Sempre vivi de amor. Quando eu era criança,
Namorei uma estrela, adorei uma rosa...
Porém, se sempre amei, nunca tive esperança,
Nunca fiz a menor confidência amorosa...
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Não sei porque motivo o coração não cansa
Da existência tornar sempre fantasiosa...
O verdadeiro amor é o que jamais se alcança,
Só se ama, a vida inteira, a ilusão caprichosa...
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E é porque sei que tu não poderás ser minha,
E a tua perfeição, nem de longe, adivinha
o culto, a hiperdúlia em que vivo a envolvê-la,
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Que ando, maravilhado, ao sabor do destino,Hoje, como no tempo em que, poeta menino,Namorava uma rosa, adorava uma estrela...
..Martins Fontes.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
A canção cor de rosa
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Incompletude
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra o pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta o lápis, que vê a uva etc.etc.
Perdoai.
Mas preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas...Manoel de Barros. In: Retrato do artista quando coisa.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Ilusão
Eu devorava livros e mais livros na singela ilusão de rechear com as emoções dos outros o espaço das emoções que me faltavam.
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Mirna Gleich Pinsky. In 'Sonho de verão: Uma história de amor'
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Procelária
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
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As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
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Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
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Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo....Sophia de Mello Breyner Andresen.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Inevitável
Soneto de véspera
Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
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Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
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Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida
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Imagem tua que eu compus serenaAtenta ao meu apelo e à minha penaE que quisera nunca mais perdida...
..Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
O tempo passou
Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer. Ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo.
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Caio Fernando Abreu. In: Limite Branco
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
O espetáculo da vida
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
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João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina. In: Duas Águas
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Duelo de vida
O amor, que é a primeira das artes da paz, pode-se dizer que é um duelo, não de morte, mas de vida.
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Machado de Assis. In: Esaú e Jacó
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Epigrama nº 8
Encostei-me a ti,sabendo que eras somente onda.Sabendo bem que eras nuvem,depus a minha vida em ti..Como sabia bem tudo isso,e dei-me ao teu destino, frágil,Fiquei sem poder chorar quando caí.
..Cecília Meireles.
sábado, 12 de dezembro de 2009
As lembranças desobedecem
Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.
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Mia Couto. In: Terra Sonâmbula
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O amor bate na aorta
[...]
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender.....Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Do efêmero
Tudo se encaminha para o final, no cenário, um final apropriado. Por toda parte, imperceptivelmente ou não, as coisas estão passando, acabando, indo embora. E haverá outros verões, outros espetáculos de bandas, mas nunca mais aquele ali, nunca mais, nunca mais como agora. No próximo ano, eu não serei a pessoa que sou este ano. E por isso dou risada do que é passageiro, efêmero; rio enquanto seguro carinhosamente, como um tolo segura seu brinquedo, o copo rachado pelo qual a água escorre entre meus dedos.
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Sylvia Plath
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A estrada do amor...
a gente já está mesmo nela, desde que não pergunte por direção nem destino. E a casa do amor - em cuja porta não se chama e não se espera - fica um pouco mais adiante.
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João Guimarães Rosa. In: Sagarana
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Rumo ao sumo
Disfarça, tem gente olhando.
Uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham pra dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
..Paulo Leminski.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Encontro
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu.
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José de Alencar. In: Iracema
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sábado, 5 de dezembro de 2009
Amor Violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,faço dele cataplasmae ponho sobre a ferida...Adélia Prado.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Obrigação
A única coisa que queria era viver. Quem sabe achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era.
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Clarice Lispector. In: A hora da Estrela
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Entrevista
CAROS AMIGOS: Se tivesse que ser crítico de seus poemas, quais temas você diria que são mais recorrentes?
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MANOEL DE BARROS: Acho que ser gente é o tema mais recorrente. Ou não ser gente. Se o tempo não é humano eu humanizo. Amarro o tempo no poste para ele parar. Boto a Manhã de pernas abertas para o sol. Me horizonto para os pássaros. Uma ave me sonha. O dia amanheceu aberto em mim.
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Manoel de Barros, em entrevista à Revista Caros Amigos
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Manoel de Barros, lindo-lindo, para começar bem o mês. ;)
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