Sempre vivi de amor. Quando eu era criança,
Namorei uma estrela, adorei uma rosa...
Porém, se sempre amei, nunca tive esperança,
Nunca fiz a menor confidência amorosa...
.
Não sei porque motivo o coração não cansa
Da existência tornar sempre fantasiosa...
O verdadeiro amor é o que jamais se alcança,
Só se ama, a vida inteira, a ilusão caprichosa...
.
E é porque sei que tu não poderás ser minha,
E a tua perfeição, nem de longe, adivinha
o culto, a hiperdúlia em que vivo a envolvê-la,
.
Que ando, maravilhado, ao sabor do destino,Hoje, como no tempo em que, poeta menino,Namorava uma rosa, adorava uma estrela...
..Martins Fontes.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
A canção cor de rosa
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Incompletude
A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou – eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que compra o pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora, que aponta o lápis, que vê a uva etc.etc.
Perdoai.
Mas preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas...Manoel de Barros. In: Retrato do artista quando coisa.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Ilusão
Procelária
É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala
.
As suas asas empresta à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente
.
Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento
.
Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo....Sophia de Mello Breyner Andresen.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Inevitável
Soneto de véspera
Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?
.
Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?
.
Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida
.
Imagem tua que eu compus serenaAtenta ao meu apelo e à minha penaE que quisera nunca mais perdida...
..Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
O tempo passou
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
O espetáculo da vida
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.
.
João Cabral de Melo Neto. Morte e Vida Severina. In: Duas Águas
.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
Duelo de vida
.
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Epigrama nº 8
Encostei-me a ti,sabendo que eras somente onda.Sabendo bem que eras nuvem,depus a minha vida em ti..Como sabia bem tudo isso,e dei-me ao teu destino, frágil,Fiquei sem poder chorar quando caí.
..Cecília Meireles.
sábado, 12 de dezembro de 2009
As lembranças desobedecem
Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.
.
Mia Couto. In: Terra Sonâmbula
.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
O amor bate na aorta
[...]
Amor é bicho instruído.
Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar.
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca
às vezes sara amanhã.
Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender.....Carlos Drummond de Andrade. In: Sentimento do Mundo.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Do efêmero
.
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
A estrada do amor...
Rumo ao sumo
Disfarça, tem gente olhando.
Uns olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros olham de banda,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.
Outros olham para baixo
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham pra dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.
..Paulo Leminski.
domingo, 6 de dezembro de 2009
Encontro
sábado, 5 de dezembro de 2009
Amor Violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,faço dele cataplasmae ponho sobre a ferida...Adélia Prado.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
Obrigação
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Entrevista
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
4º Motivo da Rosa
Não te aflijas com a pétala que voa:também é ser, deixar de ser assim.Rosas verá, só de cinzas franzida,mortas, intactas pelo teu jardim.Eu deixo aroma até nos meus espinhosao longe, o vento vai falando de mim.E por perder-me é que vão me lembrando,por desfolhar-me é que não tenho fim...Cecília Meireles.
E o ar...
.
domingo, 29 de novembro de 2009
Mundo Grande
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,por isso freqüento os jornais, me exponho
cruamente nas livrarias:
preciso de todos...
Carlos Drummond de Andrade. In: Antologia Poética.
sábado, 28 de novembro de 2009
Se não tomo cuidado...
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Sedução
A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela..Adélia Prado.
Lágrima querendo rolar
"... vento entrando, remexendo nos cabelos, no rosto, jeito de lágrima querendo rolar."
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Amor começa tarde
Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.
É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe
valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.
Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.
.Carlos Drummond de Andrade. In: As Impurezas do Branco..
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Sem palavras
domingo, 22 de novembro de 2009
Divinare
A ciência pode classificar e nomear os órgãos de um
Sabiá
Mas não pode medir seus encantos.
A ciência não pode calcular quantos cavalos de força
Existem
Nos encantos de um sabiá.
Quem acumula muita informaçãoperde o condão de adivinhar: divinare.
Os sabiás divinam.
..
Manoel de Barros. In: Livro sobre nada.
Só tenho medo...
— Que é que você está fazendo, perguntou tranqüila.
— Podando a roseira brava.
— A roseira não assusta você? perguntou suave. (...)
— Esta não: esta tem espinhos.
Vitória franziu as sobrancelhas:
— E que diferença faz se tem espinhos?
— É que só tenho medo, disse Ermelinda com certa voluptuosidade, quando uma flor é bonita demais: sem espinhos, toda delicada demais, e toda bonita demais.
