sábado, 30 de setembro de 2023

onde não lhe cabe mais



 Homem morando onde não lhe cabe mais - Suzano Correia

terça-feira, 26 de setembro de 2023

como se tivessem boca


Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.


Alexandre O'Neill

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

é azul à minha volta

"(...) Começo a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias..."


Caio Fernando Abreu. Qualquer coisa. 

domingo, 24 de setembro de 2023

em paz


Ekua Holmes 

sábado, 23 de setembro de 2023

o bem da existência

De longe te hei-de amar
– da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.


Cecília Meireles

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

para quem sabe olhar

Perdida na avenida

Canta seu enredo

Fora do carnaval

Perdeu a saia

Perdeu o emprego

Desfila natural

Esquinas mil buzinas

Imagina orquestras

Samba no chafariz

Viva a folia

A dor não presta

Felicidade, sim

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

Bambeia, cambaleia

É dura na queda

Custa a cair em si

Largou família

Bebeu veneno

E vai morrer de rir

Vagueia, devaneia

Já apanhou à beça

Mas para quem sabe olhar

A flor também é ferida aberta

E não se vê chorar...

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas







Dura na queda 

Voz: Elza Soares

Composição: Chico Buarque


domingo, 17 de setembro de 2023

olhos abertos para amanhã

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


Mário Dionísio. Arte Poética. 


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

bem pra lá do fim do mundo


Roda, gira, vira o vento
Meu amor vai te levar
Bem pra lá do fim do mundo
Onde eu vou te chamar


Gal Costa - Flor de Maracujá
Composição: João Donato / Lysias Enio

segunda-feira, 11 de setembro de 2023

a consciência da necessidade

"(...) A distância mais externa do eu, o aspecto objetivo da necessidade, sucumbe diante da subjetividade da necessidade, onde o eu elimina todas as distâncias para descobrir a sua condição de ser submetido à necessidade.

O mundo daquilo que se pode externamente ver e tocar é, assim, ultrapassado por aquilo que se pode perceber e experimentar só internamente. 

A mera necessidade é superada pela consciência da necessidade. (...)"


Ricardo Peter 

domingo, 10 de setembro de 2023

sábado, 9 de setembro de 2023

chegou-me a resposta no ar

Namorados, namorados,
não vos vejo mais alados,
sublimes, alcandorados
nos miríficos estados
de êxtases multiplicados
em horizontes dourados
de mundos ensolarados.
Estais casmurros, calados
entre carinhos cansados
e sonhos desanimados.
Que vos sucede, coitados?
Acaso foram arquivados
os projetos encantados,
alvo de finos cuidados,
pelos, dois armazenados?
Onde os férvidos agrados,
os toques maravilhados
de vossos dias passados?
Namorados, namorados,
deixai-nos desarvorados!

Diviso em vossos semblantes
sombras, traços inquietantes,
diversos dos crepitantes,
abertos e fulgurantes
sinais festivos de antes.
Já não sois doces amantes,
não carregais, exultantes,
o suave peso de instantes
que pareciam diamantes
nos volteios elegantes
dos jogos inebriantes
e nos beijos delirantes
quando adultos são infantes
buscando refrigerantes
que em vez de serem calmantes
inda são mais excitantes.
Já não sois os bandeirantes
de descobertas faiscantes.
Diviso em vossos semblantes
amarguras humilhantes.

Chegou-me a resposta no ar,
após muito meditar
e livros mil consultar:
A inflação tentacular,
com guantes de arrebentar,
ferrou-vos na jugular.
Vosso anseio de morar
Em casinha à beira-mar
ou qualquer outro lugar
desfez-se no limiar.
A recessão de lascar
nem vos deixa respirar,
e de empregos, neste andar,
quem ousa mais cogitar?
Um pacote singular
de rigidez tumular
desaba no patamar
da pretensão de casar.
Chegou-me a resposta no ar:
não dá mais pra namorar.


Carlos Drummond de Andrade. Amar se aprende amando (1985).

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

rito certeiro


 um lance

que laça na hora

aqui e agora

futuro não há


Aquilo que dá no coração
Composição: Lenine

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

olha-me de novo


Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Hilda Hilst ❤️


terça-feira, 5 de setembro de 2023

amanhã não desisto

Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei dizer mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora.

