quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fogo e Água

Ela dizia-me que eu era o sol e ela a lua, que eu era o cubo e ela a esfera, que eu era o ouro e ela a prata. Então saíam chamas do meu corpo e chuva de todos os poros do seu. Abraçávamo-nos e as minhas chamas misturavam-se à sua chuva e formavam-se infinitos arco-íris à nossa volta. Foi então que ela me ensinou que eu sou o fogo, e ela, a água.


Arrabal, La Pierre de la Folie

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sem guia

"E se estou adiando começar é também porque não tenho guia."

Clarice Lispector. In: A Paixão Segundo G.H.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Num dia tão bonito...

"A manhã se faz de flores."




João Guimarães Rosa. In: Primeiras Estórias

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Má Consciência

O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?


Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo
não por ilusão.


Alexandre O’Neill

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Perecível

É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Há, então, um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu. Mas depois!... Seria, pois, necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?...


Eça de Queirós. In: O Primo Basílio

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Saudade

Mas é a saudade que me povoa as noites,
não me deixa só, quase a morrer.


Somos assim multidão silente...



Roque Dalton

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos amores ilegítimos

O que a levara então para ele?... Nem ela sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico...

E sentira-a porventura, essa felicidade, que dão os amores ilegítimos, de que tanto se fala nos romances e nas óperas, que faz esquecer tudo na vida, afrontar a morte, quase fazê-la amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao princípio, que lhe parecera ser o amor, vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã proibida, das condições do mistério do Paraíso, de outras circunstâncias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!


Eça de Queirós. In: O Primo Basílio

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O ofício do poeta

O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]



Jean Cocteau

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Querer

"(...) quero me vestir de flores
me espalhar no vento
seduzir o sol."



Renata Fagundes

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Próximo passo

Não sei o nome disso que estamos sentindo um pelo outro, e também não me importa. Pode ser o ápice ou o precipício, tudo bem. E também não sei se teremos habilidade para cultivar isso por três semanas ou por três décadas inteiras. Só sei que agora estou interessado em saber como será o próximo passo.


Gabito Nunes

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bom remédio

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.



Manuel Bandeira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

À espera duma ocasião

O meu riso estava todo dentro de mim à espera duma ocasião para sair.


Charles Bukowski. In: Mulheres

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

História de amor

é sempre
uma história de amor:

a árvore
que se afeiçoa ao pássaro

o sol
que se liga à água

os olhos
que se prendem ao mar



Gil T. Sousa. In: Falso Lugar