segunda-feira, 30 de novembro de 2009

4º Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
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Cecília Meireles
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E o ar...

Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança.
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João Guimarães Rosa. A Menina de Lá. In: Primeiras Estórias
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domingo, 29 de novembro de 2009

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,

por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

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Carlos Drummond de Andrade. In: Antologia Poética
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sábado, 28 de novembro de 2009

Se não tomo cuidado...

As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito.

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Clarice Lispector. Os desastres de Sofia. In: A legião estrangeira
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

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Adélia Prado
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Lágrima querendo rolar


"... vento entrando, remexendo nos cabelos, no rosto, jeito de lágrima querendo rolar."


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Caio Fernando Abreu. Domingo. In: O Inventário do Irremediável

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amor começa tarde

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

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Carlos Drummond de Andrade. In: As Impurezas do Branco
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sem palavras

Muitas vezes recebi dos seus olhos lindas declarações em que não pôs qualquer palavra.
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William Shakespeare. In: O Mercador de Veneza
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domingo, 22 de novembro de 2009

Divinare

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
Sabiá
Mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
Existem
Nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação

perde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
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Manoel de Barros. In: Livro sobre nada
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Só tenho medo...

Vitória fechou as mãos dentro dos bolsos da calça:
— Que é que você está fazendo, perguntou tranqüila.
— Podando a roseira brava.
— A roseira não assusta você? perguntou suave. (...)
— Esta não: esta tem espinhos.
Vitória franziu as sobrancelhas:
— E que diferença faz se tem espinhos?
— É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinhos, toda delicada demais, e toda bonita demais.

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Clarice Lispector. In: A Maçã no Escuro
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sábado, 21 de novembro de 2009

Além Alma

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

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Paulo Leminski. In: Distraídos Venceremos
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O milagre

- Não quero que você escreva mais! Quero que você fale!
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Gustavo ouve e sente que o amor e o beijo de Célia podem gerar o milagre. (...) As bocas se afastam, as mãos mais se apertam, as lágrimas nos olhos que parecem sangrar. Tudo, agora, é nele angústia e dor. (...) é como num parto, a voz está nascendo. (...) E ele a rir e a chorar ao mesmo tempo, exclama, em tom ainda fraco, mas exclama:
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- Amor!
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Adonias Filho. In: O Largo da Palma
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Trecho

Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.

Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
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Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas
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Muito tempo

De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo.
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Caio F. Abreu. In: Os Dragões não Conhecem o paraíso
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mutuamente

"O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando
mutuamente."
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Mia Couto. A cantadeira. In: Na Berma de Nenhuma Estrada

domingo, 15 de novembro de 2009

Feiticeiros das palavras

Os poetas são os feiticeiros das palavras. Num só verso põem a alma inteira. Num só poema, toda a beleza do mundo.
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Manuela Monteiro. In: A Casa da Romãzeira
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De novo

[...] Mas, aprendi, lá nessa outra escola, que o sinal do recreio sempre toca, por mais que aparente demorar a tocar. Enquanto não toca, a gente foca na lição da vez. Dialoga com os fantasmas todos. Interage com a própria alma. Procura retomar o fôlego. Cuida, como pode, do coração. E aguarda. O sinal tocará. De novo.
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[Crescimento - Ana Jácomo]
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Anoitecendo

"... o sol tão claro lá fora,
o sol tão claro, Esmeralda,
e em minhalma - anoitecendo."
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Manuel Bandeira. In: Antologia Poética
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Só por preguiça

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

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Mia Couto. In: Mar me quer
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Na Fazenda

As plantas
me ensinavam de chão.
Fui aprendendo com o corpo.
Hoje sofro de gorjeios
nos lugares puídos de mim.
Sofro de árvores.


Manoel de Barros. In: Compêndio para uso dos pássaros
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Porque perdi a minha dor...

"Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela."
Anaïs Nin
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sábado, 7 de novembro de 2009

Mentira

"O regador é só uma mentira de chuva
que eu tenho de contar às flores,
todas as manhãs."


Rita Apoena
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Segredos pequenos

Guardo segredos pequenos — as coisas que penso ou sinto, pequenos acontecimentos que não descrevo à 'comunidade'.
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Caio F. In: Cartas
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes
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Adélia Prado. In: Bagagem
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma mulher que dança

[...] Ela é uma mulher que dança, e que deixaria de ser mulher divinamente, se o salto que fez, pudesse obedecê-lo até as nuvens. Mas como não podemos ir ao infinito, nem no sonho nem na vigília, ela, de modo semelhante, reconverte-se sempre a si mesma; deixa de ser floco, pássaro, idéia; - de ser enfim tudo o que a flauta quis que ela fosse feito, pois a mesma Terra que a mandou a convoca, e entrega-a toda palpitante à sua natureza de mulher. [...] *

Paul Valéry. In: A alma e a dança


* Diálogo no qual Sócrates declara que para a alma só há dois remédios: a verdade e a mentira, e que eles se integram mutuamente. Para completar essa idéia, compara a vida a uma mulher que dança.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Peraltagens

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

Manoel de Barros. In: Exercícios de ser criança

domingo, 1 de novembro de 2009

Para que eu não te doa demais

Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer.

Clarice Lispector. Os desastres de Sofia. In: A Legião Estrangeira