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não. Há uma espécie de heroísmo então quando estendo o braço, alongo as mãos, abro os dedos e brota. Toco. Perto da minha a boca se entreabre lenta, úmida, cigarro, chiclete, conhaque, vermelha, os dentes se chocam, leve ruído, as línguas se misturam. Naufrago em tua boca, esqueço, mastigo tua saliva, afundo. Escuridão e umidade, calor rijo do teu corpo contra a minha coxa, calor rijo do meu corpo contra a tua coxa. Amanhã não sei, não sabemos.

Pensei em você. Eram exatamente três da tarde quando pensei em você. Sei porque sacudi a cabeça como se você fosse uma tontura dentro dela e olhei o digital no meio da avenida.

Corre, corre. O número do telefone dissolvendo-se em tinta na palma da mão suada. Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim destes dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu ombro. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta e você me leva para Creta, Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem. O telefone toca três vezes. Isto é uma gravação deixe seu nome e telefone depois do bip que eu ligo assim que puder, OK?

O cheiro do teu corpo persiste no meu durante dias. Não tomo banho. Guardo, preservo, cheiro o cheiro do teu cheiro grudado no meu. E basta fechar os olhos para naufragar outra vez e cada vez mais fundo na tua boca. Abismos marinhos, sargaços. Minhas mãos escorrem pelo teu peito. Gramados batidos de sol, poços claros. Alguma coisa então pára, todas as coisas param. Os automóveis nas ruas, os relógios nas paredes, as pessoas nas casas, as estrelas que não conseguimos ver aqui do fundo da cidade escura. Olho no poço do teu olho escuro, meia-noite em ponto. Quero fazer um feitiço para que nada mais volte a andar. Quero ficar assim, no parado. Sei com medo que o que trouxe você aqui foi esse meu jeito de ir vivendo como quem pula poças de lama, sem cair nelas, mas sei que agora esse jeito se despedaça. Torre fulminada, o inabalável vacila quando começa a brotar de mim isso que não está completo sem o outro. Você assopra na minha testa. Sou só poeira, me espalho em grãos invisíveis pelos quatro cantos do quarto. Fico noite, fico dia. Fico farpa, sede, garra, prego. Fico tosco e você se assusta com minha boca faminta voraz desdentada de moleque mendigo pedindo esmola neste cruzamento onde viemos dar.

A cidade está louca, você sabe. A cidade está doente, você sabe. A cidade está podre, você sabe. Como posso gostar limpo de você no meio desse doente podre louco? Urbanóides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras que não chego a decifrar em seus olhos semafóricos. Tenho pressa, não podemos perder tempo. Como chamar agora a essa meia dúzia de toques aterrorizados pela possibilidade da peste? (Amor, amor certamente não.) Como evitaremos que nosso encontro se decomponha, corrompa e apodreça junto com o louco, o doente, o podre? Não evitaremos. Pois a cidade está podre, você sabe. Mas a cidade está louca, você sabe. Sim, a cidade está doente, você sabe. E o vírus caminha em nossas veias, companheiro.

Fala, fala, fala. Estou muito cansado. Já não identifico nenhuma palavra no que diz. Apenas me deixo embalar pelo ritmo de sua voz, dentro dessa melodia monótona angustiada perpiexa repetitiva. Quase três da manhã. Não temos aonde ir, nunca tivemos aonde ir. Um nojo, vezenquando me dá um asco — nojo é culpa, nojo é moral — você se sente sórdido, baby? — eu tenho medo, não quero correr riscos — mas agora só existe um jeito e esse jeito é correr o risco — não é mais possível — vamos parar por aqui — quero acordar cedo, fazer cooper no parque, parar de beber, parar de fumar, parar de sentir — estou muito cansado — não faz assim, não diz assim — é muito pouco — não vai dar certo — anormal, eu tenho medo — medo é culpa, medo é moral — não vê que é isso que eles querem que você sinta? medo, culpa, vergonha — eu aceito, eu me contento com pouco — eu não aceito nada nem me contento com pouco — eu quero muito, eu quero mais, eu quero tudo.

Eu quero o risco, não digo. Nem que seja a morte.

Cachorro sem dono, contaminação. Sagüi no ombro, sarna. Até quando esses remendos inventados resistirão à peste que se infiltra pelos rombos do nosso encontro? Como se lutássemos — só nós dois, sós os dois, sóis os dois — contra dois mil anos amontoados de mentiras e misérias, assassinatos e proibições. Dois mil anos de lama, meu amigo. Esse lixo atapetando as ruas que suportam nossos passos que nunca tiveram aonde ir.

