sábado, 30 de janeiro de 2010

Clearly Non-Campos!

Não sei qual é o sentimento, ainda inexpresso,
Que subitamente, como uma sufocação, me aflige
O coração que, de repente,
Entre o que se vive, se esquece.
Não sei qual é o sentimento
Que me desvia do caminho,
Que me dá de repente
Um nojo daquilo que seguia,
Uma vontade de nunca chegar a casa,
Um desejo de indefinido.
Um desejo lúcido de indefinido.
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Quatro vezes mudou a ‘stação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo conseqüente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde,
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último e acabam.
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Álvaro de Campos
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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Como não ter Deus?

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo. Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor.
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João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Adoração

Quem disser que a paixão como o fogo se apaga,
E os soluços do amor são efêmeros ais,
Que tudo é igual ao vento ou semelhante à vaga,
Não o creias jamais, não o creias jamais.
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Desde o primeiro olhar, quem de amor se embriaga,
Sente que as atrações são mistérios fatais,
O amor é como o sol cuja luz se propaga,
Em crescente esplendor, em clarões imortais.
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Há vinte anos em mim irradia uma aurora!
Amei! Amo! Amarei! Amanhã como outrora!
Arde o meu coração em contínuo fulgor!
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É imutável, eterno o meu sonho adorado,
Para te sempre amar, basta-me haver-te amado,
O Amor do teu Amor, eis o Amor, meu Amor!
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Martins Fontes
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Para que o rio não pare de correr

O rio corre de século em século, e as histórias dos homens se desenrolam na margem. Acontecem para ser esquecidas amanhã e para que o rio não pare de correr.
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Milan Kundera. In: A Insustentável Leveza do Ser
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Haicai

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão
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cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença
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Paulo Leminski
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O amor podia ser mais

Amparados pela deliciosa impunidade da desordem coletiva, José Arcadio e Pilar viveram horas de folga. Foram dois namorados felizes entre a multidão, e até chegaram a suspeitar de que o amor podia ser um sentimento mais repousado e profundo que a felicidade arrebatada, mas momentânea, das suas noites secretas.
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Gabriel García Márquez. In: Cem Anos de Solidão
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domingo, 24 de janeiro de 2010

riqueza

Não tenho dinheiro no banco,
porém,
meu jardim está cheio de rosas.

 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Boa companhia: haicai'


sábado, 23 de janeiro de 2010

Não paga a pena

"... na vida só vale o amor e a amizade. O resto é tudo pinóia, é tudo presunção, não paga a pena..."
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Jorge Amado. In: Dona Flor e seus dois maridos
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Conquista

Na miséria mais funda
cintila uma estrela
a dizer que a vida
é bela.
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No silêncio aflito
da noite (naufrágio
dos tristes)
alguém sonha e canta
virgens alegrias.
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A manhã nascente
para ser merecida
tem que ser sangrada
com a própria vida.
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Luis Amaro
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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Castigo

O atroz no sofrimento amoroso é ser punido por ter desejado fazer ao outro todo o bem possível, amando-o; é um castigo não por uma falta mas por uma oferenda recusada. E o não que recebem os reprovados do amor é sem recurso; eles não podem acusar o outro, são devolvidos ao seu próprio abandono.
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Pascal Bruknerin: A Tentação da Inocência
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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Que te diz o vento que passa?

"Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?"
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"Que é vento, e que passa,
E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?"
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"Muita cousa mais do que isso.
Fala-me de muitas outras cousas.
De memórias e de saudades
E de cousas que nunca foram."
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"Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti."

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Alberto Caeiro. In: Poemas Completos
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Teresa, não ame!

Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não, Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
CAI FORA
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Manuel Bandeira
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Não admira

A gente nem sempre encontra quem mereça as nossas palavras, não admira que custe a encontrar quem mereça o nosso corpo.
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António Alçada Batista
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Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
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Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

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Sophia de Mello Breyner Andresen
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sábado, 16 de janeiro de 2010

Um coração batendo

Bem atrás do pensamento tenho um fundo musical. Mas ainda mais atrás há o coração batendo. Assim, o mais profundo pensamento é um coração batendo.
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Clarice Lispector. In: Água Viva
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

É só escolher

o caminho é este
tem pedra, tem sol
tem bandido, mocinho
tem você amando
tem você sozinho
é só escolher
ou vai, ou fica.
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fui.

