
Manoel de Barros

Nós temos cinco sentidos:são dois pares e meio de asas.- Como quereis o equilíbrio?David Mourão Ferreira
Eu te recordava como a alma apreendidadessa tristeza que tu me julgas.Então, aonde se encontrava?Entre estas gentes?Falando que palavras?Por que me chega todo este amor de um golpequando me sinto triste, e te sinto longe?Pablo Neruda. In: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada
Na despedidaA estrada é lindaPra sempre um caminharE sopra o ventoDo encatamentoCerteza de voltarÉ bomQue seja logoAos céus eu rogoQue eu volte para verTanta belezaLuz da nobrezaPra sempre eu quero terVocê e eu.
Meu doido coração aonde vais,No teu imenso anseio de liberdade?Toma cautela com a realidade;Meu pobre coração olha que cais!Deixa-te estar quietinho! Não amaisA doce quietação da soledade?Tuas lindas quimeras irreais,Não valem o prazer duma saudade!Tu chamas ao meu seio, negra prisão!Ai, vê lá bem, ó doido coração,Não te deslumbres o brilho do luar!...Não 'stendas tuas asas para o longe...Deixa-te estar quietinho, triste monge,Na paz da tua cela, a soluçar...Florbela Espanca
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas
defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos
defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias
defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre
defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso
defender a alegria como um direito
defendê-la de Deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegriaMario Benedetti. In: Lugares mal situados