sábado, 23 de dezembro de 2023

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

o amor é tão longe


Perdi-me do nome
Hoje podes chamar-me de tua
Dancei em palácios
Hoje danço na rua

Vesti-me de sonhos
Hoje visto as bermas da estrada
De que serve voltar
Quando se volta para o nada

Eu não sei se um Anjo me chama
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar

Eu não sei se a noite me leva
Eu não ouço o meu grito na treva
O fim quer me buscar

Sambei na avenida
No escuro fui porta-estandarte
Apagaram-se as luzes
É o futuro que parte

Escrevi o desejo
Corações que já esqueci
Com sedas matei
E com ferros morri

Eu não sei se um Anjo me chama
Eu não sei dos mil homens na cama
E o céu não pode esperar

Eu não sei se a noite me leva
Eu não ouço o meu grito na treva
E o fim quer me buscar

Trouxe pouco
Levo menos
A distância até ao fundo é tão pequena
No fundo, é tão pequena
A queda

E o amor é tão longe
O amor é tão longe
O amor é tão longe
O amor é tão longe.


Balada De Gisberta
Intérprete: Maria Bethânia
Composição: Pedro Abrunhosa

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

sempre comigo

Há uma união entre o que vejo e sinto,
E o bem que cada coisa verte de uma em outra:
Quando meus olhos anseiam por um olhar,
Ou o coração apaixonado, brando, a suspirar,
Meus olhos celebram a imagem do meu amor,
E, diante do banquete, se rende a minha emoção;
Em outro tempo, meus olhos se aninham ao sentimento,
E se unem aos seus pensamentos amorosos:
Então, seja por tua imagem ou pelo meu amor,
Estás, mesmo distante, sempre comigo;
Pois não corres mais do que meus pensamentos,
E estou com eles, e eles, contigo;
Ou se adormece, a tua imagem à minha frente
Desperta meu amor para a alegria dos olhos e do coração.

Shakespeare. Soneto 47

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

entre flores e cores

 


Pablo Picasso - Jarrón con flores, 1954 

terça-feira, 12 de dezembro de 2023

atravessou minha vida


Um trem de ferro é uma coisa mecânica,

mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,

atravessou minha vida,

virou só sentimento.


Adélia Prado. Explicação de poesia sem ninguém pedir.


domingo, 10 de dezembro de 2023

uma verdade inventada

Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.


Clarice Lispector. Água Viva.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

da série 'espelho da alma'



Aida Muluneh - As Leis do Movimento


terça-feira, 5 de dezembro de 2023

fardo do dia


             Aida Muluneh - Burden of the Day (2018)


segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

essa noite vai ter sol

Acenda a lâmpada

Às seis horas da tarde

Acenda a luz dos lampiões

Inflame a chama dos salões

Fogos de línguas de dragões

Vagalumes

Numa nuvem de poeira de néon

Tudo claro

Tudo claro à noite, assim que é bom

A luz

Acesa na janela lá de casa

O fogo

O foco lá no beco e um farol

Essa noite

Essa noite vai ter sol

Essa noite

Essa noite vai ter sol



Luzes. Paulo Leminski. 


domingo, 3 de dezembro de 2023

foi bonito agora


 

Atravessei os sete mares

E por todos os lugares

Por onde andei

Você me dava a vida


Foi uma dádiva da natureza

Essa coisa acesa

Que hoje vejo em ti


Não acredito nem que o mundo chora

Foi bonito agora 

vi você sorrir

(...)


Coisa Acesa. Moraes Moreira e Fausto Nilo. 💕


sábado, 2 de dezembro de 2023

apalpar o invisível

Não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas e lascas como aços espalhados. Ah, que medo de começar e ainda nem sequer sei o nome da moça. Sem falar que a história me desespera por ser simples demais. O que me proponho contar parece fácil à mão de todos. Mas a sua elaboração é muito difícil. Pois tenho que tornar nítido o que está quase apagado e que mal vejo. Com mãos de dedos duros enlameados apalpar o invisível na própria lama.


Clarice Lispector. In: A Hora da Estrela


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

por acaso indo a ti não volto à minha casa?

