sábado, 28 de dezembro de 2024

na ausência do som




"Há silêncios que ecoam,

Entre frestas de luz e sombra.

É na ausência do som

Que a alma encontra sua forma."


(poeticanaty) 


 

terça-feira, 24 de dezembro de 2024

às vezes por dentro acontece de ser dia

 

agora serei leve
ganharei o ar
e o ruído
a fissura
destas paredes novas
distrai o vazio
destas mobílias todas
estranhas
e acordar dentro delas —
a solidão
destoa
de toda a proposta
da sorte, do peixe chinês
inquieto, pendurado
na varanda
um teto todo meu e no banco
um fantasma
na fronha
um fantasma
mas às vezes
por dentro acontece de ser
dia, como é lá fora
e brilha
entre os cacos de espelho na calçada
uma vontade de existir e voltar
à rua e ver
velhinhos coreanos
lambendo uma casquinha
de baunilha
eles só ficam ali
calados
e entre uma lambida e outra
o dia passa
sem ele
por aqui


Fernanda Morse. Bom Retiro. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

a noite não adormece nos olhos das mulheres


A noite não adormece

nos olhos das mulheres,

a lua fêmea, semelhante nossa,

em vigília atenta vigia a nossa memória.


Conceição Evaristo

domingo, 15 de dezembro de 2024

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

como se de longe você mesmo se chamasse

pessoas

com suas malas,

mochilas e valises

chegam e se vão

se encontram, se despedem

e se despem dos seus pertences

como se pudessem chegar

a algum lugar

onde elas mesmas

não estivessem

você se move

como se uma legião invisível

te aprovasse

você se vai

como se de longe

você mesmo

se chamasse

você me vem

como se só em mim

enfim

você em você

chegasse.


Alice Ruiz. Invisível. 


terça-feira, 10 de dezembro de 2024

o tempo saberá trazer de volta a vida




"quando passo aqui por pertolembro dos seus olhos chorando"

Otto - Bala


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

raros olham pra dentro

Disfarça, tem gente olhando.

Uns olham pro alto,

cometas, luas, galáxias.

Outros olham de banda,

lunetas, luares, sintaxes.

De frente ou de lado

sempre tem gente olhando,

olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo

procurando algum vestígio

do tempo que a gente acha,

em busca do espaço perdido.

Raros olham pra dentro,

já que dentro não tem nada.

Apenas um peso imenso,

a alma, esse conto de fada.
.

.

Paulo Leminski. Rumo ao sumo. Toda Poesia.

.

sábado, 30 de novembro de 2024

do sono ao sonho

"O amor não se manifesta atraves do desejo de fazer amor, mas através do desejo de partilhar o sono."


Milan Kundera. A insustentável leveza do ser.



O Sono - Tarsila do Amaral 

domingo, 17 de novembro de 2024

1933

 


Pablo Picasso

sábado, 16 de novembro de 2024

a presença da ausência

"A saudade é um buraco na alma que se abriu quando um pedaço nos foi arrancado. No buraco da saudade mora a memória daquilo que amamos, tivemos e perdemos, presença de uma ausência."


Rubem Alves. Amor. 


sexta-feira, 15 de novembro de 2024

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

pra onde você escorre?

 Eu não escrevo pra incendiar casas

mas pra acender faíscas aos olhos de quem me lê

não escrevo pra matar a fome de multidões

mas espero que minhas palavras preencham um vazio que te ajude a se manter de pé

não escrevo pra governar um povo

eu ouço o que ele diz e utilizo minha voz para propagar sua mensagem

não escrevo pra obter a sua aprovação

mas pra registrar minha trajetória e de tantas mulheres negras que já foram silenciadas.


Eu escrevo pra acessar lugares em mim que são invisíveis aos olhos

pra expurgar pensamentos que não me deixam dormir

escrevo, pois, cada palavra é um atestado da minha condição poeta

e sendo poeta, ainda miúda que sou

escrevo porque a palavra é o que me resta


Num mundo conduzido por falsos profetas

nessa briga de egos e dialética

me apego num sopro de esperança

que me permite o papel e a caneta


Escrevo pra sobreviver

e sobrevivendo eu luto

escrevo se adoeço

e escrevendo me curo


E você? Pra quê escreve?


E pra onde você escorre,

quando esse mar palavra transborda?



Mel Duarte - Minha condição

terça-feira, 12 de novembro de 2024

a mesma falta de sentido



"Posso não ter sentido, mas é a mesma falta de sentido que tem a veia que pulsa."

Clarice Lispector. Água Viva.



 

sábado, 2 de novembro de 2024

cada coisa tem um monstro em si suspenso

No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja 
Cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.


Fundo do mar. Sophia de Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 31 de outubro de 2024

domingo, 27 de outubro de 2024

um instante por nós dois

No dia em que fui mais feliz

Eu vi um avião

Se espelhar no seu olhar

Até sumir


De lá pra cá não sei

Caminho ao longo do canal

Faço longas cartas pra ninguém

E o inverno no Leblon é quase glacial


Há algo que jamais se esclareceu:

Onde foi exatamente que larguei

Naquele dia mesmo

O leão que sempre cavalguei


Lá mesmo esqueci que o destino

Sempre me quis só

Num deserto sem saudade, sem remorso só

Sem amarras, barco embriagado ao mar


Não sei o que em mim

Só quer me lembrar

Que um dia o céu reuniu-se à terra um instante por nós dois

Um pouco antes do ocidente se assombrar


Inverno. Adriana Calcanhotto / Antônio Cícero 



terça-feira, 15 de outubro de 2024

não me deixei tentar

 


Uma vez, eu tive uma ilusão

E não soube o que fazer

Não soube o que fazer com ela

Não soube o que fazer

E ela se foi

Porque eu a deixei

Por que eu a deixei?

