quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A canção cor de rosa

Sempre vivi de amor. Quando eu era criança,
Namorei uma estrela, adorei uma rosa...
Porém, se sempre amei, nunca tive esperança,
Nunca fiz a menor confidência amorosa...
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Não sei porque motivo o coração não cansa
Da existência tornar sempre fantasiosa...
O verdadeiro amor é o que jamais se alcança,
Só se ama, a vida inteira, a ilusão caprichosa...
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E é porque sei que tu não poderás ser minha,
E a tua perfeição, nem de longe, adivinha
o culto, a hiperdúlia em que vivo a envolvê-la,
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Que ando, maravilhado, ao sabor do destino,
Hoje, como no tempo em que, poeta menino,
Namorava uma rosa, adorava uma estrela...
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Martins Fontes
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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Incompletude

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra o pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta o lápis, que vê a uva etc.etc.
Perdoai.
Mas preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.

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Manoel de Barros. In: Retrato do artista quando coisa
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domingo, 20 de dezembro de 2009

Ilusão

Eu devorava livros e mais livros na singela ilusão de rechear com as emoções dos outros o espaço das emoções que me faltavam.
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Mirna Gleich Pinsky. In 'Sonho de verão: Uma história de amor'
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Procelária

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
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As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
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Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
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Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
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sábado, 19 de dezembro de 2009

Inevitável

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.

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Gabriel García Márquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera
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Soneto de véspera

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
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Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
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Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida
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Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...
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Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas
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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O tempo passou

Às vezes me lembro dele. Sem rancor, sem saudade, sem tristeza. Sem nenhum sentimento especial a não ser a certeza de que, afinal, o tempo passou. Nunca mais o vi, depois que foi embora. Nunca nos escrevemos. Não havia mesmo o que dizer. Ou havia? Ah, como não sei responder as minhas próprias perguntas! É possível que, no fundo, sempre restem algumas coisas para serem ditas. É possível também que o afastamento total só aconteça quando não mais restam essas coisas e a gente continua a buscar, a investigar — e principalmente a fingir. Fingir que encontra. Acho que, se tornasse a vê-lo, custaria a reconhecê-lo.
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Caio Fernando Abreu. In: Limite Branco
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O espetáculo da vida

E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.


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João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina. In: Duas Águas
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Duelo de vida

O amor, que é a primeira das artes da paz, pode-se dizer que é um duelo, não de morte, mas de vida.
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Machado de Assis. In: Esaú e Jacó
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Epigrama nº 8

Encostei-me a ti,
sabendo que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem,
depus a minha vida em ti.
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Como sabia bem tudo isso,
e dei-me ao teu destino, frágil,
Fiquei sem poder chorar quando caí.
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Cecília Meireles
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sábado, 12 de dezembro de 2009

As lembranças desobedecem

Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.

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Mia Couto. In: Terra Sonâmbula

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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O amor bate na aorta

[...]

Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender...
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Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Do efêmero

Tudo se encaminha para o final, no cenário, um final apropriado. Por toda parte, imperceptivelmente ou não, as coisas estão passando, acabando, indo embora. E haverá outros verões, outros espetáculos de bandas, mas nunca mais aquele ali, nunca mais, nunca mais como agora. No próximo ano, eu não serei a pessoa que sou este ano. E por isso dou risada do que é passageiro, efêmero; rio enquanto seguro carinhosamente, como um tolo segura seu brinquedo, o copo rachado pelo qual a água escorre entre meus dedos.
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Sylvia Plath
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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A estrada do amor...

a gente já está mesmo nela, desde que não pergunte por direção nem destino. E a casa do amor - em cuja porta não se chama e não se espera - fica um pouco mais adiante.

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João Guimarães Rosa. In: Sagarana
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Rumo ao sumo

Disfarça, tem gente olhando.

Uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.

Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.

De frente ou de lado
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.

Raros olham pra dentro,
já que dentro não tem nada.

Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
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Paulo Leminski
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domingo, 6 de dezembro de 2009

Encontro

Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não deslumbra; sua vista perturba-se. Diante dela e todo a contemplá-la, está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo. Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de sangue borbulham na face do desconhecido. De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu.
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José de Alencar. In: Iracema
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sábado, 5 de dezembro de 2009

Amor Violeta

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.

Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
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Adélia Prado
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sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Obrigação

A única coisa que queria era viver. Quem sabe achava que havia uma gloriazinha em viver. Ela pensava que a pessoa é obrigada a ser feliz. Então era.
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Clarice Lispector. In: A hora da Estrela
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terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Entrevista

CAROS AMIGOS: Se tivesse que ser crítico de seus poemas, quais temas você diria que são mais recorrentes?
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MANOEL DE BARROS: Acho que ser gente é o tema mais recorrente. Ou não ser gente. Se o tempo não é humano eu humanizo. Amarro o tempo no poste para ele parar. Boto a Manhã de pernas abertas para o sol. Me horizonto para os pássaros. Uma ave me sonha. O dia amanheceu aberto em mim.
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Manoel de Barros, em entrevista à Revista Caros Amigos
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Manoel de Barros, lindo-lindo, para começar bem o mês. ;)
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segunda-feira, 30 de novembro de 2009

4º Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
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Cecília Meireles
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E o ar...

Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança.
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João Guimarães Rosa. A Menina de Lá. In: Primeiras Estórias
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domingo, 29 de novembro de 2009

Mundo Grande

Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,

por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:
preciso de todos.

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Carlos Drummond de Andrade. In: Antologia Poética
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sábado, 28 de novembro de 2009

Se não tomo cuidado...

As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito.

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Clarice Lispector. Os desastres de Sofia. In: A legião estrangeira
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Sedução

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.

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Adélia Prado
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Lágrima querendo rolar


"... vento entrando, remexendo nos cabelos, no rosto, jeito de lágrima querendo rolar."


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Caio Fernando Abreu. Domingo. In: O Inventário do Irremediável

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quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Amor começa tarde

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

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Carlos Drummond de Andrade. In: As Impurezas do Branco
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Sem palavras

Muitas vezes recebi dos seus olhos lindas declarações em que não pôs qualquer palavra.
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William Shakespeare. In: O Mercador de Veneza
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domingo, 22 de novembro de 2009

Divinare

A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
Sabiá
Mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
Existem
Nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informação

perde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
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Manoel de Barros. In: Livro sobre nada
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Só tenho medo...

Vitória fechou as mãos dentro dos bolsos da calça:
— Que é que você está fazendo, perguntou tranqüila.
— Podando a roseira brava.
— A roseira não assusta você? perguntou suave. (...)
— Esta não: esta tem espinhos.
Vitória franziu as sobrancelhas:
— E que diferença faz se tem espinhos?
— É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinhos, toda delicada demais, e toda bonita demais.

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Clarice Lispector. In: A Maçã no Escuro
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sábado, 21 de novembro de 2009

Além Alma

Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?

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Paulo Leminski. In: Distraídos Venceremos
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O milagre

- Não quero que você escreva mais! Quero que você fale!
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Gustavo ouve e sente que o amor e o beijo de Célia podem gerar o milagre. (...) As bocas se afastam, as mãos mais se apertam, as lágrimas nos olhos que parecem sangrar. Tudo, agora, é nele angústia e dor. (...) é como num parto, a voz está nascendo. (...) E ele a rir e a chorar ao mesmo tempo, exclama, em tom ainda fraco, mas exclama:
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- Amor!
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Adonias Filho. In: O Largo da Palma
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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Trecho

Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.

Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
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Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas
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Muito tempo

De repente - ou não de repente, mas tão aos pouquinhos, e tão igual todo dia que era como se fosse assim, num piscar de olhos, num virar de página - passou-se muito tempo.
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Caio F. Abreu. In: Os Dragões não Conhecem o paraíso
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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Mutuamente

"O amor, agora sei, é a terra e o mar se inundando
mutuamente."
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Mia Couto. A cantadeira. In: Na Berma de Nenhuma Estrada

domingo, 15 de novembro de 2009

Feiticeiros das palavras

Os poetas são os feiticeiros das palavras. Num só verso põem a alma inteira. Num só poema, toda a beleza do mundo.
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Manuela Monteiro. In: A Casa da Romãzeira
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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

De novo

[...] Mas, aprendi, lá nessa outra escola, que o sinal do recreio sempre toca, por mais que aparente demorar a tocar. Enquanto não toca, a gente foca na lição da vez. Dialoga com os fantasmas todos. Interage com a própria alma. Procura retomar o fôlego. Cuida, como pode, do coração. E aguarda. O sinal tocará. De novo.
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[Crescimento - Ana Jácomo]
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Anoitecendo

"... o sol tão claro lá fora,
o sol tão claro, Esmeralda,
e em minhalma - anoitecendo."
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Manuel Bandeira. In: Antologia Poética
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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Só por preguiça

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer.

