domingo, 1 de setembro de 2013

sentença de amor

"Entramos, e a primeira pessoa que se aproximou era aquela cujo aspecto me tinha feito desembarcar. Era Anita! A mãe de meus filhos! A companhia de minha vida, na boa e na má fortuna.  A mulher cuja coragem desejei tantas vezes. Ficamos ambos estáticos e silenciosos, olhando-se reciprocamente, como duas pessoas que não se vissem pela primeira vez e que buscam na aproximação alguma coisa como uma reminiscência.  A saudei finalmente e lhe disse: 'Tu deves ser minha!'. Eu falava pouco o português, e articulei as provocantes palavras em italiano. Contudo fui magnético na minha insolência. Havia atado um nó, decretado uma sentença que somente a morte poderia desfazer. Eu tinha encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro de grande valor." 

Giuseppe Garibaldi sobre quando conheceu Anita Garibaldi.

terça-feira, 28 de maio de 2013

lembrança alada


Em alguma vida fui ave.

Guardo memória
de paisagens espraiadas
e de escarpas em voo rasante.

E sinto em meus pés
o consolo de um pouso soberano
na mais alta copa da floresta.

Liga-me à terra
uma nuvem e seu desleixo de brancura.

Vivo a golpes com coração de asa
e tombo como um relâmpago
faminto de terra.

Guardo a pluma
que resta dentro do peito
como um homem guarda o seu nome
no travesseiro do tempo.

Em alguma ave fui vida.



Mia Couto

terça-feira, 23 de abril de 2013

uma boa definição


"Talvez estivéssemos sentindo a mesma coisa, ou talvez fosse porque era tão bom vê-lo novamente. Essa pode ser uma boa definição da palavra amor: é tão bom ver você."


Deb Caletti. In: Um Lugar para Ficar

domingo, 31 de março de 2013

sem amor


"Os que amam sem amor
Não terão o reino dos céus."


Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo


domingo, 17 de março de 2013

dá-me amor


O Poço

Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profunduras da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.


Pablo Neruda

terça-feira, 12 de março de 2013

por dizer

"... eu tinha - e tenho - um monte de coisas pra te dizer, aquelas coisas que a gente cala quando está perto porque acha que as vibrações do corpo bastam. Ou por medo, não sei."

Caio Fernando Abreu. Carta a Vera Antoun. In: Cartas


segunda-feira, 11 de março de 2013

puro amor


Olha o céu, filha
Sol
Estrela
Lua
O que arde e brilha
É puro amor.


Adélia Prado


domingo, 10 de março de 2013

a casa das palavras

Na casa das palavras, sonhou Helena Villagra, chegavam os poetas. As palavras, guardadas em velhos frascos de cristal, esperavam pelos poetas e se ofereciam, loucas de vontade de ser escolhidas: elas rogavam aos poetas que as olhassem, as cheirassem, as tocassem, as provassem. Os poetas abriam os frascos,provavam palavras com o dedo e então lambiam os lábios ou fechavam a cara. Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinham perdido.


Eduardo Galeano. In: O Livro dos Abraços

domingo, 13 de janeiro de 2013

uma maneira de falar

"Uma vez que a linguagem não é a tradução de um texto já formulado, mas se inventa a partir da experiência indistinta, toda palavra é sempre apenas uma ‘maneira de falar’: poderia haver uma outra. É por isso que o escritor detesta ser ‘tomado ao pé da letra’, ou seja, preso, imobilizado, amordaçado pelas palavras escritas. Elas paralisam meu pensamento, quando na verdade ele nunca para."


Simone de Beauvoir. In: Balanço Final.

sábado, 12 de janeiro de 2013

que este amor só me veja de partida

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas.
E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


Hilda Hilst

domingo, 6 de janeiro de 2013

porque há desejo em mim

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas.
Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.


Hilda Hilst

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

mas a poesia não é a revelação do real?

“Alguns personagens de poemas são vazados de pessoas da minha cidade, mas espero estejam transvazados no poema, nimbados de realidade. É pretensioso? Mas a poesia não é a revelação do real? Eu só tenho o cotidiano e meu sentimento dele. Não sei de alguém que tenha mais. O cotidiano em Divinópolis é igual ao de Hong-Kong, só que vivido em português.”


Adélia Prado

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

um poema triste

Eu escrevi um poema triste
E belo, apenas da sua tristeza.
Não vem de ti essa tristeza
Mas das mudanças do Tempo,
Que ora nos traz esperanças
Ora nos dá incerteza…
Nem importa, ao velho Tempo,
Que sejas fiel ou infiel…
Eu fico, junto à correnteza,
Olhando as horas tão breves…
E das cartas que me escreves
Faço barcos de papel!


Mário Quintana

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

a menina que me habita

Quantas vezes é possível se apaixonar pela mesma pessoa? Quantas vezes se pode sofrer por ela? E depois de amar e desamar, quantas vezes mais é correto ignorar a voz da razão, que insiste em dizer que está tudo bem, que a vida segue para ambos, que novas paixões são inevitáveis? Às vezes, custa tanto vestir a armadura de mulher forte, madura e bem resolvida. Às vezes, só se quer chorar, sentir saudade, deixar que grite o sentimento tão inutilmente guardado. Às vezes, a tal mulher bem resolvida dá lugar à menina que me habita. A menina e as dores que carrega.