domingo, 13 de janeiro de 2013

uma maneira de falar

"Uma vez que a linguagem não é a tradução de um texto já formulado, mas se inventa a partir da experiência indistinta, toda palavra é sempre apenas uma ‘maneira de falar’: poderia haver uma outra. É por isso que o escritor detesta ser ‘tomado ao pé da letra’, ou seja, preso, imobilizado, amordaçado pelas palavras escritas. Elas paralisam meu pensamento, quando na verdade ele nunca para."


Simone de Beauvoir. In: Balanço Final.

sábado, 12 de janeiro de 2013

que este amor só me veja de partida

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst

domingo, 6 de janeiro de 2013

porque há desejo em mim

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas.
Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


Hilda Hilst

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

mas a poesia não é a revelação do real?

“Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português.”


Adélia Prado

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


Mário Quintana

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

a menina que me habita

Quantas vezes é possível se apaixonar pela mesma pessoa? Quantas vezes se pode sofrer por ela? E depois de amar e desamar, quantas vezes mais é correto ignorar a voz da razão, que insiste em dizer que está tudo bem, que a vida segue para ambos, que novas paixões são inevitáveis? Às vezes, custa tanto vestir a armadura de mulher forte, madura e bem resolvida. Às vezes, só se quer chorar, sentir saudade, deixar que grite o sentimento tão inutilmente guardado. Às vezes, a tal mulher bem resolvida dá lugar à menina que me habita. A menina e as dores que carrega.