.
sábado, 21 de novembro de 2009
Além Alma
Meu coração lá de longe
faz sinal que quer voltar.
Já no peito trago em bronze:
NÃO TEM VAGA NEM LUGAR.
Pra que me serve um negócio
que não cessa de bater?
Mais me parece um relógio
que acaba de enlouquecer.
Pra que é que eu quero quem chora,
se estou tão bem assim,
e o vazio que vai lá fora
cai macio dentro de mim?
.Paulo Leminski. In: Distraídos Venceremos.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
O milagre
.
.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Trecho
Quem foi, perguntou o Celo
Que me desobedeceu?
Quem foi que entrou no meu reino
E em meu ouro remexeu?
Quem foi que pulou meu muro
E minhas rosas colheu?
Quem foi, perguntou o Celo
E a Flauta falou: Fui eu.
Mas quem foi, a Flauta disse
Que no meu quarto surgiu?
Quem foi que me deu um beijo
E em minha cama dormiu?
Quem foi que me fez perdida
E que me desiludiu?
Quem foi, perguntou a Flauta
E o velho Celo sorriu.
.Vinicius de Moraes. In: Poemas, sonetos e baladas.
Muito tempo
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
domingo, 15 de novembro de 2009
Feiticeiros das palavras
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
De novo
[Crescimento - Ana Jácomo]
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Anoitecendo
"... o sol tão claro lá fora,o sol tão claro, Esmeralda,e em minhalma - anoitecendo.".Manuel Bandeira. In: Antologia Poética.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Só por preguiça
.
Na Fazenda
As plantas
me ensinavam de chão.
Fui aprendendo com o corpo.
Hoje sofro de gorjeios
nos lugares puídos de mim.
Sofro de árvores.Manoel de Barros. In: Compêndio para uso dos pássaros.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Porque perdi a minha dor...
sábado, 7 de novembro de 2009
Mentira
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Segredos pequenos
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Exausto
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.Adélia Prado. In: Bagagem.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Uma mulher que dança
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Peraltagens
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de interromper o vôo de um pássaro
botando ponto no final da frase.Manoel de Barros. In: Exercícios de ser criança
domingo, 1 de novembro de 2009
Para que eu não te doa demais
sábado, 31 de outubro de 2009
Flor de Ir Embora - Maria Bethânia
Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta
Do que a gente chora.
Rompe a terra, decidida,
Flor do meu desejo
De correr o mundo afora.
Flor de sentimento
Amadurecendo, aos poucos,
Minha partida.
Quando a flor abrir inteira.
Muda a minha vida.
Esperei o tempo certo.
E lá vou eu, e lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
E agora, esse mundo é meu.[Composição: Fátima Guedes]
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Me socorria a lembrança
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Na minha alma...
Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!Mário Quintana. In: Poesia Completa
terça-feira, 27 de outubro de 2009
Distraindo a morte
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Verdade
A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil
E os meios perfis não coincidiam
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar. Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo
domingo, 25 de outubro de 2009
Com o céu em nós
sábado, 24 de outubro de 2009
A Descoberta
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Por amor
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Languidez
...
E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…Florbela Espanca. In: Livro de Mágoas
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Volto a viver
* Para ti, Lilizinha del mio cuore! ;)
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Do desejo
domingo, 18 de outubro de 2009
As sem-razões do amor
Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 17 de outubro de 2009
Sobre importâncias
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Primavera
"E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor."
Cecília Meireles. In: Obra em Prosa - Volume 1
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Logo de manhã
terça-feira, 13 de outubro de 2009
O apanhador de desperdícios
Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.Manoel de Barros. In 'Memórias Inventadas: a segunda infância'
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Devagarinho
domingo, 11 de outubro de 2009
Sou um evadido
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.Fernando Pessoa
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
A Mulher
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Bela Flor - Maria Gadú
A Flor que vem me lembrar
A Flor que é quase igual
A Flor que muito pensa
A Flor que fecha o Sol
Parece a mesma flor
Só muda o coração
Quando se unem são
A Flor que inspirou a canção
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Que dance a linda flor girando por aí
Sonhando com amor sem dor, amor de flor
Querendo a flor que é, no sonho a flor que vem
Ser duplamente flor, encanta colore e faz bem
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Oh flor, se tu canta essa canção
Todo o meu medo se vai pro vão
Pra longe, longe que eu não quero ir
Mas deixe seu rastro pólen, flor pra eu poder seguir
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Tô apaixonada pela Maria Gadú! :) O CD é ótimo, não me canso de ouvir. Letras, melodias... tudo doce, tudo lindo!
