quinta-feira, 5 de março de 2026

poema que navega o infinito

 Na noite clara, a manhã que não raiou
Na madrugada, tantas almas escorridas,
A lua é taça, tantas lágrimas bebidas
No choro triste, meu sorriso enfim brindou.

No fundo, o mundo mudo é meu grito
O sangue da poesia engasgada
Fantasma de uma nau atormentada
Poema que navega o infinito.

A procissão se arrasta pela rua
O rio escorre lento em meu leito
Escuto rezas que imploram ao peito
Faço promessas na palavra crua.

O velho Chico invade, banha aldeias,
É água santa, força de rebento
Como um verso de açoitar tormento
Água-palavra corre em minhas veias.

Solto em garrafas meu poema torto
Sem melodia e sem dedicatória
Quem encontrar que guarde na memória
Meu verso-nau que escapou do porto.


Beatriz Tuxá

segunda-feira, 2 de março de 2026

amarra o teu arado a uma estrela


 Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces e polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra o teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus

Gilberto Gil ❤️