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Mia Couto. In: Mar me quer
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Na Fazenda

As plantas
me ensinavam de chão.
Fui aprendendo com o corpo.
Hoje sofro de gorjeios
nos lugares puídos de mim.
Sofro de árvores.


Manoel de Barros. In: Compêndio para uso dos pássaros
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Porque perdi a minha dor...

"Chorei porque não era mais uma criança com a fé cega de criança. Chorei porque não podia mais acreditar e adoro acreditar. Chorei porque daqui em diante chorarei menos. Chorei porque perdi a minha dor e ainda não estou acostumada com a ausência dela."
Anaïs Nin
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sábado, 7 de novembro de 2009

Mentira

"O regador é só uma mentira de chuva
que eu tenho de contar às flores,
todas as manhãs."


Rita Apoena
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Segredos pequenos

Guardo segredos pequenos — as coisas que penso ou sinto, pequenos acontecimentos que não descrevo à 'comunidade'.
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Caio F. In: Cartas
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes
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Adélia Prado. In: Bagagem
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Uma mulher que dança

[...] Ela é uma mulher que dança, e que deixaria de ser mulher divinamente, se o salto que fez, pudesse obedecê-lo até as nuvens. Mas como não podemos ir ao infinito, nem no sonho nem na vigília, ela, de modo semelhante, reconverte-se sempre a si mesma; deixa de ser floco, pássaro, idéia; - de ser enfim tudo o que a flauta quis que ela fosse feito, pois a mesma Terra que a mandou a convoca, e entrega-a toda palpitante à sua natureza de mulher. [...] *

Paul Valéry. In: A alma e a dança


* Diálogo no qual Sócrates declara que para a alma só há dois remédios: a verdade e a mentira, e que eles se integram mutuamente. Para completar essa idéia, compara a vida a uma mulher que dança.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Peraltagens

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto no final da frase.

Manoel de Barros. In: Exercícios de ser criança

domingo, 1 de novembro de 2009

Para que eu não te doa demais

Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor, já que tenho que te doer.

Clarice Lispector. Os desastres de Sofia. In: A Legião Estrangeira

sábado, 31 de outubro de 2009

Flor de Ir Embora - Maria Bethânia



Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta
Do que a gente chora.
Rompe a terra, decidida,
Flor do meu desejo
De correr o mundo afora.
Flor de sentimento
Amadurecendo, aos poucos,
Minha partida.
Quando a flor abrir inteira.
Muda a minha vida.
Esperei o tempo certo.
E lá vou eu, e lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
E agora, esse mundo é meu.


[Composição: Fátima Guedes]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Me socorria a lembrança

Demorasse assim sua ausência, a espera não se sujava com desespero. Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar.

Mia Couto. A cantadeira. In: Na Berma de Nenhuma Estrada

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Na minha alma...

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana. In: Poesia Completa

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Distraindo a morte

[...] é que a morte também é leitora, por isso recomendo ter sempre um livro na mão, porque assim, quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que o que você está lendo, como eu faço no ônibus, e se distrai.


Rosa Montero. In: A Louca da Casa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez

Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil
E os meios perfis não coincidiam

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar. Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo

domingo, 25 de outubro de 2009

Com o céu em nós

Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros. [...] Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham.

Machado de Assis. In: Dom Casmurro

sábado, 24 de outubro de 2009

A Descoberta

Anos de estudos
e pesquisas:
Era no amanhecer
Que as formigas escolhiam seus vestidos.


Manoel de Barros. In: Matéria de Poesia

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Por amor

Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor.

Clarice Lispector. In: A paixão segundo G.H.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Languidez

...

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…


Florbela Espanca. In: Livro de Mágoas

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Volto a viver

Ah, que tenaz é a memória! A minha não me deixa sossegada, me enche a mente de imagens, palavras, dor e amor. Sinto que volto a viver de novo o que já vivi. *

Isabel Allende. In: Inés da Minha Alma


* Para ti, Lilizinha del mio cuore! ;)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Do desejo

O desejo não combina com segurança e senhas. O desejo é não saber o que vai acontecer depois.

