segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

do que nos faz humanos

- Mas haverá lugar para a poesia?

- No mundo em que vivemos, o relógio sempre suspenso sobre nossas cabeças regulando o nosso dia, os compromissos a que estamos presos absorvendo todo o nosso tempo, muitos poderiam ser tentados a responder negativamente. Entretanto, estariam se esquecendo de que a poesia, assim como a arte em geral, perpassa nossa vida, dialoga com nossa sensibilidade, é inerente à nossa condição, está presente na ração diária que nos faz, a cada dia, humanos.


Luzia de Maria. In: A Palavra Mágica

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

a tal da segurança

O ser humano é interessante. Sempre procurando o amor definitivo e a tal da segurança. Logo ele, capaz de morrer no próximo minuto, sujeito à primeira ventania, e sem a menor chance diante do menor maremoto.

A segurança não existe. A gente inventou. E isso dói.



Oswaldo Montenegro. In: A vida é bela

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

da inveja

Minhas ilusões de ser escritor agonizavam a cada noite... Eu ficava até a madrugada começando novos romances que deixava pelo meio do caminho, desiludido por meu talento e minha preguiça. Outros escritores da minha idade obtinham considerável êxito no país e até prêmios no estrangeiro. (...) A inveja, mais que um estímulo para algum dia terminar um trabalho, operava em mim como ducha fria.


Antônio Skármeta. In: O Carteiro e o Poeta


terça-feira, 27 de novembro de 2012

Sobre o ato de escrever

"Não escrevemos o que queremos; escrevemos o que somos. Não há como fugir a essa fatalidade. Todo o processo de escrita literária é interior. A palavra é subjetiva, e, por isso mesmo, reveladora." 


Ana Miranda. In: O Romance II


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Teu nome


(...)

Perdeu-se na carne fria 
Perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
Perdeu-se na profusão das coisas acontecidas

Constelações de alfabeto 
Noites escritas a giz 
Pastilhas de aniversário 
Domingos de futebol 
Enterros, corsos, comícios 
Roleta, bilhar, baralho

Mudou de cara e cabelos Mudou de olhos e risos Mudou de casa 
e de tempo: mas está comigo
Está perdido comigo 
Teu nome 
Em alguma gaveta.


Ferreira Gullar. In: Poema Sujo

domingo, 4 de novembro de 2012

Não se deve



Não se deve romper o silêncio
sem um motivo preciso.
As palavras devem ser necessárias
inadiáveis como um aviso.


Luiz Roberto Nascimento. In: A flauta vertebral


sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Amor Secreto

"(...) Aquele amor secreto era a melhor coisa da sua vida. Tinha um gosto de romance, um romance que ele escrevia com a imaginação, com o desejo, já que a vida se recusava a dar-lhe um romance de verdade."


Érico Veríssimo. In: Olhai os Lírios do Campo


quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Catar feijão... catar palavras


Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.


João Cabral de Melo Neto. In: A educação da pedra e depois

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O amor e a palavra

Acho que existe uma ligação visceral entre o amor e a palavra. Basicamente, a palavra é a grande característica que separa o ser humano dos animais. Quer dizer, animais têm atração sexual, podem exprimir isso de várias maneiras, com uma linguagem própria deles - seja por meio do canto, como no caso da maioria dos pássaros, seja por intermédio de certos movimentos. Mas o ser humano é o único que pode transformar, expressar seu sentimento em palavras. 


Moacyr Sciliar. In: Amor em Texto, Amor em Contexto


Bons conselhos


segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Necrológio dos desiludidos do amor

Os desiludidos do amor
estão desfechando tiros no peito.
Do meu quarto ouço a fuzilaria.
As amadas torcem-se de gozo.
Oh quanta matéria para os jornais.

Desiludidos mas fotografados,
escreveram cartas explicativas,
tomaram todas as providências
para o remorso das amadas.

Pum pum pum adeus, enjoada.
Eu vou, tu ficas, mas nos veremos
seja no claro céu ou turvo inferno.

