segunda-feira, 19 de setembro de 2022

alimentando esperanças

Eu diria que educadores são como velhas árvores. Possuem uma face, um nome, uma “estória” a ser contada. Habitam um mundo em que vale a relação que os liga aos educandos, sendo que cada educando é uma “entidade” sui generis, portador de um nome, também de uma “estória”, sofrendo tristezas e alimentando esperanças. E a educação é algo pra acontecer nesse espaço invisível e denso, que se estabelece a dois. Espaço artesanal. 


Rubem Alves. Alegria de ensinar

sábado, 3 de setembro de 2022

a vida ri a cada manhã

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.

Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.


Carlos Drummond de Andrade. Parolagem da Vida. In: A Palavra Mágica. 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

o último pôr do sol

A onda ainda quebra na praia
Espumas se misturam com o vento
No dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
Pensando em nós dois
No dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sentindo saudades do que não foi
Lembrando até do que eu não vivi
Pensando em nós dois

Eu lembro a concha em seu ouvido
Trazendo o barulho do mar na areia
No dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de Santa Cruz
Lembrando nós dois
No dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sozinho olhando o sol morrer
Por entre as ruínas de Santa Cruz
Lembrando nós dois

Os edifícios abandonados
As estradas sem ninguém
Óleo queimado, as vigas na areia
A lua nascendo por entre os fios dos teus cabelos
Por entre os dedos da minha mão
Passaram certezas e dúvidas
Pois no dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sozinho no mundo sem ter ninguém
O último homem no dia em que o sol morreu
Pois no dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sozinho no mundo sem ter ninguém
O último homem no dia em que o sol morreu
Pois no dia em que 'ocê foi embora eu fiquei
Sozinho no mundo sem ter ninguém
O último homem no dia em que o sol morreu


Composição: Lula Queiroga / Lenine

sábado, 12 de março de 2022

boas vindas



(...)

Venha conhecer a vida

Eu digo que ela é gostosa

Tem o sol e tem a lua
Tem o medo e tem a rosa

Eu digo que ela é gostosa

Tem a noite e tem o dia
A poesia e tem a prosa

Eu digo que ela é gostosa

Tem a morte e tem o amor
E tem o mote e tem a glosa

Eu digo que ela é gostosa...


Boas Vindas · Caetano Veloso