Não sei, eu só sei que ela se foi

Meu coração desde então

Chora todos os dias no portão

Por ela

Não soube o que fazer

E ela se foi

Porque eu a deixei

Por que eu a deixei?

Não sei, eu só sei que ela se foi

Sei que tudo o que eu queria

Deixei tudo o que eu queria

Porque não me deixei tentar

Vivê-la feliz

É a ilusão de que volte

O que me faça feliz

Faça viver

Por ela, não soube o que fazer

E ela se foi

Porque eu a deixei

Por que eu a deixei?

Não sei, eu só sei que ela se foi

Sei que tudo o que eu queria

Deixei tudo o que eu queria

Porque não me deixei tentar

Vivê-la feliz

Porque eu a deixei

Por que eu a deixei?

Não sei, eu só sei que ela se foi


Marisa Monte - Ilusão 

Composição: Julieta Venegas / Marisa Monte / Arnaldo Antunes 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

vontade



 Álvaro de Campos 

(via @filoeliteratu)

domingo, 22 de setembro de 2024

no silêncio dos olhos


 "(...) Dirão, em som, as coisas que, calados, no silêncio dos olhos confessamos?"


José Saramago. No silêncio dos olhos. Os poemas possíveis. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

nesse itinerário da leveza pelo ar

 



enquanto o tempo não trouxer teu abacate
amanhecerá tomate e anoitecerá mamão


Gilberto Gil - Refazenda 🥰

domingo, 15 de setembro de 2024

domingo, 8 de setembro de 2024

eterno presente



Tanto Querer. Geraldo Azevedo e Nando Cordel 💕

sábado, 7 de setembro de 2024

em outro alguém estou nascendo

(...) 


Eis que um segundo nascimento,

não adivinhado, sem anúncio,

resgata o sofrimento do primeiro,

e o tempo se redoura.

Amor, este é o seu nome.

Amor, a descoberta

de sentido no absurdo de existir.

O real veste nova realidade,

a linguagem encontra seu motivo

até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias:

Não sou eu, sou o Outro

que em mim procurava seu destino.

Em outro alguém estou nascendo.

A minha festa,

o meu nascer poreja a cada instante

em cada gesto meu que se reduz

a ser retrato,

espelho,

semelhança

de gesto alheio aberto em rosa.


Nascer de novo. Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 9 de julho de 2024

garanto que uma flor nasceu


Uma flor nasceu na rua! 
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu"


Drummond - A flor e a náusea

domingo, 7 de julho de 2024

do presente

- O que é, com efeito, o presente?  

No infinito da duração, 

um ponto  minúsculo e que foge incessantemente;  

um instante que mal nasce morre. 


Marc Bloch. In. Apologia da História.

domingo, 23 de junho de 2024

sábado, 22 de junho de 2024

laetitia cordis

Sossegai um minuto para ver o milagre:
está nublado o tempo, de manhã
um pouco de frio e bruma.
Meu coração, amarelo como um pequi,
bate desta maneira:
                  Jonathan, Jonathan, Jonathan.
                  À minha volta dizem:
'Apesar da névoa, parece que um sol ameaça.'
                   Penso em Giordano Bruno
e em que amante incrível ele seria.
Quero dançar
e ver um filme eslavo, sem legenda,
adivinhando a hora em que o som estrangeiro
                             está dizendo eu te amo.
Como o homem é belo,
                   como Deus é bonito.
Jonathan sou eu apoiada em minha bicicleta,
                   posando para um retrato.
Quando ficam maduros
                            os pequis racham e caem,
formam ninhos no chão de pura gema.
Meu coração quer saltar,
bater do lado de fora,
                   como o coração de Jesus.


Adélia Prado 💜

sábado, 8 de junho de 2024

e se abre docemente

(...) O olhar de voyeur 

tem condições de phalo

(possui o que vê).


Mas é pelo tato

Que a fonte do amor se abre

Apalpar desabrocha o talo

O tato é mais que o ver

É mais que o ouvir

É mais que o cheirar


É pelo beijo que o amor se edifica

É no calor da boca

Que o alarme da carne grita

E se abre docemente

Como um pêssego de Deus.



Manoel de Barros ❤️

segunda-feira, 15 de abril de 2024

terça-feira, 9 de abril de 2024

do que se quer guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma. 
Em cofre perde-se a coisa à vista. 

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por 
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. 

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por 
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, 
isto é, estar por ela ou ser por ela. 

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro 
Do que um pássaro sem vôos. 

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, 
por isso se declara e declama um poema: 
Para guardá-lo: 
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: 
Guarde o que quer que guarda um poema: 
Por isso o lance do poema: 
Por guardar-se o que se quer guardar. 

 

Antônio Cícero 

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

belo estranho dia de amanhã



(...) 

Que belo estranho dia

Pra se ter alegria

(Eu respondo e pergunto:)

É só um tempo pra gente ficar junto

É só o tempo de eu enlouquecer

Com você

É só um tempo pra gente ficar junto

É só o tempo de eu enlouquecer...


Lula Queiroga. Belo estranho dia de amanhã. 🍀