 As esquadras acodem ao porto. 
O trem corre para as estações. 
Eu, mais depressa ainda, 
vou a ti, 
atraído, arrebatado, 
pois que te amo. 
Assim como se apeia 
o avarento cavaleiro de Puchkin, 
alegre por encafuar-se em seu sótão, 
assim eu 
regresso a ti, amada, 
com o coração encantado de mim. 
Ficais contentes de retornar à casa. 
Ali vos livrais da sujeira, 
raspando-vos, lavando-vos, 
fazendo a barba. 
Assim retorno eu a ti. 
Por acaso, 
indo a ti não volto à minha casa? 
Gente terrena ao seio da terra volta. 
Sempre volvemos à nossa meta final. 
Assim eu, 
em tua direção sempre me inclino 
apenas nos separamos 
mal acabamos de nos ver. 


Vladimir Maiakovski

domingo, 29 de outubro de 2023

uma plenitude mansa que acendeu a chama




Houve um tempo em que eu chorava quase todo dia
Dando linha a uma vida extremamente chata
Com a vontade disponível de não existir

Houve um tempo em que eu morava com minha tristeza
Era amigo e confidente das manhãs sem Sol
Prisioneiro de mim mesmo, sem poder fugir

De repente o infinito de uma coisa boa
Começou devagarinho a orbitar em mim
Como num conto de fadas dos irmãos grimm

Era um universo puro de uma pessoa
Que me viu um mundo morto portador de vida
Como um beija-flor perdido no próprio jardim

Era um momento claro de fazer saudade
Um encontro do destino com a felicidade
Formidáveis primaveras de estações sem dor

Parecia uma chance pra nascer de novo
Uma plenitude mansa que acendeu a chama
De incontáveis alegrias vindas do amor

Foi assim que eu mergulhei no mar daquele afeto
Esquecendo a fé sem rosto do meu peito inquieto
Vendo os seios sobre a mesa que jorravam mel
E ouvindo interjeições de sentimentos puros
Investi nas sensações de emoções sem juros
E ganhei um universo pra chamar de céu

Parecia uma chance pra nascer de novo
Uma plenitude mansa que acendeu a chama
De incontáveis alegrias vindas do amor

Foi assim que eu mergulhei no mar daquele afeto
Esquecendo a fé sem rosto do meu peito inquieto
Vendo os seios sobre a mesa que jorravam mel
E ouvindo interjeições de sentimentos puros
Investi nas sensações de emoções sem juros
E ganhei um universo pra chamar de céu

Ganhei um universo pra chamar de céu
Ganhei um universo pra chamar de céu
Pra chamar de céu
Pra chamar de céu
Ganhei um universo pra chamar de céu
Que jorrava mel...



Erasmo Carlos. Convite Para Nascer de Novo. 
  

sábado, 28 de outubro de 2023

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

o mundo é demasiado grande

O GLOBO - O senhor crê que a literatura tem alguma capacidade de provocar mudanças no mundo? [...]
SARAMAGO - A resposta está na pergunta. Pretendo tocar os leitores, criar polêmicas, estimular discussões. Mas isto não significa que a literatura tenha poder para mudar o mundo. Já não é pouco que seja capaz de exercer influência sobre algumas pessoas. O mundo é demasiado grande, somos mais de sete bilhões os que habitamos neste planeta, e o poder real está nas mãos das grandes multinacionais que evidentemente não nasceram para ser agentes da nossa felicidade.


José Saramago em entrevista para O Globo. Rio de Janeiro, 20 mar. 2004.

terça-feira, 24 de outubro de 2023

para nos salvarmos juntos

"(...) A gente escreve a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria. A gente escreve contra a própria solidão e a dos outros. A gente supõe que a literatura transmite conhecimento e atua sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe; que ajuda a nos conhecermos para nos salvarmos juntos..."


José Domingos de Brito. Por que escrevo? Escrituras, 1999.

segunda-feira, 23 de outubro de 2023

disposição para a vertigem

 


Vertigo / The Tower of Pleasure - Salvador Dalí


"Entregar-se ao amor pelo saber ou por alguém exige uma certa disposição para a vertigem, para a perda provisória do autocontrole. Na vertigem corre-se o perigo da queda, mas abre-se também a possibilidade de ter prazer com o movimento. Só é capaz de amar quem tem coragem de perder o prumo."