Chega em mim sem medo, toca no meu ombro, olha nos meus olhos, como nas canções do rádio. Depois me diz: — “Vamos embora para um lugar limpo. Deixe tudo como está. Feche as portas, não pague as contas nem conte a ninguém. Nada mais importa. Agora você me tem, agora eu tenho você. Nada mais importa. O resto? Ah, o resto são os restos. E não importam”. Mas seus livros, seus discos, quero perguntar, seus versos de rima rica? Mas meus livros, meus discos, meus versos de rima pobre? Não importa, não importa. Largue tudo. Venha comigo para qualquer outro lugar. Triunfo, Tenerife, Paramaribo, Yokohama. Agora, já. Peço e peço e não digo nada mas peço e peço diga, diga já, diga agora, diga assim. Você não diz nada. Você não me vê por trás do meu olho que vê. Você não me escuta por trás da minha boca que pede sem dizer, e eu bem sei. Você planeja partir para um país distante, sem mim, de onde muitos anos depois receberei a carta de um desconhecido com nome impronunciável anunciando a sua morte. Foi em abril, dirá, abril ou maio. Ou setembro, outubro. Os mais cruéis dos meses. Tanto faz, já não importará depois de tanto tempo, numa cidade remota.

Pelas escadarias da avenida deserta, lata de Coca-Cola largada na porta da igreja, aqui parece que o tempo não passou, quero te mostrar um vitral, esta sacada, aquele balcão como os de Lorca, entremeado de rosas, quero dividir meu olhar, desaprendi de ver sozinho e agora que tudo perdeu a magia, se magia houve, e havia, e não consigo mais ver nenhum anjo em você, pastor, mago, cigano, herói intergaláctico, argonauta, replicante, e agora que vejo apenas um rapaz dentro do qual a morte caminha inexorável, só não sabemos quando o golpe final, mas virá, cabelos tão negros, rosto quase quadrado, quase largo, quase pálido, onde já começou a devastação, olhos perdidos, boca de naufrágio vermelho pesado sobre o escuro da barba malfeita, olho tudo isso que vejo e não tem outra magia além dessa, a de ser real, e vou dizendo lento, como quem tem medo de quebrar a rija perfeição das coisas, e vou dizendo leve, então, no teu ouvido duro, na tua alma fria, e vou dizendo louco, e vou dizendo longo sem pausa — gosto muito de você gosto muito de você gosto muito de você.

Tantas mortes, não existem mais dedos nas mãos e nos pés para contar os que se foram. Viver agora, tarefa dura. De cada dia arrancar das coisas, com as unhas, uma modesta alegria; em cada noite descobrir um motivo razoável para acordar amanhã. Mas o poço não tem fundo, persiste sempre por trás, as cobras no fundo enleadas nas lanças. Por favor, não me empurre de volta ao sem volta de mim, há muito tempo estava acostumado a apenas consumir pessoas como se consome cigarros, a gente fuma, esmaga a ponta no cinzeiro, depois vira na privada, puxa a descarga, pronto, acabou. Desculpe, mas foi só mais um engano? e quantos mais ainda restam na palma da minha mão? Ah, me socorre que hoje não quero fechar  a porta com esta fome na boca, beber um copo de leite, molhar plantas, jogar fora jornais, tirar o pó de livros, arrumar discos, olhar paredes, ligar-desligar a tevê, ouvir Mozart para não gritar e procurar teu cheiro outra vez no mais escondido do meu corpo, acender velas, saliva tua de ontem guardada na minha boca, trocar lençóis, fazer a cama, procurar a mancha da esperma tua nos lençóis usados, agora está feito e foda-se, nada vale a pena, puxar as cobertas, cobrir a cabeça, tudo vale a pena se a alma, você sabe, mas alma existe mesmo? e quem garante? e quem se importa? apagar a luz e mergulhar de olhos fechados no quente fundo da curva do teu ombro, tanto frio, naufragar outra vez em tua boca, reinventar no escuro teu corpo moço apertado contra meu corpo, apalpar as virilhas, o pescoço, sem entender, sem conseguir chorar, abandonado, apavorado, mastigando maldições, dúbios indícios, sinistros augúrios, e amanhã não desisto: te procuro em outro corpo, juro que um dia eu encontro.
Não temos culpa, tentei. Tentamos.

Caio Fernando Abreu. Ovelhas Negras.

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

muito maior



"E o nosso amor se declara

muito maior 

e não para em nós..."


