quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Viver

...

Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto.

Flora Figueiredo. In: Vida

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.


Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Somente humanos

Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser estes, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo.

Pablo Neruda. In: Confesso que vivi

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque estou viva


Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

Do ciúme

Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo da origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da feiura. Sabendo-se desprezível, aprensenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo. Contam que ela gania de dor nas juntas, na fazenda da raiz da serra, cada vez que meu avô ia procurar as negras.

Chico Buarque. In: Leite Derramado

sábado, 26 de setembro de 2009

Qualquer amor

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'

Do beijo

 

"... e quando se beijam, há necessidade de coragem para a separação."


Adonias Filho. In: O Largo da Palma

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As mudanças vêm bater na minha praia

Recomeçar é sempre bom. Ando com vontade de sacudir a poeira das experiências adquiridas e ganhar territórios novos. Esse desprendimento demanda liberdade, uma senhora regida pelo desapego. Então, corto os laços de cetim e também as cordas. Quero seguir o fluxo da vida como um rio, soltando a âncora porque chegou a hora, deixando velhos portos onde guardo realizações como troféus da existência. Sempre há caminhos novos... As mudanças vêm bater na minha praia. Devo aproveitar seu balanço para me lançar ao mar. Navegar é preciso... e navegar é uma batalha interior que depende de vontade própria. Exige vencer os desafios dos sete mares: o mar do comodismo, do apego, da resistência a mudanças, do equívoco da segurança (porque nada é seguro), do fantasma das perdas, do rompimento dos padrões, do medo do desconhecido. Na minha bagagem acumulei um excesso de responsabilidades que não me pertencem. Estou querendo viajar por minha conta e risco. Até o fim da estrada, com direito a paradas prazerosas para contar estrelas e contar histórias. Não quero deixar o melhor de mim para amanhã.

- Célia Musilli

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Bênção

Assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção.

William P. Young. In: A Cabana

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue , volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota à gota, do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

- Eu faço versos como quem morre.

.
Manuel Bandeira. In: A cinza das horas
.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Certeza

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la."


Cecília Meireles. in: Obra em Prosa - Volume 1

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Poema XLIV

Talvez eu seja
O sonho de mim mesma
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja
E ínfima , tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

Hilda Hilst. In: Cantares de perda e predileção

domingo, 20 de setembro de 2009

Bem-me-quer

A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer.

José Saramago. In: Cadernos de Lanzarote

sábado, 19 de setembro de 2009

Espera

Juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar.


Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Quase como uma primavera

Sentia uma alegria interna, quase como uma primavera. E a alegria crescia, expandindo-se em muitas direções, tomando conta das mãos, dos olhos, já transcendia o pensamento para se apossar do corpo inteiro.

Caio F. Abreu. A Chave e a Porta. In: O inventário do ir-remediável

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Amor e beleza

Se eu fosse a natureza, não faria o homem e a mulher à semelhança dos grandes macacos, mas à semelhança dos insetos que depois de um período de lagarta viram borboletas e na última parte da vida só pensam em amor e beleza. Eu poria a mocidade no fim da existência humana… Arranjaria que o homem e a mulher, desdobrando rutilantes asas, vivessem por um tempo no orvalho e no desejo, e morressem num beijo de êxtase.

- Anatole France

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill. In: Poesias Completas

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sim

Eu disse a uma amiga:
- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
- Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

domingo, 13 de setembro de 2009

Meu lugar

"Então me aconchego mais no corpo dele, e fico abrigada. Esse é o meu lugar no mundo."


Lya Luft. In: O silêncio dos amantes

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali. [...]
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto. [...]


- Carlos Drummond de Andrade

sábado, 12 de setembro de 2009

Bem mais

Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Viração

Voa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro… Vontade… para que esse pudor de certas palavras? Vontade de amar, simplesmente.

Mário Quintana. In: Sapato Florido

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pandemônio

"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas."

Chico Buarque. In: Leite Derramado

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Enfim...

Foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio.


Caio Fernando Abreu. Eles. In: O Ovo Apunhalado

domingo, 6 de setembro de 2009

Os paradoxos do amor

No amor se estabelece o paradoxo vínculo x liberdade, porque o amante cativa para ser amado livremente. O fascínio é gerador de poder: o poder de atração de um sobre o outro. No entanto, tal 'cativeiro' não pode ser entendido como ausência de liberdade. (...) É fácil observar isso na relação entre duas pessoas apaixonadas: a presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, os dois escolhem livremente estar juntos. O amor imaturo, ao contrário, é exclusivista, possessivo, egoísta, dominador. Não é fácil, porém, determinar quando o poder exercido pelo amor ultrapassa os limites. Se a força do amor está na atração que um exerce sobre o outro, em que momento isso se transforma em desejo de controlar, de manipular?

Maria Lúcia de Arruda Aranha. In: Filosofando

sábado, 5 de setembro de 2009

Máquina estranha

"Que máquina estranha é o homem. Você o abastece com pão, vinho, peixe e rabanetes e o que sai são suspiros, risadas e sonhos."

- Nikos Kazantzakis

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Êxtase Puríssimo

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fogueira Acesa

Custava-lhe esforço aquela decência tranquila, aquela face calma - nervosa, no cansaço da noite maldormida, da luta inglória contra o desejo em brasa do seu ventre. Por fora água parada, por dentro uma fogueira acesa.

Jorge Amado. In: Dona Flor e Seus Dois Maridos