Futuro
terça-feira, 6 de outubro de 2009
Serenata
Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.
Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.
Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.- Cecília Meireles
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Amores breves
domingo, 4 de outubro de 2009
Cativar
— Que quer dizer "cativar"?
— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços".
— Criar laços?
Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe
sábado, 3 de outubro de 2009
Do indizível
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Única
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Oriente
manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)
manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)
manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)Caio Fernando Abreu. In: O essencial da década de 1970
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Viver
Pois que viver
não é entrar no mar onde dá pé,
mas mergulhar com fé no maremoto.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Hipótese
E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.
Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Somente humanos
domingo, 27 de setembro de 2009
Do ciúme
Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo da origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da feiura. Sabendo-se desprezível, aprensenta-se com nomes supostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo. Contam que ela gania de dor nas juntas, na fazenda da raiz da serra, cada vez que meu avô ia procurar as negras.Chico Buarque. In: Leite Derramado
sábado, 26 de setembro de 2009
Qualquer amor
Do beijo
"... e quando se beijam, há necessidade de coragem para a separação."
Adonias Filho. In: O Largo da Palma
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
As mudanças vêm bater na minha praia
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
Bênção
Desencanto
Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha meu livro, se por agora
Não tens motivo algum de pranto.
Meu verso é sangue , volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota à gota, do coração.
E nesses versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre
Deixando um acre sabor na boca
- Eu faço versos como quem morre..Manuel Bandeira. In: A cinza das horas.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Certeza
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Poema XLIV
Talvez eu seja
O sonho de mim mesma
Criatura-ninguém
Espelhismo de outra
Tão em sigilo e extrema
Tão sem medida
Densa e clandestina
Que a bem da vida
A carne se fez sombra
Talvez eu seja tu mesmo
Tua soberba e afronta.
E o retrato
De muitas inalcançáveis
Coisas mortas.
Talvez não seja
E ínfima , tangente
Aspire indefinida
Um infinito de sonhos
E de vidas.Hilda Hilst. In: Cantares de perda e predileção
domingo, 20 de setembro de 2009
Bem-me-quer
A vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer.
José Saramago. In: Cadernos de Lanzarote
sábado, 19 de setembro de 2009
Espera
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Quase como uma primavera
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Amor e beleza
Se eu fosse a natureza, não faria o homem e a mulher à semelhança dos grandes macacos, mas à semelhança dos insetos que depois de um período de lagarta viram borboletas e na última parte da vida só pensam em amor e beleza. Eu poria a mocidade no fim da existência humana… Arranjaria que o homem e a mulher, desdobrando rutilantes asas, vivessem por um tempo no orvalho e no desejo, e morressem num beijo de êxtase.quarta-feira, 16 de setembro de 2009
Há palavras que nos beijam
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.Alexandre O'Neill. In: Poesias Completas
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Sim
- A vida sempre superexigiu de mim.
Ela disse:
- Mas lembre-se de que você também superexige da vida.
Sim.
domingo, 13 de setembro de 2009
Meu lugar
O Lutador
Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali. [...]
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto. [...]- Carlos Drummond de Andrade
sábado, 12 de setembro de 2009
Bem mais
Mas ciúme é mais custoso de se sopitar do que o amor.João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Viração
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Pandemônio
"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas."Chico Buarque. In: Leite Derramado
segunda-feira, 7 de setembro de 2009
Enfim...
domingo, 6 de setembro de 2009
Os paradoxos do amor
sábado, 5 de setembro de 2009
Máquina estranha
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Êxtase Puríssimo
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.Clarice Lispector. In: Felicidade Clandestina
terça-feira, 1 de setembro de 2009
Fogueira Acesa
Jorge Amado. In: Dona Flor e Seus Dois Maridos
domingo, 30 de agosto de 2009
Palavras do Coração
"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule. Retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se pode ler."José Saramago
sábado, 29 de agosto de 2009
O que quer uma mulher
terça-feira, 25 de agosto de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
Saudade
Zeca Baleiro - Comigo
"Você vai comigo aonde eu for
Você vai bem, se vem comigo
Serei teu amigo e teu bem
Fica bem, mais fica só comigo"
sábado, 22 de agosto de 2009
Abnegação
Eu tinha por ti amor
eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempoMartha Medeiros. In: Poesia Reunida
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Frágil
"Toda felicidade é uma obra prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece."
