terça-feira, 30 de dezembro de 2025

a medida do mergulho

 

Citação de Ana Suy em 'Não pise no meu vazio'

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

em perfeito silêncio

Quando eu ouvi o astrônomo instruído,

Quando as provas, as figuras, eram dispostas diante de mim em colunas,

Quando me sentaram e me explicaram com muito aplauso na sala,

Como logo fiquei cansado e enjoado;

Até que, levantando-me e deslizando para fora,

Passei sozinho na noite mística e úmida,

E de vez em quando,

Olhei para cima, em perfeito silêncio, para as estrelas.


Walt Whitman. Leaves of Grass.


domingo, 7 de dezembro de 2025

boato de primavera

Chegou a primavera? Que me contas!
Não reparei. Pois afinal de contas
nem uma flor a mais no meu jardim,
que aliás não existe, mas enfim
essa ideia de flor é tão teimosa
que no asfalto costuma abrir a rosa
e põe na cuca menos jardinília
um jasmineiro verso de Cecília.
Como sabes, então, que ela está aí?
Foi notícia que trouxe um colibri
ou saiu em manchete no jornal?
Que boato mais bacana, mais genial,
esse da primavera! Então eu topo,
e no verso e na prosa eis que galopo,
saio gritando a todos: Venham ver
a alma de tudo, verde, florescer!
Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.
Na hora de mentir, meu são Genaro,
é preferível a mentira boa,
que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,
e cria uma verdade provisória,
macia, mansa, meiga, meritória.
Olha tudo mudado: o passarinho
na careca do velho faz seu ninho.
O velho vira moço, e na paquera
ele próprio é sinal de primavera.
Como beijam os brotos mais gostoso
ao pé do monumento de Barroso!
E todos se namoram. Tudo é amor
no Méier e na rua do Ouvidor,
no Country, no boteco, Lapa e Urca,
à moda veneziana e à moda turca.
Os hippies, os quadrados, os reaças,
os festivos de esquerda, os boas-praças,
o mau-caráter (bom, neste setembro),
e tanta gente mais que nem me lembro,
saem de primavera, e a vida é prímula
a tecnicolizar de cada rímula.
(Achaste a rima rica? Bem mais rico
é quem possui de doido-em-flor um tico.)
Já se entendem contrários, já se anula
o que antes era ódio na medula.
O gato beija o rato; o elefante
dança fora do circo, e é mais galante
entre homens e bichos e mulheres
que indagam positivos malmequeres.
É prima, é primavera. Pelo espaço,
o tempo nos vai dando aquele abraço.
E aqui termino, que termina o fato
surgido, azul, da terra do boato.



Carlos Drummond de Andrade. Versiprosa.


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

atenta à fome de existir

“(...) Com curiosidade meiga, envolvida pelo cheiro de jasmim, atenta à fome de existir, e atenta à própria atenção, parecia estar comendo delicadamente viva o que era muito seu. A fome de viver, meu Deus. Até que ponto ela ia na miséria da necessidade: trocaria uma eternidade de depois da morte pela eternidade enquanto estava viva.”


Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres.


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

domingo, 23 de novembro de 2025

num dia


Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Não esperar nada acontecer
Ser gentil com qualquer pessoa
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Respirar 
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Ter saudade no final da tarde
Para quando escurecer, esquecer
Ao se deitar para dormir, dormir
Dormir.


Composição: Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo / Chico Salém 


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

tantas histórias, tantas questões


Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?
Nos livros estão nomes de reis;
Os reis carregaram as pedras?
E Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem a reconstruía sempre?
Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a construíram?
No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores?
Na legendária Atlântida, quando o mar a engoliu, os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César ocupou a Gália.
Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou quando sua armada naufragou. Foi o único a chorar?
Frederico 2º venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem partilhou da vitória?
A cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias,
Tantas questões.

Perguntas de um trabalhador que lê . Berthold Brecht (1935).


