domingo, 29 de agosto de 2010

De passagem

No meio dessas turbulências emocionais, uma sensação de estar aqui em férias, de estar de passagem.

Caio F. Abreu. In: Cartas

Sou Eu

(...)

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

(...)

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

sábado, 28 de agosto de 2010

Matéria de poesia

A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sugestão

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

[...]

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.


Thiago de Mello

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eternidade

'A alegria', diz Nietzsche, 'quer eternidade, quer profunda eternidade'. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento.

Fernando Pessoa. In: Textos de Crítica e de Intervenção

Amor mudo

Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!


Canção japonesa (tradução de Helberto Helder)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Urgência

Nunca soube em que momento a diversão se converteu em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo.
[...]
Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia.

Gabriel García Márquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera


Hoje acordei com o coração cheio de amor... transbordando! E assim permaneci até o exato momento. =) Assim sendo, nada mais justo que postar algo do García Márquez. Ainda mais desse livro, que é lindíssimo! ;)


domingo, 22 de agosto de 2010

Metade Pássaro


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes. In: O visionário

sábado, 21 de agosto de 2010

Dos bons conselhos


Tenta te orientar pelo calendário das flores. Esquece, por um momento, os números, a semana, o dia do teu nascimento. Se conseguires ser leve, aproveita, enche tuas malas de sonho e toma carona no vento.


Fernando Campanella

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca

Do inexplicável amor


Oh Deus, como estou sendo feliz. O que estraga a felicidade é o medo. Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa.

Clarice Lispector. In: Água Viva

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sintonia para pressa e presságio


Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.

Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Paulo Leminski. In: La vie en close

Magnólias

Era todo arborizado com magnólias. As flores das magnólias são quase insignificantes. Mas o perfume é maravilhoso. Quem respira o perfume de uma magnólia tem a alma tocada pelo divino.


Rubem Alves. Em defesa das árvores. In: O Amor que acende a Lua

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O olhar para trás

(...)

E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...


Vinícius de Moraes. In: Antologia Poética

Para atravessar agosto

Para atravessar agosto, ter um amor seria importante. Mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.

Caio Fernando Abreu. In: Pequenas Epifanias

domingo, 15 de agosto de 2010

Soneto


Aceitarás o amor como eu o encaro?
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.


Mário de Andrade. In: Poesias completas


* Este é da série "se alguém me fizer um poema assim, eu caso no ato!" :)



Poesia se aprende na escola?

A poesia é um gênero mais sofisticado que a prosa, que requer um entendimento mais elaborado do leitor. Você acredita que uma das razões de se ler pouca poesia seja pelo fato de ser pouco ministrada na escola? Poesia se aprende na escola?

Acho em princípio é possível ensinar a ler poesia na escola. A maior parte das pessoas é analfabeta, em relação à leitura de poesia. A leitura de um poema, mesmo quando efetuada em voz baixa ou interior, não se compara às demais experiências de leitura. Não se lê um poema como se lê uma notícia de jornal, uma bula de remédio, uma carta, um ensaio. Lido desses modos, um poema é uma chatice. A leitura de um poema, mesmo em voz baixa, mesmo “para dentro”, deve levar em conta a sua sonoridade. E ela deve ser progressiva e regressiva, prestando atenção a todos os elementos semânticos e sintáticos, formais e materiais, descritivos e alusivos de que o poema é composto. O bom leitor permite que o bom poema o transporte para uma temporalidade diferente da temporalidade cotidiana. Os professores devem ser preparados para ensinar essas coisas aos alunos.

Antônio Cícero. In: Entrevista à Revista E

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Poema XLIV


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda. In: Cem sonetos de amor

domingo, 8 de agosto de 2010

Plenitude


Plenitude é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada.


Ana Jácomo

sábado, 7 de agosto de 2010

Dos quereres


"Eu quero o mapa das nuvens

e um barco bem vagaroso."


Mário Quintana

O esplendor da linguagem

Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.


Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Os três reis do Oriente

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Venturosa de sonhar-te


Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)
-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.
-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!


Cecília Meireles

Inadiável


Quero que daqui pra frente a vida seja hoje.



Caio F. Abreu. In: Cartas

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Realista

"... dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor."

Clarice Lispector. Uma História de tanto amor. In: Felicidade Clandestina