Chamo-te
amor
como o destino
o sonho
a paz
chamo-te
com a voz
o corpo
a vida
com tudo o que tenho
e o que não tenho
com desespero
sede
pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.Idea Vilariño
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Chamo-te amor
quarta-feira, 22 de dezembro de 2010
A medida da idade
Hoje sei como se mede a verdadeira idade: vamos ficando velhos quando não fazemos novos amigos. Estamos morrendo a partir do momento em que não mais nos apaixonamos.
Mia Couto. In: Mar me quer
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Urgência
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.Eugénio de Andrade
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Equilibro-me como posso
Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
Clarice Lispector. In: Um Sopro de Vida (Pulsações)
domingo, 19 de dezembro de 2010
A Lua
A lua pode tomar-se às colheres
ou em cápsulas com intervalo de duas horas.
É boa como hipnótico e sedativo,
mas também alivia
quem esteja intoxicado de filosofia.
Um pedaço de lua dentro do bolsot
é um amuleto melhor que a pata de coelho:
serve para encontrar quem se ama,
assim como afasta os médicos e as clínicas.
Pode dar-se de sobremesa às crianças
quando não estão dormindo,
e umas gotas de lua nos olhos
ajudam os anciãos a morrer bem.
Põe uma folha tenra de lua
por baixo da travesseira
e logo olharás aquilo que queiras ver.
Usa sempre um frasquinho de ar de lua
para o caso de te afogares,
e entrega a chave da lua
aos presos e desencantados.
Quer para os condenados à morte,
quer para os condenados à vida
não há estimulante melhor que a lua
em doses precisas e controladas.Jaime Sabines
sábado, 18 de dezembro de 2010
Estará a arte sempre a mentir?
Nunca vivi no campo. Como outros, nem sequer a planície visitei, a não ser por curtos períodos de tempo. Não obstante escrevi um poema sobre o campo e dei-lhe aquilo que os meus versos lhe devem. Esse poema pouco vale. Nada existe menos sincero do que ele; uma total mentira.
Agora ocorre-me, porém, o seguinte: tratar-se-á, realmente, de uma falta de sinceridade? Não estará a arte sempre a mentir? Melhor dizendo, não será ela tanto mais criativa quanto mais mente? Quando escrevi aqueles versos, não estariam a ser produto da arte? Na altura em que fiz aqueles versos haveria em mim sinceridade artística? Não estaria eu a pensar de uma forma que era como se vivesse, de facto, no campo?
Agora ocorre-me, porém, o seguinte: tratar-se-á, realmente, de uma falta de sinceridade? Não estará a arte sempre a mentir? Melhor dizendo, não será ela tanto mais criativa quanto mais mente? Quando escrevi aqueles versos, não estariam a ser produto da arte? Na altura em que fiz aqueles versos haveria em mim sinceridade artística? Não estaria eu a pensar de uma forma que era como se vivesse, de facto, no campo?
Konstandinos Kavafis. In: Páginas Íntimas
sexta-feira, 17 de dezembro de 2010
Palavras de mulher
Minha mãe
achava estudo
a coisa mais
fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina
do mundo é o sentimento.
Adélia Prado
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Da eternidade
Que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje – e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.
Clarice Lispector. In: A Hora da Estrela
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Sempre acesa
Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.Thiago de Mello
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Preferência
A única coisa que sabia com clareza era que entre a prosa e os versos preferia os versos, e entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era ainda mais fácil quanto mais se tratasse de versos bem rimados, bem medidos, bem desesperados.
Gabriel García Márquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
Deixei-me fugir de mim
Deixei-me fugir de mim por não haver fundo.
Por ser inútil, canto.
Por ser absurdo, creio.Carlos Marzal
domingo, 12 de dezembro de 2010
Remédio soberano
O estudo tem sido para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, e jamais tive tristeza de que uma hora de leitura não me tenha livrado.
MONTESQUIEU. "Mes pensées". In Oeuvres complètes.
sábado, 11 de dezembro de 2010
Cuida-te
(...)
Cuida-te do leal cem por cento!
Cuida-te do céu aquém do ar,
assim como do ar além do céu!
Cuida-te dos que te amam!
E dos teus heróis!
E dos teus mortos!
Cuida-te da República!
E do futuro!César Vallejo
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Amor sem exigências
Como chegar para alguém e dizer de repente eu te amo para depois explicar que esse amor independia de qualquer solicitação, que lhe bastava amar, como uma coisa que só por ser sentida e formulada se completa e se cumpre?
Caio Fernando Abreu. Amor. In: : O Inventario do Irremediável
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Poesia e propaganda
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Rosa vermelha
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Mais formoso
Tive muitos amores – disse – mas o mais formoso foi
o meu amor pelos espelhos.
o meu amor pelos espelhos.
Alejandra Pizarnik. In: Antologia Poética
domingo, 5 de dezembro de 2010
Receita contra dor de amor
chore um mar inteiro
com todos os seus barcos a vela
chore o céu e suas estrelas
os seus mistérios, o seu silêncio.
chore um equilibrista caminhando
sobre a face de um poema
chore o sol e a lua
a chuva e o vento
para que uma nova semente
entre pela janela adentro.Roseana Murray. In: Receitas de Olhar
sábado, 4 de dezembro de 2010
Do destino
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Lírio branco
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Entre o riso e o pranto
"... oscilava entre o riso e o pranto. Sob a fina camada da fervorosa alegria de viver, o que havia lá dentro era tristeza."
Jostein Gaarder. In: O Castelo nos Pirineus
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Delícia
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.Manuel Bandeira
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