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

tempo tempero tecendo o futuro

É preciso estar escuro
Pra eu poder dormir em paz
Mas em mim há uma luz
Que não sei como apagar

Eu canto
Incontido cortando o escuro
Sexto sentido saltando o muro


É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar


Mundo mandala
Mudando o impuro

Tempo tempero
Tecendo o futuro


Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai-ai-ai, estrelas me respondam como eu posso descansar


É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar


Mundo mandala
Mudando o impuro

Tempo tempero
Tecendo o futuro

Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas...


Itamar Assumpção / Ricardo Amaral Rego

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

o instinto persiste

 

"As Raposas” (Die Füchse) de Franz Marc

***
 
Se raposa velha é sinal de esperteza,
certamente não é sinal de esperança?

Fábio Bialo


domingo, 2 de novembro de 2025

os deuses tecem o avesso

"(...) Havia tantos anos que não nos víamos! E, de repente, num estacionamento, os nossos caminhos se cruzaram. Dizem que isso se chama “coincidência” – quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter sido preparados. De fato, foi um acidente. Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.

Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que “coincidências” não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências quando vistas na face direita do tapete. Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens vêem o direito; os deuses tecem o avesso."


Rubem Alves. Carta a um amigo.


sexta-feira, 31 de outubro de 2025

troço de louco

 

o amor, esse sufoco,
agora há pouco era muito,
agora, apenas um sopro

ah, troço de louco,
corações trocando rosas
e socos

 


Paulo Leminski. Distraídos Venceremos

 

domingo, 26 de outubro de 2025

quando me demoro na alegria

 "E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir."


Clarice Lispector. A Descoberta do Mundo

sexta-feira, 24 de outubro de 2025

talvez num tempo da delicadeza

 

***

“Ser criatura é delicadeza demais para se esquecer.”


Adélia Prado


quarta-feira, 15 de outubro de 2025

sinto a alma a mudar

Alma estranha esta que abrigo,

Esta que o Acaso me deu,

Tem tantas almas consigo

Que eu nem sei bem quem sou eu.


Jamais na Vida consigo

Ter de mim o que é só meu;

Para supremo castigo,

Eu sou meu próprio Proteu.


De instante a instante, a me olhar,

Sinto, num pesar profundo,

A alma a mudar... a mudar...


Parece que estão, assim,

Todas as almas do Mundo,

Lutando dentro de mim...


Confusão. Raul de Leoni. 

sábado, 11 de outubro de 2025

no descomeço era o verbo

(...)

Em poesia,
que é voz de poeta,
que é a voz de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.

 

Manoel de Barros

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

manter o rumo e a cadência

 


Que tal um Samba? - Chico Buarque (2022)

domingo, 5 de outubro de 2025

a graça encantada da incerteza

Tu que vives e passas, sem saber

O que é a vida nem porque é, que ignoras

Todos os fins e que, pensando, choras

Sobre o mistério do teu próprio Ser,


Não sofras mais à espera das auroras

Da suprema verdade a aparecer:

A verdade das cousas é o prazer

Que elas nos possam dar à flor das horas...


Essa outra que desejas, se ela existe,

Deve ser muito fria e quase triste,

Sem a graça encantada da incerteza...


Vê que a Vida afinal, - sombras, vaidades -

É bela, é louca e bela, e que a Beleza

É a mais generosa das verdades...


Sabedoria. Raul de Leoni.


sábado, 4 de outubro de 2025

estética poética

 
Sails
Batik - Tatiana Belokonenko

Recentemente me deparei com a obra Sails (velas), criação da artista ucraniana Tatiana Belokonenko. A técnica utilizada é o Batik, um processo artístico que une tecido, cera e pigmentos. 

A escolha pelo batik é estética e também poética. A técnica exige paciência e camadas de sobreposição, remete a um processo artesanal em que nenhum detalhe se repete. 

