segunda-feira, 31 de julho de 2023

domingo, 30 de julho de 2023

nada sei de borboletas


Era uma borboleta. Passou roçando em meus cabelos, e no primeiro instante pensei que fosse uma bruxa ou qualquer outro desses insetos que fazem vida urbana; mas, como olhasse, vi que era uma borboleta amarela.

Era na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; ela borboleteava junto ao mármore negro do Grande Ponto; depois desceu, passando em face das vitrinas de conservas e uísques; eu vinha na mesma direção; logo estávamos defronte da A.B.I. Entrou um instante no hall, entre duas colunas; seria um jornalista? – pensei com certo tédio.

Mas logo saiu. E subiu mais alto, acima das colunas, até o travertino encardido. Na rua México eu tive de esperar que o sinal abrisse: ela tocou, fagueira, para o outro lado, indiferente aos carros que passavam roncando sob suas leves asas. Fiquei a olhá-la. Tão amarela e tão contente da vida, de onde vinha, aonde iria? Fora trazida pelo vento das ilhas – ou descera no seu vôo saçaricante e leve da floresta da Tijuca ou de algum morro – talvez o de São Bento Onde estaria uma hora antes, qual sua idade? Nada sei de borboletas. nascera, acaso, no jardim do Ministério da Educação? Não; o Burle Marx faz bons jardins, mas creio que ainda não os faz com borboletas – o que, aliás, é uma boa idéia. Quando eu o mandar fazer os jardins de meu palácio, direi: Burle, aqui sobre esses manacás, quero uma borboleta amare... Mas o sinal abriu e atravessei a rua correndo, pois já ia perdendo de vista a minha borboleta.

A minha borboleta! Isso, que agora eu disse sem querer, era o que eu sentia naquele instante: a borboleta era minha – como se fosse meu cão ou minha amada de vestido amarelo que tivesse atravessado a rua na minha frente, e eu devesse segui-la. Reparei que nenhum transeunte olhava a borboleta; eles passavam, devagar ou depressa, vendo vagamente outras coisas – as casas, os veículos ou se vendo –, só eu vira a borboleta, e a seguia, com meu passo fiel.


(...) a borboleta chegou à esquina de Araújo Porto Alegre com a Avenida Rio Branco; dobrou à esquerda, como quem vai entrar na Biblioteca Nacional pela escada do lado, e chegou até perto da estátua de uma senhora nua que ali existe; voltou; subiu, subiu até mais além da copa das árvores que há na esquina – e se perdeu.


Está claro que esta é a minha maneira de dizer as coisas; na verdade, ela não se perdeu; eu é que a perdi de vista. Era muito pequena, e assim, no alto, contra a luz do céu esbranquiçado da tardinha, não era fácil vê-la. Cuidei um instante que atravessava a Avenida em direção à estátua de Chopin; mas o que eu via era apenas um pedaço de papel jogado de não sei onde. Essa falsa pista foi que me fez perder a borboleta.


(...) Havia, no círculo das pessoas íntimas, uma certa expectativa, como se uma borboleta amarela pudesse promover grandes proezas no centro urbano. Pois eu decepciono a todos, eu morro, mas não falto à verdade: minha borboleta amarela sumiu. Ergui-me do banco, olhei o relógio, saí depressa, fui trabalhar, providenciar, telefonar... Adeus, pequenina borboleta amarela.


Rubem Braga. A Borboleta Amarela. 🦋

sábado, 29 de julho de 2023

um coração que bate

(...) Virou mais uma página. O relógio batera duas horas já há algum tempo. Normalmente, a essa hora não havia ninguém no teatro; hoje, porém, ele vivia; ouvia-se o ruído da máquina de escrever e o abajur espalhava sobre os papéis uma luz rósea. "E eu estou aqui, o meu coração bate. Hoje o teatro possui um coração que bate." 


A convidada. Simone de Beuvoir

sexta-feira, 28 de julho de 2023

quinta-feira, 27 de julho de 2023

todas as cartas de amor são ridículas

 Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.

A verdade é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.


(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas).



Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.

domingo, 23 de julho de 2023

nas tuas mãos começa a liberdade

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.



Manuel Alegre

quinta-feira, 20 de julho de 2023

momento

Enquanto eu fiquei alegre,

permaneceram um bule azul com um descascado no bico,

uma garrafa de pimenta pelo meio,

um latido e um céu limpidíssimo

com recém-feitas estrelas.

Resistiram nos seu lugares, em seus ofícios,

constituindo o mundo pra mim, anteparo

para o que foi um acometimento:

súbito é bom ter um corpo pra rir

e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo

alegre do que triste. Melhor é ser.


Adélia Prado 💜 


quarta-feira, 19 de julho de 2023

terça-feira, 18 de julho de 2023

nessa procura toda de me lapidar


viajar
nessa procura toda
de me lapidar
nesse momento agora




Anima - Milton Nascimento

domingo, 16 de julho de 2023

pra sonhar


Arte de Anna Cunha, ilustradora brasileira. 

quarta-feira, 12 de julho de 2023

consolai-me

Coisa miserável,
suspiro de angústia
enchendo o espaço,
vontade de chorar,
coisa miserável,
miserável.

Senhor, piedade de mim,
olhos misericordiosos
pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo,
consolai-me.

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe
ou, quem sabe? para um céu vazio.

É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
e ficar fechado
entre duas paredes,
sem a mais leve cólera
ou humilhação.


