quinta-feira, 31 de julho de 2025

continuamente

"Eu sou feita e refeita continuamente." 

Virgínia Woolf. Orlando.

Retrato Virginia Woolff descansando em uma poltrona enquanto tricota, pintado em 1912 por sua irmã mais velha, Vanessa Bell.

segunda-feira, 28 de julho de 2025

saudades de nada

Antes que o estio cesse e chegue o outono, no cálido intervalo em que o ar pesa e as cores abrandam, as tardes costumam usar um traje sensível de gloríola falsa. São comparáveis àqueles artifícios da imaginação em que as saudades são de nada, e se prolongam indefinidas como rastos de navios formando a mesma cobra sucessiva.

Fernando Pessoa. Livro do Desassossego.

domingo, 27 de julho de 2025

vento de gente

 


nuvens carregadas,

mas o céu não ficou vazio.

em fila torta, 

elas dançam em cores sobre o cinza.

não esperam o tempo abrir -

ninguém avisou que era dia de festa,

mas os meninos as lançaram mesmo assim.


o mundo não para -

e a gente também não.

sempre haverá quem insista

na leveza.


(poeticanaty)

quarta-feira, 23 de julho de 2025

eu-mulher

(...)

Antevejo.

Antecipo.

Antes-vivo

Antes – agora – o que há de vir.

Eu fêmea-matriz.

Eu força-motriz.

Eu-mulher

abrigo da semente

moto-contínuo

do mundo.


Conceição Evaristo

domingo, 20 de julho de 2025

na álgebra do mistério

Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. (...) tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto.

Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele.

Não há diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que e a essência das coisas. 

Há um destino igual, porque é abstrato, para os homens e para as coisas - uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.

Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está no meu poder alterar. 


Fernando Pessoa. Livro do Desassossego. 

terça-feira, 8 de julho de 2025

memória guardada

No armário do meu quarto escondo de tempo e traça
meu vestido estampado em fundo preto.
É de seda macia desenhada em campânulas vermelhas
à ponta de longas hastes delicadas.
Eu o quis com paixão e o vesti como um rito,
meu vestido de amante.
Ficou meu cheiro nele, meu sonho, meu corpo ido.
É só tocá-lo e volatiza-se a memória guardada:
eu estou no cinema e deixo que segurem minha mão.
De tempo e traça meu vestido me guarda.

Adélia Prado. O vestido. Bagagem.

terça-feira, 1 de julho de 2025

processos levam tempo

 

Yumi Okita - esculturas de tecido 

***

"Nós nos deleitamos com a beleza da borboleta, mas raramente admitimos as mudanças pelas quais ela passou para atingir essa beleza."


Maya Angelou.