Há algo de meditativo nesse fazer artístico...


domingo, 21 de setembro de 2025

é sempre uma história de amor


é sempre
uma história de amor:
a árvore
que se afeiçoa ao pássaro
o sol
que se liga à água
os olhos
que se prendem ao mar


Gil T. Souza. Falso lugar.



terça-feira, 16 de setembro de 2025

o sossego de mim mesmo


Poemas de Álvaro de Campos. Os poetas de Fernando Pessoa.

 

sábado, 13 de setembro de 2025

comer o passado

 (...)

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 

Por uma viagem metafísica e carnal, 

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...


Aniversário. Poemas de Álvaro de Campos. Os poetas de Fernando Pessoa. 

domingo, 31 de agosto de 2025

equilíbrio em movimento

Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio

De estar dentro do meu corpo, 

de não transbordar da minh'alma.


 Livro de Versos de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.


sexta-feira, 1 de agosto de 2025

desejo é não saber

O desejo não combina com segurança e senhas. O desejo é não saber o que vai acontecer depois.

Fabrício Carpinejar. O Amor Esquece de Começar

quinta-feira, 31 de julho de 2025

continuamente

"Eu sou feita e refeita continuamente." 

Virgínia Woolf. Orlando.

Retrato Virginia Woolff descansando em uma poltrona enquanto tricota, pintado em 1912 por sua irmã mais velha, Vanessa Bell.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

saudades de nada

Antes que o estio cesse e chegue o outono, no cálido intervalo em que o ar pesa e as cores abrandam, as tardes costumam usar um traje sensível de gloríola falsa. São comparáveis àqueles artifícios da imaginação em que as saudades são de nada, e se prolongam indefinidas como rastos de navios formando a mesma cobra sucessiva.

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.

domingo, 27 de julho de 2025

vento de gente

 


nuvens carregadas,

mas o céu não ficou vazio.

em fila torta, 

elas dançam em cores sobre o cinza.

não esperam o tempo abrir -

ninguém avisou que era dia de festa,

mas os meninos as lançaram mesmo assim.


o mundo não para -

e a gente também não.

sempre haverá quem insista

na leveza.


(poeticanaty)

quarta-feira, 23 de julho de 2025

eu-mulher

(...)

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.

Eu fêmea-matriz.

Eu força-motriz.

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo.


Conceição Evaristo

domingo, 20 de julho de 2025

na álgebra do mistério

Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. (...) tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.

Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.

Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que e a essência das coisas. 

Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está no meu poder alterar. 


Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. 

terça-feira, 8 de julho de 2025

memória guardada

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo e volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado. O vestido. Bagagem.

terça-feira, 1 de julho de 2025

processos levam tempo

 

Yumi Okita - esculturas de tecido 

***

"Nós nos deleitamos com a beleza da borboleta, mas raramente admitimos as mudanças pelas quais ela passou para atingir essa beleza."


Maya Angelou.



segunda-feira, 30 de junho de 2025

o silêncio é um lugar

 “Ficamos ali em silêncio. Eu segurando um copo d’água que já tinha esquentado e ela com os olhos cheios de histórias que não me contava. Às vezes o silêncio é o único lugar onde a gente se entende. E naquele silêncio, eu soube que ela também estava cansada de perder.” 


Jarid Arraes. Redemoinho em dia quente. 


sexta-feira, 27 de junho de 2025

olhos acesos

 

Obra de técnica mista do artista queniano Muyaka Shitanda. 

***

"Tenho me sentido estranho, como um gato que passa por todos os cantos e ninguém percebe que ele é, na verdade, quem observa tudo."

Caio Fernando Abreu - Os Dragões Não Conhecem o Paraíso



terça-feira, 24 de junho de 2025

o mundo se oferece à imaginação

  "Quem quer que você seja, não importa quão solitário, o mundo se oferece à sua imaginação, chama você como gansos selvagens, seu som estridente e excitante - anunciando repetidamente seu lugar na família das coisas."