Fabrício Carpinejar. In: O Amor Esquece de Começar

domingo, 18 de outubro de 2009

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade


sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre importâncias

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que um pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. [...] Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

Manoel de Barros. In 'Memórias Inventadas: a segunda infância'

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Primavera


"E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor."

Cecília Meireles. In: Obra em Prosa - Volume 1
 






quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Logo de manhã

Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.

Mia Couto. In: Mar me Quer

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros. In 'Memórias Inventadas: a segunda infância'

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Devagarinho

Eu amo quando não me forço a existir. Reduzir meu corpo e o dela a um barco estreito e deixar todo o resto para o mar. O que falta fazer não me cansa. Ainda não cumpri tanta coisa, que não me apresso em pontuar. Farto-me de esperança. Vou imaginado devagarinho para não acabar.

Fabrício Carpinejar . In: O Amor Esquece de Começar

domingo, 11 de outubro de 2009

Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Metade

A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico.

Caio Fernando Abreu. Terça-Feira Gorda. In: Morangos Mofados
.

Paraíso

"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria."


Gabriel García Márquez

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Mulher

O mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras.

Henriqueta Lisboa

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bela Flor - Maria Gadú



A Flor que vem me lembrar
A Flor que é quase igual
A Flor que muito pensa
A Flor que fecha o Sol


Parece a mesma flor
Só muda o coração
Quando se unem são
A Flor que inspirou a canção


Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Que dance a linda flor girando por aí
Sonhando com amor sem dor, amor de flor
Querendo a flor que é, no sonho a flor que vem
Ser duplamente flor, encanta colore e faz bem


Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Oh flor, se tu canta essa canção
Todo o meu medo se vai pro vão
Pra longe, longe que eu não quero ir
Mas deixe seu rastro pólen, flor pra eu poder seguir


Bela Flor, pouco disse

Gêmea Flor, que cresceu no Rio

Bela Flor, pouco disse

Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Tô apaixonada pela Maria Gadú! :) O CD é ótimo, não me canso de ouvir. Letras, melodias... tudo doce, tudo lindo!

Futuro

No mais fino e doído de seu sentimento ela pensava: vou ser feliz. Na verdade o era nesse instante e se em vez de pensar 'sou feliz' procurava o futuro era porque obscuramente escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.

Clarice Lispector. In: O Lustre

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

- Cecília Meireles

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amores breves

A busca de prazer imediato e a recusa em suportar frustrações são comportamentos que não se conciliam com o delicado trabalho de uma relação amorosa, a ser construída ao longo da convivência. [...] É bem verdade que se o amor se funda no compromisso e se as pessoas cada vez mais têm medo da dor, do sofrimento, do risco de perda, o que resulta são as relações superficiais, os amores breves.

Maria Lúcia de Arruda Aranha. In: Filosofando

domingo, 4 de outubro de 2009

Cativar

— Que quer dizer "cativar"?
— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços".
— Criar laços?
Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

sábado, 3 de outubro de 2009

Do indizível

Só outra pessoa que tivesse experimentado, saberia o que ela sentia, pois de quase tudo o que importa não se sabe falar.

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Única

"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."


Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Oriente

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)


manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)


manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)


Caio Fernando Abreu. In: O essencial da década de 1970

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Viver

...

Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto.

Flora Figueiredo. In: Vida

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.


Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Somente humanos

Quero viver num mundo em que os seres sejam somente humanos, sem outros títulos a não ser estes, sem serem golpeados na cabeça com uma régua, com uma palavra, com um rótulo.

Pablo Neruda. In: Confesso que vivi

domingo, 27 de setembro de 2009

Porque estou viva


Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

Do ciúme

Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo da origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da feiura. Sabendo-se desprezível, aprensenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo. Contam que ela gania de dor nas juntas, na fazenda da raiz da serra, cada vez que meu avô ia procurar as negras.

Chico Buarque. In: Leite Derramado

sábado, 26 de setembro de 2009

Qualquer amor

Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'

Do beijo

 

"... e quando se beijam, há necessidade de coragem para a separação."