Composição: Alceu Valença e Rubens Valença

sábado, 2 de setembro de 2023

lembrei do verão


Summer of '62 - Ekua Holmes 

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

gosto de mel, de flor, de azul

Ah, bossa-nova, new-bossa...

Estou apaixonado.

Não se preocupem, não é por uma pessoa. Ou é, sim, por uma pessoa.

Mas só indiretamente. Estou apaixonado pelo trabalho dela, pela voz, pelo clima, pela delicadeza e pela Arte (assim mesmo, com maiúscula) dela. Deixo de mistério, entrego: Eliete Negreiros e seu último - segundo, ao que sei - LP, da Copacabana.

E isso que ando difícil, ando torturado. Não tenho tempo, cor­ro o dia todo, acho tudo e todos barulhentos, exaustivos. Movido por esse horrível sentimento de urgência paulistana que não me deixa olhar nada lentamente, sentir devagar. Sufocado, ando apressado. Nos segundos roubados desse estrangulador ganhar-a-vida, me alimento de jóias raras: João Gilberto, sempre, um pouco de Sade, Billie, Bassie, Nana Caymmi, Nara Leão, Schumann. Tudo o mais me parece atordoante. Ando em busca do silêncio que a cidade não dá. Da paz que a cidade não dá. Da suavidade zen que esta cidade não dá, nunca deu nem dará nunca. A ninguém.

Foi no meio do speed que chegou Eliete. Eu nunca tinha pres­tado atenção nela. Mal nos conhecemos, mais através de um lindo amigo em comum - Milton Hatoum, o Manaus. Mas tenho precon­ceitos. É feio, sei, mas tenho. Daí pensava: ai meu Deus, mais esta Arriguete, com aquelas letras concretistoides geladas & modernésimas... Nunca tive paciência para ouvir Eliete antes. Embora, nas poucas vezes em que nos cruzamos, ficasse agradecido e contagiado pela paz dela.

Comecei pela versão de La vie en rose. Deu um clack! na ca­beça, não sei explicar. Fui arriscando outras faixas, uma por uma, medo de estar enganado. Não estava. Primeiro veio uma letra lindíssima de Zé Miguel Wisnik, com música de Carlos Rennó: Domingo longo (ah, conheço tantos); veio um samba de Elton Medeiros e Eduardo Gudin, falando "às vezes se guarda o melhor caminho/ se oculta o desejo pra não sofrer".

Uns blues doloridos de Itamar Assumpção. O sax de Roberto Sion. No meio da pressa, como eu ia dizendo, a voz mansa, afinadíssima, de Eliete dizendo sossega, sossega, meu amigo, tudo é coisa de gente, tem um bonito in aparente por trás, tenta ver.

No terceiro dia da paixão, virei tiete e liguei pra ela. Queria dizer obrigado, menina, quando você canta, a vida para de girar tão rápido e até parece bonita. Ela foi paciente com minha inva­são. Desliguei agradecido, espantado com minha própria ousadia. Agradecer é difícil. E a gente precisa aprender, a gente precisa. Aprender a não ser só.

Eliete, new-bossa. Para que vocês compreendam: o primeiro LP que comprei na vida foi de Sylvinha Telles. Tinha doze anos. Aos trinta e sete, só João Gilberto me sereniza. Ou Astrud. Há um mês, só tiro para lavar uma camiseta escrita "Bossa-Nova", que o Pardal, lá da lojinha do mesmo nome, me deu. "Ah, bossa-nova, new-bossa, olha eu aqui sem viver" - chora minha rainha Rita Lee. A vida então se adoça. Gosto de mel, de flor, de azul. Não de avenida Paulista nem de Madame Satã. Preciso manter a ilusão de que tudo pode ser doce. Preciso acreditar que a vida pode ser como a voz de Eliete. E que em alguma esquina, um dia - por que não? - encontrarei um amor bonito esperando por mim.

Quando saio, agora, fico impaciente. Quero voltar pra casa, colocar logo o disco para que o mundo todo se reorganize em do­çura. Gostar de ouvir Eliete é cuidar de um certo jeito de olhar o mundo. Por trás do susto, perdão de olhos molhados, pegar na mão devagarinho e repetir de verdade, do fundo, sem o menor pudor, sem ânsia alguma:

- Gosto de você. Você existir me ajuda a viver.

Depois, acreditar que tudo vai dar certo. E deixar - como ela canta - que o amor dê o que falar.


Caio Fernando Abreu. O Estado de S. Paulo, 29/4/1986