Os médicos estão fazendo a autópsia
dos desiludidos que se mataram.
Que grandes corações eles possuíam.
Visceras imensas, tripas sentimentais
e um estômago cheio de poesia.


Agora vamos para o cemitério
levar os corpos dos desiludidos
encaixotados competentemente
(paixões de primeira e de segunda classe).
Os desiludidos seguem iludidos,
sem coração, sem tripas, sem amor.


Única fortuna, os seus dentes de ouro
não servirão de lastro financeiro
e cobertos de terra perderão o brilho
enquanto as amadas dançarão um samba
bravo, violento, sobre a tumba deles.

Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo

[grifos meus]

sábado, 20 de outubro de 2012

A missão do poeta

Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado da sua bela, embalado pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo da batalha; se ele é verdadeiro poeta, jamais deve esquecer-se da sua missão: é achar sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração.


Gonçalves de Magalhães. In: Suspiros Poéticos e Saudades


terça-feira, 16 de outubro de 2012

Poesia

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto, ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.



Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo


Postagem especial. Sentimento do Mundo foi o primeiro livro de poesia que comprei, quando eu tinha uns 13 ou 14 anos. Eu o tinha perdido (?) e hoje, depois de muitos anos, tive o imenso prazer de reencontrá-lo. E sou mais feliz por isso! :))) 


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os Três Mal-Amados

"(...) O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos. (...)"


João Cabral de Melo Neto

<3

domingo, 14 de outubro de 2012

Pra celebrar a saudade

"Enquanto houver no mundo saudade,
quero que seja sempre celebrada."

Luís Vaz de Camões

sábado, 13 de outubro de 2012

Alegrias da solidão

"Estava tudo tão tranquilo que ela poderia julgar-se numa aldeia calma. Neste momento não lamentava que Pierre não se encontrasse ao seu lado, pois existiam alegrias que não poderia gozar na sua presença: todas as alegrias da solidão."


Simone de Beauvoir. In.: A Convidada

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Do que não deveria doer


Às vezes, você conhece uma pessoa maravilhosa, mas apenas por um rápido instante. Talvez em férias, num trem ou até numa fila de ônibus. E essa pessoa toca sua vida por um momento, mas de uma maneira especial. E, em vez de lamentar o fato de ela não poder ficar com você por mais tempo ou por você não ter a oportunidade de conhecê-la melhor, não é mais sensato ficar satisfeito por ter chegado a conhecê-la um dia?


Marian Keyes. In: Melancia


Antiode

Flor é a palavra
flor, verso inscrito
no verso, como
manhã no tempo.

João Cabral de Melo Neto


quarta-feira, 10 de outubro de 2012

A vida da arte

Ora a arte, como é feita por se sentir e para se sentir - sem o que seria ciência ou propaganda - baseia-se na sensibilidade. A sensibilidade é pois a vida da arte. 

Fernando Pessoa

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Matéria-prima de poesia


"... na despedida fez um dia lindo..."


Tristeza de despedida nem sempre é tristeza feia ou tem a ver com angústia. Pode ser tristeza leve, daquelas que serve de matéria-prima de poesia enfeitada por borboletas. Tristeza acompanhada de esperança na vida que segue, na possibilidade do reencontro, na certeza que o passou foi bonito. E que ninguém tira de nós aquilo que vivemos.  





terça-feira, 17 de julho de 2012

Diferença

Uma coisa é escrever como poeta, outra coisa como historiador : o poeta pode contar ou cantar coisas não como foram, mas como deveriam ter sido, enquanto o historiador deve relatá-las não como deveriam ter sido, mas como foram, sem acrescentar ou subtrair da verdade o que quer que seja.


Miguel de Cervantes. In: Dom Quixote de La Mancha

Oh! Que saudades que tenho...


Oh! Que saudades que tenho 
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!





Casimiro de Abreu

Ela era ainda menina...