Adonias Filho. In: O Largo da Palma

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

As mudanças vêm bater na minha praia

Recomeçar é sempre bom. Ando com vontade de sacudir a poeira das experiências adquiridas e ganhar territórios novos. Esse desprendimento demanda liberdade, uma senhora regida pelo desapego. Então, corto os laços de cetim e também as cordas. Quero seguir o fluxo da vida como um rio, soltando a âncora porque chegou a hora, deixando velhos portos onde guardo realizações como troféus da existência. Sempre há caminhos novos... As mudanças vêm bater na minha praia. Devo aproveitar seu balanço para me lançar ao mar. Navegar é preciso... e navegar é uma batalha interior que depende de vontade própria. Exige vencer os desafios dos sete mares: o mar do comodismo, do apego, da resistência a mudanças, do equívoco da segurança (porque nada é seguro), do fantasma das perdas, do rompimento dos padrões, do medo do desconhecido. Na minha bagagem acumulei um excesso de responsabilidades que não me pertencem. Estou querendo viajar por minha conta e risco. Até o fim da estrada, com direito a paradas prazerosas para contar estrelas e contar histórias. Não quero deixar o melhor de mim para amanhã.

- Célia Musilli

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Bênção

Assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção.

William P. Young. In: A Cabana

Desencanto

Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.

Meu verso é sangue , volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota à gota, do coração.

E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca

- Eu faço versos como quem morre.

.
Manuel Bandeira. In: A cinza das horas
.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Certeza

"A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la."


Cecília Meireles. in: Obra em Prosa - Volume 1

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Poema XLIV

Talvez eu seja
O sonho de mim mesma
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina

Que a bem da vida
A carne se fez sombra

Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.

Talvez não seja
E ínfima , tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.

Hilda Hilst. In: Cantares de perda e predileção

domingo, 20 de setembro de 2009

Bem-me-quer

A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer.

José Saramago. In: Cadernos de Lanzarote

sábado, 19 de setembro de 2009

Espera

Juro que não sei, às vezes me parece que estou perdendo tempo, às vezes me parece que pelo contrário, não há modo mais perfeito, embora inquieto, de usar o tempo: o de te esperar.


Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Quase como uma primavera

Sentia uma alegria interna, quase como uma primavera. E a alegria crescia, expandindo-se em muitas direções, tomando conta das mãos, dos olhos, já transcendia o pensamento para se apossar do corpo inteiro.

Caio F. Abreu. A Chave e a Porta. In: O inventário do ir-remediável

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Amor e beleza

Se eu fosse a natureza, não faria o homem e a mulher à semelhança dos grandes macacos, mas à semelhança dos insetos que depois de um período de lagarta viram borboletas e na última parte da vida só pensam em amor e beleza. Eu poria a mocidade no fim da existência humana… Arranjaria que o homem e a mulher, desdobrando rutilantes asas, vivessem por um tempo no orvalho e no desejo, e morressem num beijo de êxtase.

- Anatole France

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.


Alexandre O'Neill. In: Poesias Completas

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Sim

Eu disse a uma amiga:
- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
- Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.

Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

domingo, 13 de setembro de 2009

Meu lugar

"Então me aconchego mais no corpo dele, e fico abrigada. Esse é o meu lugar no mundo."


Lya Luft. In: O silêncio dos amantes

O Lutador

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali. [...]
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto. [...]


- Carlos Drummond de Andrade

sábado, 12 de setembro de 2009

Bem mais

Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Viração

Voa um par de andorinhas, fazendo verão. E vem uma vontade de rasgar velhas cartas, velhos poemas, velhas contas recebidas. Vontade de mudar de camisa, por fora e por dentro… Vontade… para que esse pudor de certas palavras? Vontade de amar, simplesmente.

Mário Quintana. In: Sapato Florido

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pandemônio

"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas."

Chico Buarque. In: Leite Derramado

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Enfim...

Foi quando eu senti, mais uma vez, que amar não tem remédio.


Caio Fernando Abreu. Eles. In: O Ovo Apunhalado

domingo, 6 de setembro de 2009

Os paradoxos do amor

No amor se estabelece o paradoxo vínculo x liberdade, porque o amante cativa para ser amado livremente. O fascínio é gerador de poder: o poder de atração de um sobre o outro. No entanto, tal 'cativeiro' não pode ser entendido como ausência de liberdade. (...) É fácil observar isso na relação entre duas pessoas apaixonadas: a presença do outro é solicitada na sua espontaneidade, os dois escolhem livremente estar juntos. O amor imaturo, ao contrário, é exclusivista, possessivo, egoísta, dominador. Não é fácil, porém, determinar quando o poder exercido pelo amor ultrapassa os limites. Se a força do amor está na atração que um exerce sobre o outro, em que momento isso se transforma em desejo de controlar, de manipular?

