"Não escrevemos o que queremos; escrevemos o que somos. Não há como fugir a essa fatalidade. Todo o processo de escrita literária é interior. A palavra é subjetiva, e, por isso mesmo, reveladora."
Ana Miranda. In: O Romance II
(...)
Perdeu-se na carne fria
Perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
Perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
Constelações de alfabeto
Noites escritas a giz
Pastilhas de aniversário
Domingos de futebol
Enterros, corsos, comícios
Roleta, bilhar, baralho
Mudou de cara e cabelos Mudou de olhos e risos Mudou de casa
e de tempo: mas está comigo
Está perdido comigo
Teu nome
Em alguma gaveta.
Ferreira Gullar. In: Poema Sujo
Não se deve romper o silêncio
sem um motivo preciso.
As palavras devem ser necessárias
inadiáveis como um aviso.Luiz Roberto Nascimento. In: A flauta vertebral
Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.
João Cabral de Melo Neto. In: A educação da pedra e depois