Os vestidos de Josefina eram como o seu jardim, com raminhos de junquilhos, chuva de violetas, estrelinhas de jasmins correndo por umas fazendas pensativas, umas fazendas melancólicas, roxas, cor de poente, cor de aflição.
Ela era ainda menina, mas vestia-se como uma pessoa antiga: parecia uma viúva pequenina. Apenas um colarzinho iluminava esses vestidos tristes: era de contas lisas, umas contas de vidro tão roliças, tão lustrosas, que pareciam colhidas num rio.


Cecília Meireles

Cantiga

Comigo me desavim,
sou posto em todo perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
antes que esta assi crescesse:
agora já fugiria
de mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
de vão trabalho que sigo,
pois que trago a mim comigo
tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda. In: Cancioneiro Geral


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fogo e Água

Ela dizia-me que eu era o sol e ela a lua, que eu era o cubo e ela a esfera, que eu era o ouro e ela a prata. Então saíam chamas do meu corpo e chuva de todos os poros do seu. Abraçávamo-nos e as minhas chamas misturavam-se à sua chuva e formavam-se infinitos arco-íris à nossa volta. Foi então que ela me ensinou que eu sou o fogo, e ela, a água.


Arrabal, La Pierre de la Folie

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sem guia

"E se estou adiando começar é também porque não tenho guia."

Clarice Lispector. In: A Paixão Segundo G.H.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Num dia tão bonito...

"A manhã se faz de flores."




João Guimarães Rosa. In: Primeiras Estórias

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Má Consciência

O adjectivo
dá-me de comer.
Se não fora ele
o que houvera de ser?


Vivo de acrescentar às coisas
o que elas não são.
Mas é por cálculo
não por ilusão.


Alexandre O’Neill

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Perecível

É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Há, então, um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu. Mas depois!... Seria, pois, necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?...


Eça de Queirós. In: O Primo Basílio

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Saudade

Mas é a saudade que me povoa as noites,
não me deixa só, quase a morrer.


Somos assim multidão silente...



Roque Dalton

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Dos amores ilegítimos

O que a levara então para ele?... Nem ela sabia; não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e mórbida de ter um amante, mil vaidadezinhas inflamadas, um certo desejo físico...

E sentira-a porventura, essa felicidade, que dão os amores ilegítimos, de que tanto se fala nos romances e nas óperas, que faz esquecer tudo na vida, afrontar a morte, quase fazê-la amar? Nunca! Todo o prazer que sentira ao princípio, que lhe parecera ser o amor, vinha da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã proibida, das condições do mistério do Paraíso, de outras circunstâncias talvez, que nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!


Eça de Queirós. In: O Primo Basílio

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O seu santo nome

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão
de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra
que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O ofício do poeta

O ofício do poeta, ofício que não se aprende, consiste em colocar os objectos do mundo visível, tornado invisível pela borracha do hábito, numa posição insólita que interpele o olhar da alma e lhe confira tragédia. Trata-se, pois, de comprometer a realidade, de a apanhar em falta, de a inundar subitamente de luz e de a obrigar a confessar o que ela esconde. [...]



Jean Cocteau

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Querer

"(...) quero me vestir de flores
me espalhar no vento
seduzir o sol."



Renata Fagundes

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Próximo passo

Não sei o nome disso que estamos sentindo um pelo outro, e também não me importa. Pode ser o ápice ou o precipício, tudo bem. E também não sei se teremos habilidade para cultivar isso por três semanas ou por três décadas inteiras. Só sei que agora estou interessado em saber como será o próximo passo.


Gabito Nunes

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Bom remédio

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
bebe a delícia da manhã.



Manuel Bandeira

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

À espera duma ocasião

O meu riso estava todo dentro de mim à espera duma ocasião para sair.


Charles Bukowski. In: Mulheres

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

História de amor

é sempre
uma história de amor:

a árvore
que se afeiçoa ao pássaro

o sol
que se liga à água

os olhos
que se prendem ao mar



Gil T. Sousa. In: Falso Lugar

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Desvios

- Pois é nos desvios que encontra as melhores surpresas e os ariticuns maduros.