Maria Lúcia de Arruda Aranha. In: Filosofando

sábado, 5 de setembro de 2009

Máquina estranha

"Que máquina estranha é o homem. Você o abastece com pão, vinho, peixe e rabanetes e o que sai são suspiros, risadas e sonhos."

- Nikos Kazantzakis

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Êxtase Puríssimo

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Fogueira Acesa

Custava-lhe esforço aquela decência tranquila, aquela face calma - nervosa, no cansaço da noite maldormida, da luta inglória contra o desejo em brasa do seu ventre. Por fora água parada, por dentro uma fogueira acesa.

Jorge Amado. In: Dona Flor e Seus Dois Maridos

domingo, 30 de agosto de 2009

Palavras do Coração

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule. Retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se pode ler."


José Saramago

sábado, 29 de agosto de 2009

O que quer uma mulher

Dificilmente um homem consegue corresponder à expectativa de uma mulher, mas vê-los tentar é comovente. Alguns mandam flores, reservam quarto em hotéizinhos secretos, surpreendem com presentes, passagens aéreas, convites inusitados. São inteligentes, charmosos, ousados, corajosos, batalhadores. Disputam nosso amor como se estivessem numa guerra, e pra quê? Tudo o que recebem em troca é uma mulher que não pára de olhar pela janela, suspirando por algo que nem ela sabe direito o que é. Perdoem esse nosso desvio cultural, rapazes. Nenhuma mulher se sente amada o suficiente.

Martha Medeiros. In: Trem-Bala

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Janela

"Não podemos mandar no vento, mas devemos deixar a janela aberta."



- Krishnamurti

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Certeza

"... com uma certeza boa & inabalável que tudo-tudo-vai-dar-pé."

Caio F. In: Cartas

domingo, 23 de agosto de 2009

Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

Zeca Baleiro - Comigo




"Você vai comigo aonde eu for

Você vai bem, se vem comigo
Serei teu amigo e teu bem
Fica bem, mais fica só comigo"

sábado, 22 de agosto de 2009

Abnegação

Nos últimos dias, isto é, ontem, a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de - digamos - abnegação. Durmo, acordo, faço coisas, leio muito. E esse vazio que ninguém dá jeito? Você guarda no bolso, olha o céu, suspira, vai a um cinema, essas coisas. E tudo, e tudo, e tudo.


Caio F. In: Cartas

Eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo


Martha Medeiros. In: Poesia Reunida

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Frágil

"Toda felicidade é uma obra prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece."


Marguerite Yourcenar. In: Memórias de Adriano

Pitty - Me Adora



"Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora..."

Não sou fã da Pitty, mas devo admitir que essa música é bem legal. Tem algo de jovem guarda... :)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Duas lágrimas

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível - que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E 'eu te amo' era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa encrustada na parte mais grossa da sola do pé. [...] Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

Clarice Lispector. Calor humano. In: A Descoberta do Mundo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A delicadeza da alegria

"E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir."


Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Delícia

"Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus."

Chico Buarque. In: Leite Derramado

Dedicado a Você




Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
todo momento, em qualquer lugar

Ah, se no desejo você fosse o amor
Durante o frio, fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar

Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui!

Ah, se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar, e eu
Completamente ia ser feliz!


[Voz: Zizi Possi / Composição: Dominguinhos e Nando Cordel]

domingo, 16 de agosto de 2009

Às vezes, não vale a pena

"Ninguém sabe o ponto certo de se doar e quanto vale a pena. É verdade… Às vezes, não vale. A gente se dá sem querer nada em troca. Por quanto tempo conseguimos encher copos de água para o outro enquanto morremos de sede? Não será essa atitude uma maneira de simplesmente alimentar o egoísmo do outro? É cômodo apenas receber…"

Débora Böttcher

sábado, 15 de agosto de 2009

Profissão de Febre

quando chove, eu chovo,
faz sol, eu faço,
de noite, anoiteço,
tem deus, eu rezo,
não tem, esqueço,
chove de novo, de novo, chovo,
assobio no vento, daqui me vejo,
lá vou eu, gesto no movimento.


