sexta-feira, 24 de abril de 2026

vibração de silêncio

"(...) No meio da tensão e da corrida que é sempre esta cidade, foi qualquer coisa como um sopro de ar fresco, um gole dágua, qualquer coisa assim. Não é saudade, porque para mim a vida é dinâmica e nunca lamento o que se perdeu - mas é sem dúvida uma sensação muito clara de que a vida escorre talvez rápida demais e, a cada momento, tudo se perde. Nunca nos falamos, praticamente, nunca nos olhamos. Ficou só aquela vibração de silêncio, muito forte.

Numa cidadezinha perdida, dois malditos que se reconhecem sem que seja necessário sequer falar sobre isso. Uma cumplicidade muda, e tão secreta que, penso, talvez você nunca tenha percebido. Na minha memória - já tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos."


Caio Fernando Abreu. Carta extraída do livro "O que importa em Oracy".


terça-feira, 21 de abril de 2026

água-cor


O país da cor é líquido e revela-se

na anilina dos vasos da farmácia.

Basta olhar, e flutuo sobre o verde

não verde-mata, o verde-além-do-verde.


E o azul é uma enseada na redoma.

Quisera nascer lá, estou nascendo.

Varo a laguna do ouro do amarelo.

A cor é o existente; o mais, falácia.


Carlos Drummond de Andrade. Esquecer para lembrar.

domingo, 12 de abril de 2026

tudo seu é muita dor

 


"Tanto que eu quis

Fazê-la estrela

Da sagração de um ser feliz"


Djavan - Vive

quarta-feira, 1 de abril de 2026

medo de mim

"(...) Ai, por que pensei isso? Devia ter uma caixinha no canto da gente só para pensamento feio, aí nem eu ia saber deles. Ainda bem que a Voz não está me escutando. Onde será que ela fica quando ela não está aqui? Eu hein, vou sair, estou com medo de mim.


Elisa Lucinda. Livro do avesso, o pensamento de Edite.