Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.
Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem (Artigo XI)
sexta-feira, 30 de julho de 2010
Por definição
terça-feira, 27 de julho de 2010
Poema de canção sobre a esperança
Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. In: Poesia
Como?
Eu tenho que deixar de gostar daquele diabo viajante. Mas como? Como é que se esquece alguém? Como é que se apaga a memória dos sentidos? Como é que se lava a alma e se limpa o coração?
Margarida Bebelo Pinto. In: Alma de Pássaro
domingo, 25 de julho de 2010
Das coisas mais simples
Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na freqüência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano.
Ana Jácomo
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Amor proibido
"... lhe dava trabalho entender que dois adultos livres e sem passado, à margem dos preconceitos de uma sociedade fechada em si mesma, tivessem escolhido o risco dos amores proibidos. Ela lhe explicou: "Era seu gosto." Além disso, a clandestinidade compartilhada com um homem que nunca tinha sido seu por completo, e na qual mais de uma vez conheceram a explosão instantânea da felicidade, não lhe pareceu uma condição indesejável. Ao contrário..."
Gabriel García Márquez. In: O amor nos tempos do cólera
quarta-feira, 21 de julho de 2010
Da alma, e de quanto tiver
Da alma, e de quanto tiver
Quero que me despojeis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.
(...)
Se mais tenho que perder,
Mais quero que me leveis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.Luís de Camões
Crisântemo
O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É a flor que descabeladamente controla a própria selvageria.
Clarice Lispector. In: Água Viva
Porque alguém me disse que se eu fosse flor, seria um crisântemo.
E eu achei lindo! :)
E eu achei lindo! :)
terça-feira, 20 de julho de 2010
Que importa um nome?
E depois de tanto
que importa um nome?
Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora, te chamo água.
Te descubro nas pedras coloridas, nas artistas de cinema,
nas aparições do sonho.Ferreira Gullar. In: Poema Sujo
sábado, 17 de julho de 2010
Dias lindos
Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-los em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. [...]
quinta-feira, 15 de julho de 2010
Das possibilidades
"Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas. Tudo isso estimula a gente, clareia a cabeça, refresca..."
Caio F. Abreu. In: Cartas
segunda-feira, 12 de julho de 2010
Tropeço
Há tanto tempo não usado, encontrei o amor, sem querer. Ontem. Jogado debaixo da cama. Empoeirado. Sem caixa, bula ou manual. Um amor, assim, abandonado. Sujo. Rasgado. Fóssil soterrado. Navio afundado há anos. Casarão com tábuas pregadas nas janelas. Lençóis brancos sobre os móveis. Um amor acostumado com o escuro. Com o frio do quarto fechado. Com a passagem rápida de um inseto no meio da madrugada. Um velho amor largado. Pronto pra ser reciclado. Um amor procurado por toda casa nos lugares errados. Nos armários limpos. Entre taças. Louças. Dentro de caixas fechadas com laços. Sob tapetes varridos. Cantos desinfetados. Um amor chamado no grito. No gemido da febre. No cochicho da oração. Um amor sumido. Necessitado. Um amor que apareceu quando quis. De repente. Em um lugar inesperado. Há tanto tempo não usado, eu, ontem, tropecei no amor.
Eduardo Baszczyn
domingo, 11 de julho de 2010
Bibliocausto
E só ficará comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.
Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos.João Guimarães Rosa. In: Magma
O quarto
Róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo.
Raduan Nassar. In: Lavoura Arcaica
'O Quarto', de Van Gogh
terça-feira, 6 de julho de 2010
Dolores
(...)
Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.
Uma tal esperança imploro a Deus.Adélia Prado. In: Poesia Reunida
À minha mãe, que me ensinou a ter esperanças.
Porque ainda é aniversário dela.
PARABÉNS, mamis! :)
Um brinde
A todos aqueles que entraram na fila errada. [...] Não escrevem, não cantam, não esculpem nem declamam. Mas sentem, amam e acolhem anonimamente a poesia em seus ventres. Um brinde a todos os recipientes!
Marilda Confortin
domingo, 4 de julho de 2010
O Mais-Que-Perfeito
Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!
Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te!
Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!
Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te!Vinícius de Moraes
sábado, 3 de julho de 2010
Olhos de ressaca
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.
Machado de Assis. In: Dom Casmurro
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