Manoel de Barros


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Como quereis o equilíbrio?

Nós temos cinco sentidos:
são dois pares e meio de asas.
- Como quereis o equilíbrio?



David Mourão Ferreira

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Questão de tempo

"(...) porque é uma questão de tempo e de rosas. Porque o que é bonito é o que captamos enquanto passa. É a configuração efêmera das coisas no momento em que vemos ao mesmo tempo a beleza e a morte. (...) Estar vivo talvez seja isto: espreitar os instantes que morrem."



Muriel Barbery. In: A elegância do Ouriço

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aonde se encontrava?

Eu te recordava como a alma apreendida
dessa tristeza que tu me julgas.
Então, aonde se encontrava?
Entre estas gentes?
Falando que palavras?
Por que me chega todo este amor de um golpe
quando me sinto triste, e te sinto longe?


Pablo Neruda. In: Vinte poemas de amor e uma canção desesperada


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Procuro Sol

"Procuro Sol, porque sou bicho de corpo.
Sombra terei depois, a mais fria."



Adélia Prado - Sensorial


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Risco iminente

"(...) Quanto a mim, o que me mantém vivo é o risco iminente da paixão e seus coadjuvantes, amor, ódio, gozo, misericórdia..."

Rubem Fonseca. In: O Cobrador


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Lembranças

"Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças."


Rachel de Queiroz


domingo, 8 de janeiro de 2012

Você e eu

Na despedida
A estrada é linda
Pra sempre um caminhar

E sopra o vento
Do encatamento
Certeza de voltar

É bom
Que seja logo
Aos céus eu rogo
Que eu volte para ver

Tanta beleza
Luz da nobreza
Pra sempre eu quero ter

Você e eu.


sábado, 7 de janeiro de 2012

De uma forma diferente


Quero te avisar que não fui embora. Vou ficar por aqui um tempo, só olhando. Eu não estou parada. Estou mandando amor de uma forma diferente.



Vanessa Leonardi


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Anseios

Meu doido coração aonde vais,
No teu imenso anseio de liberdade?
Toma cautela com a realidade;
Meu pobre coração olha que cais!


Deixa-te estar quietinho! Não amais
A doce quietação da soledade?
Tuas lindas quimeras irreais,
Não valem o prazer duma saudade!


Tu chamas ao meu seio, negra prisão!
Ai, vê lá bem, ó doido coração,
Não te deslumbres o brilho do luar!...


Não 'stendas tuas asas para o longe...
Deixa-te estar quietinho, triste monge,
Na paz da tua cela, a soluçar...


Florbela Espanca


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Nostálgica

"Sempre fui nostálgica, sobretudo do que não chegou a acontecer."


Inês Pedrosa. In: Fazes-me Falta

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Eu queria trazer-te uns versos muito lindos


Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!




Mario Quintana. In: Quintana de bolso


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Coisa Nova

E na expectativa de ver nascer flor, colho uma tristeza adormecida. Mas não machuca, nem dói. Só espreguiça aqui dentro. É até bonito essa quietude da cor de um entardecer no final de uma estrada. Uma dor quentinha que abraça, até protege e faz lembrar que existe isso de bonito nas tristezas, uma luz que cega alegria velha, mas acende qualquer coisa nova, que se prepara pra nascer.




Vanessa Leonardi

domingo, 1 de janeiro de 2012

Defesa da Alegria

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria por princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
assim dos neutrais e dos neutrões
das infâmias doces
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e também dos canalhas
da retórica e das paragens cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e homicidas
do descanso e do cansaço
e da obrigação de estar alegre

defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da ronha
da famigerada patina do tempo
do relento e do oportunismo
ou dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de Deus e do Inverno
das maiúsculas e da morte
dos apelidos e dos lamentos
do azar
e também da alegria




Mario Benedetti. In: Lugares mal situados