Charles Feitosa. Explicando a filosofia com arte.


sábado, 21 de outubro de 2023

a palavra é disfarce

Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce 
o ‘de’, o ‘aliás’, o ‘o’, o ‘porém’ e o ‘que’, 
esta incompreensível muleta que me apoia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, 
surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infrequentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror. 


Adélia Prado. Antes do nome.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

domingo, 15 de outubro de 2023

despedida


Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? – me perguntarão.
– Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação…
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra…)

Quero solidão.


Cecília Meireles

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

minha virtude era esta errância


Entre mim e mim, há vastidões bastantes
para a navegação dos meus desejos afligidos.

Descem pela água minhas naves revestidas de espelhos.
Cada lâmina arrisca um olhar, e investiga o elemento que a atinge.

Mas, nesta aventura do sonho exposto à correnteza,
só recolho o gosto infinito das respostas que não se encontram.

Virei-me sobre a minha própria experiência, e contemplei-a.
Minha virtude era esta errância por mares contraditórios,
e este abandono para além da felicidade e da beleza.

Ó meu Deus, isto é minha alma:
qualquer coisa que flutua sobre este corpo efêmero e precário,
como o vento largo do oceano sobre a areia passiva e inúmera…


Cecília Meireles. Noções.

segunda-feira, 9 de outubro de 2023

à procura da palavra


Certa palavra dorme na sombra
de um livro raro.
Como desencantá-la?
É a senha da vida
a senha do mundo.
Vou procurá-la.
Vou procurá-la a vida inteira
no mundo todo.
Se tarda o encontro, se não a encontro,
não desanimo,
procuro sempre.
Procuro sempre, e minha procura
ficará sendo
minha palavra.


Carlos Drummond de Andrade. A palavra mágica.

domingo, 8 de outubro de 2023

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

rindo por dentro


“(...) eu sorri para vocês – e acontece que o sorriso não iluminou meu rosto… Eu posso estar rindo por dentro e não aparece por fora."


Clarice Lispector. Carta às irmãs Elisa e Tania. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo;
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?



Ferreira Gullar. Traduzir-se. Toda Poesia.


terça-feira, 3 de outubro de 2023

de dentro do seu próprio coração


homem espiando o mundo de dentro do seu próprio coração - Arte de Suzano Correia 

segunda-feira, 2 de outubro de 2023

alguma coisa sempre faz falta

"(...) eu estava tristíssimo. Há meses não havia sol, ninguém mandava notícias de lugar algum, o dinheiro estava no fim, pessoas que eu considerava amigas tinham sido cruéis e desonestas. Pior que tudo, rondava um sentimento de desorientação. Aquela liberdade e falta de laços tão totais que tornam-se horríveis, e você pode então ir tanto para Botucatu quanto para Java, Budapeste ou Maputo — nada interessa. Viajante sofre muito: é o preço que se paga por querer ver “como um danado”, feito Pessoa. Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio.

Enrolado num capotão da Segunda Guerra, naquela tarde em Notre-Dame rezei, acendi vela, pensei coisas do passado, da fantasia e memória, depois saí a caminhar. Parei numa vitrina cheia de obras do conde Saint-Germain, me perdi pelos bulevares da le dela Cité. Então sentei num banco do Quai de Bourbon, de costas para o Sena, acendi um cigarro e olhei para a casa em frente, no outro lado da rua. Na fachada estragada pelo tempo lia-se numa placa: “II y a toujours quelque choe d’abient qui me tourmente” (Existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta) — frase de uma carta escrita por Camilie Claudel a Rodín, em 1886. Daquela casa, dizia a placa, Camille saíra direto para o hospício, onde permaneceu até a morte. Perdida de amor, de talento e de loucura.

Fazia frio, garoava fino sobre o Sena, daquelas garoas tão finas que mal chegam a molhar um cigarro. Copiei a frase numa agenda. E seja lá o que possa significar “ficar bem” dentro desse desconforto inseparável da condição, naquele momento justo e breve — fiquei bem. Tomei um Calvados, entrei numa galeria para ver os desenhos de Egon Schiele enquanto a frase de Camille assentava aos poucos na cabeça. Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta.

Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente. Três anos depois fui parar em Saint-Nazaire, cidadezinha no estuário do rio Loire, fronteira sul da Bretanha. Lá, escrevi uma novela chamada Bem longe de Marienbad , homenagem mais à canção de Barbara que ao filme de Resnais. Uma tarde saí a caminhar procurando na mente uma epígrafe para o texto. Por “acaso”, fui dar na frente de um centro cultural chamado (oh!) Camille Claudel. Lembrei da agenda antiga, fui remexer papéis. E lá estava aquela frase que eu nem lembrava mais e era, sim, a epígrafe e síntese (quem sabe epitáfio, um dia) não só daquele texto, mas de todos os outros que escrevi até hoje. E do que não escrevi, mas vivi e vivo e viverei.

Pego o metrô, vou conferir. Continua lá, a placa na fachada da casa número 1 do Quai de Bourbon, no mesmo lugar. Quando um dia você vier a Paris, procure. E se não vier, para seu próprio bem guarde este recado: alguma coisa sempre faz falta. Guarde sem dor, embora doa, e em segredo.


Caio Fernando Abreu. O Estado de S. Paulo, 3/4/1994.

domingo, 1 de outubro de 2023

também é ser deixar de ser assim

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser deixar de ser assim.

Rosas verás, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles. Motivo da Rosa. 

sábado, 30 de setembro de 2023

onde não lhe cabe mais



 Homem morando onde não lhe cabe mais - Suzano Correia

terça-feira, 26 de setembro de 2023

como se tivessem boca


Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.


Alexandre O'Neill

segunda-feira, 25 de setembro de 2023

é azul à minha volta

"(...) Começo a entrar no mar sem medo antigo, e pela primeira vez a água não parece fria nem escura, nem arde nos olhos quando mergulho. Mergulho fundo para voltar em seguida à tona, mas não consigo, qualquer coisa como algas ou raízes ou peixes ou mesmo estrelas me prendem a esse fundo de fogo claro. E me debato sem vontade, sabendo que além da superfície há um dia esmaecido, que ainda é outono e um pajem caminha num parque qualquer, todas as tardes com um livro ou uma folha nas mãos douradas e sozinhas. Mas é azul à minha volta, e embora me doa esse azul entrando pelos sentidos, é ali que quero ficar agora, naquele fundo claro de fogo, com algas de madrepérola aprisionando meus tornozelos, alguns tesouros além, navios piratas, ouros, terras, sereias..."


Caio Fernando Abreu. Qualquer coisa. 

domingo, 24 de setembro de 2023

em paz


Ekua Holmes 

sábado, 23 de setembro de 2023

o bem da existência

De longe te hei-de amar
– da tranquila distância
em que o amor é saudade
e o desejo, constância.

Do divino lugar
onde o bem da existência
é ser eternidade
e parecer ausência.

Quem precisa explicar
o momento e a fragrância
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogância?

E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violência,
cumpre a sua verdade,
alheia à transparência.


Cecília Meireles

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

para quem sabe olhar

Perdida na avenida

Canta seu enredo

Fora do carnaval

Perdeu a saia

Perdeu o emprego

Desfila natural

Esquinas mil buzinas

Imagina orquestras

Samba no chafariz

Viva a folia

A dor não presta

Felicidade, sim

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

Bambeia, cambaleia

É dura na queda

Custa a cair em si

Largou família

Bebeu veneno

E vai morrer de rir

Vagueia, devaneia

Já apanhou à beça

Mas para quem sabe olhar

A flor também é ferida aberta

E não se vê chorar...

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas

O Sol ensolará a estrada dela

A Lua alumiará o mar

A vida é bela

O Sol, a estrada amarela

E as ondas, as ondas, as ondas, as ondas







Dura na queda 

Voz: Elza Soares

Composição: Chico Buarque


domingo, 17 de setembro de 2023

olhos abertos para amanhã

A poesia não está nas olheiras imorais de Ofélia
nem no jardim dos lilases.
A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas conversando ou prague­jando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
— e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.
A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.


Mário Dionísio. Arte Poética. 


quinta-feira, 14 de setembro de 2023

bem pra lá do fim do mundo


Roda, gira, vira o vento
Meu amor vai te levar
Bem pra lá do fim do mundo
Onde eu vou te chamar


Gal Costa - Flor de Maracujá
Composição: João Donato / Lysias Enio