[Paulo Leminski]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Em busca do prazer

"... pois queria que as coisas acontecessem e não que ela as provocasse. Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sozinhos. E era tão trágico: bastava olhar numa boate, à meia-luz, os outros: era a busca do prazer que não vinha sozinho e de si mesmo."

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas.


[Cecília Meireles]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Arte e cotidiano

"... terror, piedade, dor, sofrimento, absurdo, tudo isso, que é o cotidiano do mundo, ao se tornar matéria de uma obra, adquire coerência e beleza."

Jean-Pierre Vernant

Que seja doce

"[...] Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. [...]"

Caio Fernando Abreu. In: Os dragões não conhecem o paraíso

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Da amizade

"Não há nada que mais sirva para fazer nascer e formar a amizade, e mesmo a intimidade, do que seja o riso e as lágrimas. Aqueles que riram, e principalmente aqueles que uma vez choraram juntos, têm muita facilidade de fazerem-se amigos."

Manuel Antônio de Almeida. In: Memórias de Um Sargento de Milícias

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Da esperança

"Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."

José Saramago. In: Ensaio sobre a Cegueira

domingo, 9 de agosto de 2009

Ela não queria que ele a visse chorar...

"[...] quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.
— Adeus, disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
— Adeus, repetiu ele.
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
— Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.
— É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
— Mas o vento...
Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor. [...]
Em seguida acrescentou:
— Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa..."


Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E as amizades…
O vento varria as mulheres…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


[Manuel Bandeira. In: Lira dos Cinquent’anos]

sábado, 8 de agosto de 2009

Sempre

"Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar."

Caio Fernando Abreu. Paisagens em movimento. In: Pequenas Epifanias

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Os Pais - Gilberto Gil



Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais


Por isso não acham nada demais
Na semi-nudez de todos os carnavais
E na beleza estonteante e tão natural
Da moça que expressa no andar provocante
A força ondulante da sua moral
Amor flutuante acima do bem e do mal


Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais


Por isso não podem fugir do problema
Maior liberdade ou maior repressão
Dilema central dessa tal de civilização
Aqui no Brasil sob o sol de Ipanema
Na tela do cinema transcendental
Mantem-se a moral por um fio
Um fio dental!


[Composição: Gilberto Gil / Jorge Mautner]


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Além das aparências

"O ser sempre transcende a aparência. Assim que você começa a descobrir o ser que há por trás de um rosto muito bonito ou muito feio, de acordo com seus conceitos e preconceitos, as aparências superficiais somem até simplesmente não importarem mais."


William P. Young. In: A Cabana

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.'


[Cecília Meireles]

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Inimigos Públicos

Parece estranho, mas personagens fora-da-lei costumam provocar fascínio nos fãs de cinema. É o que fica comprovado em ‘Inimigos Públicos’. O filme conta um pedaço da história de John Dillinger (Johnny Depp), um dos maiores assaltantes a banco dos EUA. Depp – numa excelente atuação - cria um Dillinger multifacetado. O criminoso que realiza grandes assaltos, com habilidades geniais de enganar a polícia é, ao mesmo tempo, um bon-vivant com porte atlético, carisma, um homem fascinado pela beleza da vida e de seu amor, a bela Billie Frechette (Marion Cotillard). Trata-se da romantização de um criminoso implacável, que brinca com a polícia, mas que é capaz de assaltar um banco sem levar um centavo dos clientes.

Para tentar detê-lo, a polícia conta com o agente Melvin Purvis (Cristian Bale), que tem bem claro o seu objetivo: pegar a todo custo o famoso bandido.

Embora seja este um tema fartamente abordado pelo cinema norte-americano, Mann cria uma visão fora do convencional. As posições das câmeras e o jogo de imagens nas cenas de ação ficaram bastante realistas. O som alto dos tiros é explorado à exaustão, o que incomoda um pouco, mas com a câmera na mão, o diretor dá ao expectador a sensação de fazer parte da cena. O filme apresenta a união entre ótimas atuações e um visual excelente. Através de trajes, carros e ruas típicas da época consegue recriar o ambiente pós-crise de 1929.

A bela trilha sonora ajuda a compor o clima envolvente.

(‘Inimigos Públicos’ - Título original: Public Enemies - EUA - 2009 - Direção: Michael Mann - Com Johnny Depp, Cristian Bale, Marion Cotillard)


* Trata-se de uma pseudo-crítica, obviamente sem a qualidade de uma crítica profissional e especializada.