que o Acaso me deu,
Tem tantas almas consigo
Que eu nem sei bem quem sou eu.
Jamais na Vida consigo
Ter de mim o que é só meu;
Para supremo castigo,
Eu sou meu próprio Proteu.
De instante a instante, a me olhar,
Sinto, num pesar profundo,
A alma a mudar... a mudar...
Parece que estão, assim,
Todas as almas do Mundo,
Lutando dentro de mim...
Confusão. Raul de Leoni.
(...)
Em poesia,
que é voz de poeta,
que é a voz de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.
Manoel de Barros
Tu que vives e passas, sem saber
O que é a vida nem porque é, que ignoras
Todos os fins e que, pensando, choras
Sobre o mistério do teu próprio Ser,
Não sofras mais à espera das auroras
Da suprema verdade a aparecer:
A verdade das cousas é o prazer
Que elas nos possam dar à flor das horas...
Essa outra que desejas, se ela existe,
Deve ser muito fria e quase triste,
Sem a graça encantada da incerteza...
Vê que a Vida afinal, - sombras, vaidades -
É bela, é louca e bela, e que a Beleza
É a mais generosa das verdades...
Sabedoria. Raul de Leoni.
Recentemente me deparei com a obra Sails (velas), criação da artista ucraniana Tatiana Belokonenko. A técnica utilizada é o Batik, um processo artístico que une tecido, cera e pigmentos.
A escolha pelo batik é estética e também poética. A técnica exige paciência e camadas de sobreposição, remete a um processo artesanal em que nenhum detalhe se repete.
Há algo de meditativo nesse fazer artístico...
(...)
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
Aniversário. Poemas de Álvaro de Campos. Os poetas de Fernando Pessoa.
Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo,
de não transbordar da minh'alma.
Livro de Versos de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.
Virgínia Woolf. Orlando.
Antes que o estio cesse e chegue o outono, no cálido intervalo em que o ar pesa e as cores abrandam, as tardes costumam usar um traje sensível de gloríola falsa. São comparáveis àqueles artifícios da imaginação em que as saudades são de nada, e se prolongam indefinidas como rastos de navios formando a mesma cobra sucessiva.
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.
nuvens carregadas,
mas o céu não ficou vazio.
em fila torta,
elas dançam em cores sobre o cinza.
não esperam o tempo abrir -
ninguém avisou que era dia de festa,
mas os meninos as lançaram mesmo assim.
o mundo não para -
e a gente também não.
sempre haverá quem insista
na leveza.
(poeticanaty)
(...)
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.
Conceição Evaristo
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. (...) tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.
Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.
Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que e a essência das coisas.
Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está no meu poder alterar.
Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.
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"Nós nos deleitamos com a beleza da borboleta, mas raramente admitimos as mudanças pelas quais ela passou para atingir essa beleza."
Maya Angelou.
“Ficamos ali em silêncio. Eu segurando um copo d’água que já tinha esquentado e ela com os olhos cheios de histórias que não me contava. Às vezes o silêncio é o único lugar onde a gente se entende. E naquele silêncio, eu soube que ela também estava cansada de perder.”
Jarid Arraes. Redemoinho em dia quente.
Obra de técnica mista do artista queniano Muyaka Shitanda.
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"Tenho me sentido estranho, como um gato que passa por todos os cantos e ninguém percebe que ele é, na verdade, quem observa tudo."
Caio Fernando Abreu - Os Dragões Não Conhecem o Paraíso
"Quem quer que você seja, não importa quão solitário, o mundo se oferece à sua imaginação, chama você como gansos selvagens, seu som estridente e excitante - anunciando repetidamente seu lugar na família das coisas."
Os amigos vêm até este lugar para se despedir, entre lamentos.
Oh Lao-lao Ting, a taberna onde todo coração dói.
Aqui, até a brisa da primavera conhece a mágoa da partida;
Não permite que os ramos do salgueiro fiquem verdes.
Li Bai. A taberna de lao-lao ting.
Inês Pedrosa
"Age de tal maneira que as consequências da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra."
Jonas Hans
A mulher que chora - Pablo Picasso
Choro porque sei que o tempo é curto
Pra se viver
E se morrer.
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Picasso rompeu com as noções tradicionais de perspectiva e representação. Ao decompor e remontar objetos e figuras a partir de múltiplos pontos de vista simultâneos, ele cria uma nova sensação de espaço.
Fonte: Cubismo e além: as contribuições de Pablo Picasso para a arte moderna. Isabella de Souza.
“Estar com ele era como estar com um pedaço do mundo, como se houvesse crescido uma árvore dentro da casa, junto com móveis e livros, e ela pudesse tocá-la..."
Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem
eu durmo comigo/ de bruços deitada eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador medieval agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo ás vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.
- Angélica Freitas
Hilda Hilst. Do Desejo
"(...) consideremos a natureza múltipla do corte:
se corto um corpo o faço como quando corto o verso de um poema?
ambos os gestos apontam para o fim, acenam para a morte.
a escrita, contudo, mesmo quando se abisma, traz seu impulso de vida...
Um convite para pensar a poesia não só como arte, mas como experiência vital."
"Eu quero a estrela da manhã. Mesmo que nunca a toque, mesmo que ela nem exista."
Caio Fernando Abreu. Os Sapatinhos Vermelhos. In: Morangos Mofados
A identidade feminina, assim como a moda minoica, era tecida entre estética e significado. Na Idade do Bronze, vestes e ornamentos não eram meros adornos, mas expressões de poder, cultura e pertencimento. As mulheres minoicas e micênicas usavam a vestimenta como símbolo de identidade e status, estabelecendo uma relação profunda entre corpo, poder e história. Vestígios tecidos no tempo, suas roupas narravam quem eram e onde pertenciam. Assim como a memória gravada na pele e no tecido, a moda dessas civilizações revela histórias de mulheres que comunicavam seu lugar no mundo. Entre linhas e versos, o passado ecoa no presente.
Referência: A Beleza na Idade do Bronze - Moda Micênica e Minoica. World History Encyclopedia.
♪ de olhos abertos eu vi um trem
Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus
Que importa o sentido se tudo vibra?
Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo
Está escrito
Quem não quiser ceder
ao canto das páginas
feche os olhos
ou tape com cera os ouvidos.
Sentido. Gláucio Giordanni e Carlos Moreira.