Carlos Drummond de Andrade
Coisa Miserável. In: Sentimento do Mundo. 

segunda-feira, 10 de julho de 2023

por um triz

 

Vou correr o risco de afundar de vez 
Sob o peso da insensatez 
Já sem poder boiar 

Estarei com alguém nariz contra nariz 
Um afogamento por um triz 
Tentarei me salvar 

Sempre assim 
Sempre que o amor vaza a maré 
Vou parar bem longe aonde não dá pé 
Difícil de nadar 

Outro dia um fato aconteceu enfim 
Um golfinho anjo, um boto serafim 
Chegou pra me ajudar 

Me agarrei àquele corpo liso e me deixei levar 
Ao lado seu sorriso aberto a me guiar 
Então eu relaxei e me entreguei completamente ao mar. 


Afogamento 
Voz: Gilberto Gil / Roberta Sá 
Composição: Gilberto Gil

domingo, 9 de julho de 2023

pela porta dos sonhos

Aquele girassol no jardim público de Palmira.
Ias de auto para Juiz de Fora; a gasolina acabara;
havia um salão de barbeiro; um fotógrafo; uma igreja; um menino parado;
havia também (entre vários) um girassol. 

A moça passou.
Entre os seios e o girassol tua vontade ficou interdita.

Vontade garota de voar, de amar, de ser feliz, de viajar, de casar, de
[ter muitos filhos;
vontade de tirar retrato com aquela moça, de praticar libidinagens,
[de ser infeliz e rezar;
muitas vontades; a moça nem desconfiou…
Entrou pela porta da igreja, saiu pela porta dos sonhos.

O girassol, estúpido, continuou a funcionar.


Carlos Drummond de Andrade ❤️
Girassol. In: Sentimento do Mundo

sábado, 8 de julho de 2023

o poema só existe quando pode ser do outro

Ele entrou em mim sem cerimônias
Meu amigo seu poema em mim se estabeleceu
Na primeira fala eu já falava como se fosse meu
O poema só existe quando pode ser do outro
Quando cabe na vida do outro
Sem serventia não há poesia não há poeta não há nada
Há apenas frases e desabafos pessoais
Me ouça, Carlos, choro toda vez que minha boca diz
A letra que eu sei que você escreveu com lágrimas
Te amo porque nunca nos vimos
E me impressiono com o estupendo conhecimento
Que temos um do outro
Carlos, me escuta
Você que dizem ter morrido
Me ressuscitou ontem à tarde
A mim a quem chamam viva
Meu coração volta a ser uma remington disposta
Aprendi outra vez com você
A ouvir o barulho das montanhas
A perceber o silêncio dos carros
Ontem decorei um poema seu
Em cinco minutos
Agora dorme, Carlos.


Elisa Lucinda 
Penetração do Poema das Sete Faces
(A Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 7 de julho de 2023

tem muita flor pra todo lado

 

Obra de Vicky Oldfield, artista contemporânea que se inspira em flores silvestres e ervas daninhas. Ela usa técnicas experimentais para criar seus trabalhos em papel e outros materiais reciclados. Além das flores pintadas em aquarela, suas obras incluem objetos da natureza e da vida cotidiana.


Fonte: https://www.forartssake.com/product-category/printmakers/vicky-oldfield/#split-heading

quarta-feira, 5 de julho de 2023

confissões de amor

(...)

Eu te amo como quem esquece tudo
diante de um beijo:
as inúmeras horas desbeijadas
os terríveis desabraços
os dolorosos desencaixes
que meu corpo sofreu longe do seu.
Elejo sempre o encontro
Ele é o ponto do crochê.
Penélope invertida
nada começo de novo
nada desmancho
nada volto

Teço um novo tecido de amor eterno
a cada olhar seu de afeto
não ligo para nada que doeu.
Só para o que deixou de doer tenho olhos.
Cega do infortúnio
pesco os peixes dos nossos encaixes
pesco as gozadas
as confissões de amor
as palavras fundas de prazer
as esculturas astecas que nos fixam
na história dos dias.


Elisa Lucinda 

terça-feira, 4 de julho de 2023

minha poesia é natural

"(...) Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento..."


“O Guardador de Rebanhos”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

saudade engole a gente


"(...) 
Quis saber o que é o desejo
De onde ele vem

Fui até o centro da terra
E é mais além

Procurei uma saída
O amor não tem

Estava ficando louco
Louco, louco de querer bem..."


Tanta Saudade 
Intérprete: Djavan
Composição: Chico Buarque / Djavan

domingo, 2 de julho de 2023

amar é pensar

Passei toda a noite, sem dormir, vendo, sem espaço, a figura dela,

E vendo-a sempre de maneiras diferentes do que a encontro a ela.

Faço pensamentos com a recordação do que ela é quando me fala,

E em cada pensamento ela varia de acordo com a sua semelhança.

Amar é pensar.

E eu quase que me esqueço de sentir só de pensar nela.

Não sei bem o que quero, mesmo dela, e eu não penso senão nela.

Tenho uma grande distracção animada.

Quando desejo encontrá-la

Quase que prefiro não a encontrar,

Para não ter que a deixar depois.

Não sei bem o que quero, nem quero saber o que quero. Quero só

Pensar nela.

Não peço nada a ninguém, nem a ela, senão pensar.



“O Pastor Amoroso”. Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa

sábado, 1 de julho de 2023

na medida em que me torno eu

O ser humano se torna 'eu' pela relação com o 'tu'. Na medida que me torno 'eu', digo 'tu'. 

Todo viver real é encontro. 


(Martin Beber)