Pitty - Me Adora
Que você me adora..."
Não sou fã da Pitty, mas devo admitir que essa música é bem legal. Tem algo de jovem guarda... :)
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Duas lágrimas
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
A delicadeza da alegria
"E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir."Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Delícia
Dedicado a Você
Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
todo momento, em qualquer lugar
Ah, se no desejo você fosse o amor
Durante o frio, fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar
Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui!
Ah, se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar, e eu
Completamente ia ser feliz!
[Voz: Zizi Possi / Composição: Dominguinhos e Nando Cordel]
domingo, 16 de agosto de 2009
Às vezes, não vale a pena
sábado, 15 de agosto de 2009
Profissão de Febre
quando chove, eu chovo,
faz sol, eu faço,
de noite, anoiteço,
tem deus, eu rezo,
não tem, esqueço,
chove de novo, de novo, chovo,
assobio no vento, daqui me vejo,
lá vou eu, gesto no movimento.
[Paulo Leminski]
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Em busca do prazer
Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama
Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.
Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.
Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.
Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:
Agora és livre, se ainda recordas.
[Cecília Meireles]
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Arte e cotidiano
Que seja doce
"[...] Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. [...]"Caio Fernando Abreu. In: Os dragões não conhecem o paraíso
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Da amizade
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Da esperança
domingo, 9 de agosto de 2009
Ela não queria que ele a visse chorar...
— Adeus, disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
— Adeus, repetiu ele.
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
— Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.
— É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
— Mas o vento...
Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor. [...]
Em seguida acrescentou:
— Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa..."
Canção do vento e da minha vida
O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
E as amizades…
O vento varria as mulheres…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.[Manuel Bandeira. In: Lira dos Cinquent’anos]
sábado, 8 de agosto de 2009
Sempre
Caio Fernando Abreu. Paisagens em movimento. In: Pequenas Epifanias
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Os Pais - Gilberto Gil
Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais
Por isso não acham nada demais
Na semi-nudez de todos os carnavais
E na beleza estonteante e tão natural
Da moça que expressa no andar provocante
A força ondulante da sua moral
Amor flutuante acima do bem e do mal
Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais
Por isso não podem fugir do problema
Maior liberdade ou maior repressão
Dilema central dessa tal de civilização
Aqui no Brasil sob o sol de Ipanema
Na tela do cinema transcendental
Mantem-se a moral por um fio
Um fio dental!
[Composição: Gilberto Gil / Jorge Mautner]
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Além das aparências
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Motivo
Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.'
[Cecília Meireles]
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Inimigos Públicos
Parece estranho, mas personagens fora-da-lei costumam provocar fascínio nos fãs de cinema. É o que fica comprovado em ‘Inimigos Públicos’. O filme conta um pedaço da história de John Dillinger (Johnny Depp), um dos maiores assaltantes a banco dos EUA. Depp – numa excelente atuação - cria um Dillinger multifacetado. O criminoso que realiza grandes assaltos, com habilidades geniais de enganar a polícia é, ao mesmo tempo, um bon-vivant com porte atlético, carisma, um homem fascinado pela beleza da vida e de seu amor, a bela Billie Frechette (Marion Cotillard). Trata-se da romantização de um criminoso implacável, que brinca com a polícia, mas que é capaz de assaltar um banco sem levar um centavo dos clientes.
Para tentar detê-lo, a polícia conta com o agente Melvin Purvis (Cristian Bale), que tem bem claro o seu objetivo: pegar a todo custo o famoso bandido.
Embora seja este um tema fartamente abordado pelo cinema norte-americano, Mann cria uma visão fora do convencional. As posições das câmeras e o jogo de imagens nas cenas de ação ficaram bastante realistas. O som alto dos tiros é explorado à exaustão, o que incomoda um pouco, mas com a câmera na mão, o diretor dá ao expectador a sensação de fazer parte da cena. O filme apresenta a união entre ótimas atuações e um visual excelente. Através de trajes, carros e ruas típicas da época consegue recriar o ambiente pós-crise de 1929.
A bela trilha sonora ajuda a compor o clima envolvente.
(‘Inimigos Públicos’ - Título original: Public Enemies - EUA - 2009 - Direção: Michael Mann - Com Johnny Depp, Cristian Bale, Marion Cotillard)
* Trata-se de uma pseudo-crítica, obviamente sem a qualidade de uma crítica profissional e especializada.















