sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Me recuso

Tenho repetido que, no que depender de mim, me recuso a ser infeliz.



Caio F. In: Cartas

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ser, parecer

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Mia Couto


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sempre se repetem

Oh vento... tu que me trazes uma lembrança machucada de coisas vividas que, ai de mim, sempre se repetem, mesmo sob formas outras e diferentes.


Clarice Lispector. In: Água Viva

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O amor e o outro

Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.




Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dom secreto

Cada um de nós mereceria ao menos uma reportagem para homenagear nossos dons mais secretos, aqueles que acontecem bem longe dos holofotes. O dom de viver sem aplauso e sem platéia. O glorioso e secreto dom de vencer os dias.


Martha Medeiros

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.




Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Despercebido

" - O mal não permanece impune, senhora, mas às vezes, o castigo passa despercebido."


Agatha Christie. In: A Casa do Penhasco

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Distância


não possa tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis



Paulo Leminski. In: Melhores Poemas


terça-feira, 19 de outubro de 2010

A qualquer momento

Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.



Rubem Alves

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

amar-te devagarinho

Hei-de beber-te com goles pequeninos,
soletrar as frases, fazer alto
depois de cada encontro,
fechar os livros das confidências,
amar-te devagarinho, distanciando
os beijos como ilhas.

 

Josefa Parra Ramos


domingo, 17 de outubro de 2010

Mais difícil

Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana.


Clarice Lispector. In: Água Viva

Clarice me entenderia. Fato! :)


sábado, 16 de outubro de 2010

A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a policia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.




Carlos Drummond de Andrade. In: A Rosa do Povo

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não consigo parar

Talvez eu esteja com receio de ter ido longe demais desta vez e esteja preparando a minha defesa, caso alguma coisa não saia como esperado. O que eu espero? Não espero nada, espero tudo, estou à deriva nessa aventura. Eu queria cristalizar esse momento da minha vida, mas estou em alta velocidade, e não sei se quero ir adiante, só que eu não tenho opção. Acho que é isso. Eu tinha opções, agora não tenho. Não consigo parar esse trem.


Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Soneto a quatro mãos

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.


Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.


Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.


Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.


Vinicius de Moraes (com Paulo Mendes Campos)

Que lindo! 😍

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Posso esperar

Quanto tempo demora? - perguntou ele.
- Não sei. Um pouco.
Sohrab deu de ombros e voltou a sorrir, desta vez era um sorriso mais largo.
- Não tem importância. Posso esperar. É que nem maçã ácida.
- Maçã ácida?
- Um dia, quando eu era bem pequenininho mesmo, trepei em uma árvore e comi uma daquelas maçãs verdes, ácidas.
Minha barriga inchou e ficou dura feito um tambor.
Doeu à beça. A mãe disse que, se eu tivesse esperado as maçãs amadurecrem, não teria ficado doente. Agora, quando quero alguma coisa de verdade tento lembrar do que ela disse sobre as maçãs.


Khaled Hosseini. In: O Caçador de Pipas

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poeta

Poeta não é somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia...
Se extasia sensível ao achado de uma rima...
À autenticidade de um verso.


Cora Coralina

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anonimamente

Mas tenho em mim uma coisa que você se esqueceu de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em troca, sem reconhecimento, sem perdão.

Fernando Sabino

domingo, 10 de outubro de 2010

Se houver céu

Se houver céu depois da terra
e nessa estrela
a eterna primavera
pudera, tomara, que a vida quisera
que a gente se encontrara.
Proutra vida fica,
nosso amor mais louco,
fica tudo muito mais bonito,
fica a dita que faltou pro pouco,
se houver céu...
Se houver céu,
como nessa vida não há,
a gente se achou bichinha
a gente se encontrará,
a gente se encontrará.


Paulo Leminski


sábado, 9 de outubro de 2010

O encontro

Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.


Rubem Alves

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Seja

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja


Paulo Leminski. In: Melhores Poemas




quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quem sabe?

"... durmo, certo de que ainda há muitas histórias para serem lidas, para serem escritas, para serem lembradas. Até para serem vividas, quem sabe?"


Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Desobediência

Razão,
de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar,
Eu ardo, eu amo!
Dizes-me que sossegue,
Eu peno, eu morro.


Bocage


E como tem sido prazeroso desobedecer a razão... =)


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Corações

- E você, meu amigo galvanizado, você quer um coração. Você não sabe o quão sortudo és por não ter um. Corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem.


Frank Baum. In: O Mágico de Oz

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-se ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar.


Florbela Espanca. In: Charneca em Flor

domingo, 3 de outubro de 2010

Sobre o passado

Descobri a doçura de ter atrás de mim um longo passado. Não tenho o tempo de me narrar, mas às vezes, de improviso, eu o vejo em transparência ao fundo do momento presente: ele lhe dá sua cor, sua luz, como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar. Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas. Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres.

Simone de Beauvoir. In: A mulher desiludida

sábado, 2 de outubro de 2010

Miragem

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra
com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

Ferreira Gullar. In: Gullar Singular

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

À mercê do outro

Então porque é que pensava que todos os dias ela ia deixá-lo? (...) O amor era para ele o desejo de abandonar-se ao arbítrio e à mercê do outro. Quem se entrega ao outro como um soldado, se deixa fazer prisioneiro, tem de despojar-se de previamente de todas as armas. Vendo-se sem defesas, não pode coibir-se de estar sempre a pensar no momento em que o golpe fatal será dado.


Milan Kundera. In: A Insustentável Leveza do Ser