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Martha Medeiros. In: Poesia Reunida
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Enfermeiro eficiente

É preciso esperar a ação do tempo - que não é apenas um devorador de dias e de horas, mas um enfermeiro eficiente.
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Lya Luft. In: Perdas e Ganhos
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

rápido e rasteiro

vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
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aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.

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Chacal. In: Belvedere
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Foram morrer de fome e de amor

Era tão premente a paixão restaurada que em mais de uma ocasião eles se olharam nos olhos quando se dispunham a comer e, sem se dizerem nada, tamparam os pratos e foram morrer de fome e de amor no quarto.
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Gabriel García Márquez. In: Cem Anos de Solidão
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Se eu fosse um padre

Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,

não falaria em Deus nem no Pecado

— muito menos no Anjo Rebelado

e os encantos das suas seduções,

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não citaria santos e profetas:

nada das suas celestiais promessas

ou das suas terríveis maldições...

Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

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Rezaria seus versos, os mais belos,

desses que desde a infância me embalaram

e quem me dera que alguns fossem meus!

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Porque a poesia purifica a alma...

e um belo poema — ainda que de Deus se aparte —

um belo poema sempre leva a Deus!
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Mario Quintana

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Ferida antiga

Isso o remetia a outras feridas mais antigas, nem mais nem menos dolorosas, porque a memória da dor da feridantiga amenizou-se, compreende? Menos pela cicatriz deixada, uma feridantiga mede-se mais exatamente pela dor que provocou, e para sempre perdeu-se no momento em que cessou de doer, embora lateje louca nos dias de chuva. O que provavelmente deve ser muito sadio.

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Caio Fernando Abreu. In: Morangos Mofados
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domingo, 10 de janeiro de 2010

Pêssego

[...]
Mas é pelo tato
Que a fonte do amor se abre.
Apalpar desabrocha o talo.
O tato é mais que o ver
É mais que o ouvir
É mais que o cheirar.
É pelo beijo que o amor se edifica.
É no calor da boca
Que o alarme da carne grita.
E se abre docemente
Como um pêssego de Deus.
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Manoel de Barros. In: Poemas Rupestres
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Tenho medo

Se tiver coragem, eu me deixarei continuar perdida. Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo. Quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
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Clarice Lispector. In: A paixão segundo G.H.
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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Adeus número 3

Deixo-te com tua vida
teu trabalho
tua gente
com teus pores-do-sol
e teus amanheceres.
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Semeando tua confiança
deixo-te junto ao mundo
derrotando impossíveis
segura sem seguro.
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Deixo-te frente ao mar
decifrando-te a sós
sem minha pergunta às cegas
sem minha resposta rota.
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Deixo-te sem minhas dúvidas
pobres e mutiladas
sem minha imaturidade
sem minha veteranice.
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Mas também não creias
de pés juntos em tudo
não creias nunca creias
neste falso abandono.
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Estarei onde menos
esperares
por exemplo
numa árvore anciã
de obscuros cabeceios.
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Estarei num distante
horizonte sem horas
na marca do tato
em tua sombra e minha sombra.
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Estarei repartido
em quatro ou cinco meninos
desses para quem olhas
e em seguida te seguem.
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E tomara possa estar
de teus sonhos na trama
esperando teus olhos
e te olhando.
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Mario Benedetti
(Tradução de Celina Portocarrero)
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

O que o atraía era o jogo

Como todos os sedutores por ocupação, o que o atraía era o jogo de aproximação, a irresistível tentação do objeto impossível, aquele roçar de todos os perigos, aquele arrepio do escândalo e do desejo conjugados, o triunfo final da sedução, os despojos da conquista a seus pés - as roupas espalhadas pelo chão, uma mulher nua, casada, de outro homem, entregue nos seus braços, gemendo de prazer e de terror na descoberta dos limites inexplorados da sua própria sexualidade. Mas depois disso, depois de deixar naquela noite o quarto de Matilde e o hotel na manhã seguinte, restara-lhe, como sempre, apenas um orgulho de caçador satisfeito e um desejo imperioso de se afastar para longe, tal qual um salteador que se quer afastar rapidamente da casa assaltada, para não ser desmascadado e denunciado.
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Miguel Sousa Tavares. In: Equador
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Incenso Fosse Música

isso de querer ser
exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além

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- Paulo Leminski
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Do olhar


"... olharem-se era a casa de ambos."

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José Saramago. In: Memorial do Convento
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Um beijo

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor.

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- Ana Cristina César
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sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Um dia


"... mas um dia ainda hei de ir, sem me importar para onde o ir me levará."


Clarice Lispector. In: A descoberta do mundo
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