domingo, 26 de setembro de 2010

Composição


Há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


Manoel de Barros


sábado, 25 de setembro de 2010

No ar

São quase seis horas da tarde, o sol começou a se pôr bem aqui em frente à minha janela. Foi um dia muito bonito, a primavera está mesmo no ar.




Caio F. Abreu. In: Cartas

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uni-Verso

"Treme a folha no galho mais alto" - escrevo. Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido... Parece que quer vir um poema... Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página. Depois de longo instante acrescento-lhes tres pontinhos. Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras. O vento fareja-me a face como um cachorro. Eu farejo o poema. Ah, todo o mundo sabe que a poesia está em toda parte, mas agora cabe toda ela na folha que treme.

Por que não caberia então em um único verso? Um uni-verso.

Treme a folha no galho mais alto.

(o resto é paisagem...)


Mário Quintana. In: Sapo Amarelo

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ela chegou!


"... dias lindos, claríssimos, céu e sol luminosos..."

É a primavera que então se instala. \o/





sábado, 18 de setembro de 2010

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinícius de Moraes

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Esperança pueril

"... e nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor."


Gabriel García Marquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Metalinguagem

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Da necessidade de renovação

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas coisas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados... Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.

Paul Valéry

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Espelho da memória

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo na memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.

Luís Miguel Nava


Ai, que saudade d'ocê...


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Modo de vida

Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra.


Clarice Lispector. In: Água Viva

domingo, 12 de setembro de 2010

Antes que o mundo acabe

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.


Hilda Hilst

sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre o amor... ou a falta dele.

Se calhar há quem nunca tenha conhecido o amor e não precise nem queira. Se calhar há mesmo quem hasteie a bandeira da solidão e a faça abanar ao vento, orgulhosamente. (...) Mas eu, que tenho amor e que sei como é não ter, não quero andar para trás. Que ninguém me tire os beijos, os amuos, os abraços, as discussões, a contagem de segundos até o ver outra vez.


Ana Garcia Martins

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

(...)

Carlos Drummond de Andrade. In: Brejo das Almas

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Como uma lua na água

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Julio Cortázar. In: O Jogo da Amarelinha

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tão cúmplices...

Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.


Graça Pires

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Como se fosse

"Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um 'te amo'."



Martha Medeiros

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem

domingo, 5 de setembro de 2010

Em silêncio

E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. (...) Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

Ana Jácomo

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Poesia I

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Uma luz

Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer. Uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Interior


"Quem não tem jardins por dentro
não planta jardins por fora.
E nem passeia por eles..."



Rubem Alves


Setembro, enfim, chegou! Logo, logo começa a primavera, e 'de tão azul, o céu parecerá pintado.' =)