Mary Oliver. Dream Work


segunda-feira, 23 de junho de 2025

põe pra fora essa alegria

 


roda pela vida afora
e põe pra fora essa alegria
dança que amanhece o dia pra se cantar


quinta-feira, 19 de junho de 2025

onde todo coração dói


Os amigos vêm até este lugar para se despedir, entre lamentos. 

Oh Lao-lao Ting, a taberna onde todo coração dói. 

Aqui, até a brisa da primavera conhece a mágoa da partida;

Não permite que os ramos do salgueiro fiquem verdes.


Li Bai. A taberna de lao-lao ting.

Tradução: Pedro Belo Clara 

segunda-feira, 16 de junho de 2025

a raiz das ações


 
“Enfrentando a imperfeição aprendi a perdoar. Olho para a raiz das ações, e concluo que também eu a podia ter cometido. A pior delas.”


Inês Pedrosa


domingo, 15 de junho de 2025

transitoriedade

 

entre a árvore e o universo,

a densidade do silêncio noturno, 

o mistério do cosmos.

(poeticanaty)


domingo, 8 de junho de 2025

uma vida autenticamente humana


"Age de tal maneira que as consequências da tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma vida autenticamente humana sobre a Terra." 


Jonas Hans


quarta-feira, 4 de junho de 2025

olhos partidos


A mulher que chora - Pablo Picasso 


Choro porque sei que o tempo é curto

Pra se viver 

E se morrer.


***


Picasso rompeu com as noções tradicionais de perspectiva e representação. Ao decompor e remontar objetos e figuras a partir de múltiplos pontos de vista simultâneos, ele cria uma nova sensação de espaço.


Fonte: Cubismo e além: as contribuições de Pablo Picasso para a arte moderna. Isabella de Souza.



segunda-feira, 2 de junho de 2025

a árvore envenenada


Sentia raiva de um companheiro
Confessei o ódio, o ódio se foi inteiro
Sentia raiva de um inimigo
Fiquei calado, o ódio vi crescido.
E o reguei de alma sombria
Com meu pranto noite e dia
E escondido sob sorrisos gentis
E com corteses, enganosos ardis.
E cresceu noite e manhã
Até florescer luzente maçã
Ao ver o brilho que ela tinha
O inimigo sabia que era minha
E foi ao meu jardim roubar
Quando a noite velou o pomar
Bem cedo vi, com agrado
O inimigo sob a árvore estirado.

William Blake


sábado, 31 de maio de 2025

um pedaço do mundo

“Estar com ele era como estar com um pedaço do mundo, como se houvesse crescido uma árvore dentro da casa, junto com móveis e livros, e ela pudesse tocá-la..."


Clarice Lispector. Perto do Coração Selvagem 


sexta-feira, 30 de maio de 2025

desde sempre e para sempre

Lindeza - Gal Costa


Coisa linda 
Desejar-te desde sempre 
Ter-te agora e o dia é sempre 
Uma alegria pra sempre 

(letra de Caetano Veloso)

quarta-feira, 28 de maio de 2025

dormir consigo para acordar inteira

eu durmo comigo/ de bruços deitada eu durmo comigo/ virada pra direita eu durmo comigo/ eu durmo comigo abraçada comigo/ não há noite tão longa em que não durma comigo/ como um trovador medieval agarrado ao alaúde eu durmo comigo/ eu durmo comigo debaixo da noite estrelada/ eu durmo comigo enquanto os outros fazem aniversário/ eu durmo comigo ás vezes de óculos/ e mesmo no escuro sei que estou dormindo comigo/ e quem quiser dormir comigo vai ter que dormir do lado.

- Angélica Freitas

terça-feira, 27 de maio de 2025

o desejo como assombro


"Há tanto tempo espero por um poema que me assombre e que eu não tenha que escrever."

