quinta-feira, 27 de novembro de 2025

domingo, 23 de novembro de 2025

num dia


Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Respirar
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Não esperar nada acontecer
Ser gentil com qualquer pessoa
Sujar o pé de areia pra depois lavar na água
Lavar o pé na água pra depois sujar de areia
Esperar o vaga-lume piscar outra vez
Ouvir a onda mais distante por trás da onda mais próxima
Respirar 
Sentir o sabor do que comer
Caminhar
Se chover, tomar chuva
Ter saudade no final da tarde
Para quando escurecer, esquecer
Ao se deitar para dormir, dormir
Dormir.


Composição: Arnaldo Antunes / Hélder Gonçalves / Manuela Azevedo / Chico Salém 


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

tantas histórias, tantas questões


Quem construiu Tebas, a cidade das sete portas?
Nos livros estão nomes de reis;
Os reis carregaram as pedras?
E Babilônia, tantas vezes destruída,
Quem a reconstruía sempre?
Em que casas da dourada Lima viviam aqueles que a construíram?
No dia em que a Muralha da China ficou pronta,
Para onde foram os pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos-do-triunfo:
Quem os erigiu? Quem eram aqueles que foram vencidos pelos césares?
Bizâncio, tão famosa, tinha somente palácios para seus moradores?
Na legendária Atlântida, quando o mar a engoliu, os afogados continuaram a dar ordens a seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César ocupou a Gália.
Não estava com ele nem mesmo um cozinheiro?
Felipe da Espanha chorou quando sua armada naufragou. Foi o único a chorar?
Frederico 2º venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem partilhou da vitória?
A cada página uma vitória.
Quem preparava os banquetes?
A cada dez anos um grande homem.
Quem pagava as despesas?
Tantas histórias,
Tantas questões.

Perguntas de um trabalhador que lê . Berthold Brecht (1935).


segunda-feira, 17 de novembro de 2025

segunda-feira, 10 de novembro de 2025

tempo tempero tecendo o futuro

É preciso estar escuro
Pra eu poder dormir em paz
Mas em mim há uma luz
Que não sei como apagar

Eu canto
Incontido cortando o escuro
Sexto sentido saltando o muro


É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar


Mundo mandala
Mudando o impuro

Tempo tempero
Tecendo o futuro


Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai-ai-ai, estrelas me respondam como eu posso descansar


É preciso estar silêncio
Pra eu não ficar aflito
Mas em mim existe um grito
Que não posso mais calar


Mundo mandala
Mudando o impuro

Tempo tempero
Tecendo o futuro

Lua cheia na varanda, rio da mente a deslizar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas me respondam como eu posso descansar
Ai, estrelas...


Itamar Assumpção / Ricardo Amaral Rego

quarta-feira, 5 de novembro de 2025

o instinto persiste

 

"As Raposas” (Die Füchse) de Franz Marc

***
 
Se raposa velha é sinal de esperteza,
certamente não é sinal de esperança?

Fábio Bialo


domingo, 2 de novembro de 2025

os deuses tecem o avesso

"(...) Havia tantos anos que não nos víamos! E, de repente, num estacionamento, os nossos caminhos se cruzaram. Dizem que isso se chama “coincidência” – quando encontros acontecem acidentalmente, sem ter sido preparados. De fato, foi um acidente. Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.

Dizem alguns, entre eles Jung, se não me engano, que “coincidências” não existem. Coincidências, eles dizem, só são coincidências quando vistas na face direita do tapete. Mas, se pudéssemos olhar o avesso, encontraríamos os fios do destino que fizeram aquele encontro inevitável. Os homens vêem o direito; os deuses tecem o avesso."


Rubem Alves. Carta a um amigo.