quarta-feira, 30 de junho de 2010

LUTO

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"Pensar que a gente cessa é íngreme.
Minha alegria ficou sem voz."

Manoel de Barros. In: Livro sobre Nada




LUTO pelos camaradas Paulo Colombiano e Catarina Galindo, brutalmente assassinados na noite desta terça-feira, 29.

Solidariedade a Thiago Colombiano.
Força, colega! Você não está sozinho!



terça-feira, 29 de junho de 2010

O delírio do verbo

(...)

Em poesia,
que é voz de poeta,
que é a voz de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.


Manoel de Barros, no poema 'No descomeço era o verbo'

domingo, 27 de junho de 2010

Como um feitiço

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'

sábado, 26 de junho de 2010

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.




Adélia Prado

Calo-me

Deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo. Calo-me.


Clarice Lispector. In: Água Viva

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Soneto Antigo

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


Cecília Meireles

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mais vale

"Mais vale quem a amar madruga do que quem outro verbo conjuga."


João Guimarães Rosa. Tutaméia. In: Terceiras Estórias

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saúdo todos os que me lerem

(...)

Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.

(...)


Alberto Caeiro. In: O Guardador de Rebanhos I


terça-feira, 15 de junho de 2010

Descoberta

Descobri, faz algum tempo, que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas.
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Caio Fernando Abreu. Marinheiro. In: Triângulo das Águas

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quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dupla existência

Encontrei hoje em ruas, separadamente, dois amigos meus que se haviam zangado um com o outro. Cada um me contou a narrativa de por que se haviam zangado. Cada um me disse a verdade. Cada um me contou suas razões. Ambos tinham razão. Não era que um via uma coisa e outro outra, ou que um via um lado das coisas e outro um lado diferente. Não: cada um via as coisas exatamente como se haviam passado, cada um as via com um critério idêntico ao do outro, mas cada um via uma coisa diferente, e cada um, portanto, tinha razão. Fiquei confuso desta dupla existência da verdade.
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Fernando Pessoa
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D'amor e seus danos

D'Amor e seus danos
me fiz lavrador;
semeava amor
e colhia enganos;
não vi, em meus anos,
homem que apanhasse
o que semeasse.
(...)
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Luiz Vaz de Camões. In: Redondilhas.
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domingo, 6 de junho de 2010

Privilégio

Para compensar meus pesadelos, eu tinha o privilégio de sonhar colorido.
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Zélia Gattai
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Gosto quando te calas

Gosto quando te calas porque estás como ausente
e me ouves de longe, minha voz não te toca
parece que os olhos tivessem de ti voado
e parece que um beijo te fechara a boca.

Como todas as coisas estão cheias da minha alma
emerge das coisas, cheia da minha alma
borboletas de sonhos, pareces com minha alma
e te pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas. e estás como distante,
e estás como que te queixando, borboleta em arrulho
e me ouves de longe e minha voz não te alcança
deixa-me que me cale com o silêncio teu.

Deixa-me que te fale também com o teu silêncio,
clara como uma lámpada, simples como um anel
e como a noite, calada e constelada
Teu silêncio é de estrela, tão longínquo e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente
distante e dolorosa como se tivesses morrido
uma palavra então um sorriso bastam
e eu estou alegre, alegre de que não seja verdade.
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Pablo Neruda
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quarta-feira, 2 de junho de 2010

Não mais

"Os desejos mudam de objeto: não mais se ama ao que se amava."
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Montesquieu
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Cala-te

Entrega sempre a tua beleza
sem cálculo, sem palavras.
Cala-te. E ela diz por ti: eu sou.
E com mil sentidos, chega,
chega finalmente a cada um.
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Rainer Maria Rilke

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