Hilda Hilst. Do Desejo

sábado, 24 de maio de 2025

casa da palavra onde o silêncio mora

 

Caetano Veloso e Milton Nascimento - A terceira margem do Rio


"Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo."

João Guimarães Rosa. A terceira margem do Rio

sexta-feira, 23 de maio de 2025

a poesia como experiência vital

 "(...) consideremos a natureza múltipla do corte:

se corto um corpo o faço como quando corto o verso de um poema?

ambos os gestos apontam para o fim, acenam para a morte.

a escrita, contudo, mesmo quando se abisma, traz seu impulso de vida...

Um convite para pensar a poesia não só como arte, mas como experiência vital."


Fernanda Morse

sexta-feira, 2 de maio de 2025

surreal

 



"Eu quero a estrela da manhã. Mesmo que nunca a toque, mesmo que ela nem exista."


Caio Fernando Abreu. Os Sapatinhos Vermelhos. In: Morangos Mofados

sábado, 8 de março de 2025

o passado ecoa no presente

Afresco Minoico das Senhoras em Azul

A identidade feminina, assim como a moda minoica, era tecida entre estética e significado. Na Idade do Bronze, vestes e ornamentos não eram meros adornos, mas expressões de poder, cultura e pertencimento. As mulheres minoicas e micênicas usavam a vestimenta como símbolo de identidade e status, estabelecendo uma relação profunda entre corpo, poder e história. Vestígios tecidos no tempo, suas roupas narravam quem eram e onde pertenciam. Assim como a memória gravada na pele e no tecido, a moda dessas civilizações revela histórias de mulheres que comunicavam seu lugar no mundo. Entre linhas e versos, o passado ecoa no presente.

Referência: A Beleza na Idade do Bronze - Moda Micênica e Minoica. World History Encyclopedia.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

sem brusquidão nem pudor

Apertou-a contra si e ela pôde sentir como os seus corpos se ajustavam bem um ao outro. Percebeu que ele devia estar a sentir o mesmo, que o peito dela tinha encostado completamente ao dele, que estava à beira de se deixar ir. Fechou os olhos quando ele lhe puxou a cabeça para trás e às escuras deixou-o mergulhar na sua boca e ficar lá dentro, enquanto os braços lhe pendiam ao longo do corpo e a mão que a enlaçava pela cintura a esmagava contra o corpo dele.
.
Luís Bernardo recuou com ela até à borda da cama, sem nunca lhe largar a cintura nem a boca. Sentou-a na cama e ajoelhou-se a seus pés, só então interrompendo aquele beijo interminável. Colocou-lhe as mãos abertas sobre o peito dela, sem brusquidão nem pudor, como um menino que desfruta o seu brinquedo.
.
.
Miguel Sousa Tavares. In: Equador
.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

pele de creta

 

Senhora Minoica - Afresco Akrotiri

***

Nos traços do muro,
a dança atravessa o tempo,
ecoando em passos esquecidos.

A mulher, quase apagada,
resiste como memória viva.

O tempo, áspero, não apaga o ritmo;
em cada rachadura,
o espírito vibra.

E ali, onde a cor desbota,
resiste a memória viva.

(poeticanaty)



domingo, 12 de janeiro de 2025

a mira admira sossego


 de olhos abertos eu vi um trem

que me levou pra sonhar longe  


Liniker - Me ajude a salvar os domingos

sábado, 4 de janeiro de 2025

está escrito


Que fique muito mal explicado
Não faço força pra ser entendido
Quem faz sentido é soldado
Para todos os efeitos meus defeitos não são meus

Que importa o sentido se tudo vibra?

Não importa o sentido
O bramido do meu canto mudo
Comporta bemóis e sustenidos
Convoca ouvidos surdos
Ao silêncio suave
Da melodia sem conteúdo

Está escrito
Quem não quiser ceder
ao canto das páginas
feche os olhos
ou tape com cera os ouvidos.


Sentido. Gláucio Giordanni e Carlos Moreira.