domingo, 30 de agosto de 2009

Palavras do Coração

"As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule. Retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se pode ler."


José Saramago

sábado, 29 de agosto de 2009

O que quer uma mulher

Dificilmente um homem consegue corresponder à expectativa de uma mulher, mas vê-los tentar é comovente. Alguns mandam flores, reservam quarto em hotéizinhos secretos, surpreendem com presentes, passagens aéreas, convites inusitados. São inteligentes, charmosos, ousados, corajosos, batalhadores. Disputam nosso amor como se estivessem numa guerra, e pra quê? Tudo o que recebem em troca é uma mulher que não pára de olhar pela janela, suspirando por algo que nem ela sabe direito o que é. Perdoem esse nosso desvio cultural, rapazes. Nenhuma mulher se sente amada o suficiente.

Martha Medeiros. In: Trem-Bala

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Janela

"Não podemos mandar no vento, mas devemos deixar a janela aberta."



- Krishnamurti

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Certeza

"... com uma certeza boa & inabalável que tudo-tudo-vai-dar-pé."

Caio F. In: Cartas

domingo, 23 de agosto de 2009

Saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

Zeca Baleiro - Comigo




"Você vai comigo aonde eu for

Você vai bem, se vem comigo
Serei teu amigo e teu bem
Fica bem, mais fica só comigo"

sábado, 22 de agosto de 2009

Abnegação

Nos últimos dias, isto é, ontem, a tristeza começou a ceder terreno a uma espécie de - digamos - abnegação. Durmo, acordo, faço coisas, leio muito. E esse vazio que ninguém dá jeito? Você guarda no bolso, olha o céu, suspira, vai a um cinema, essas coisas. E tudo, e tudo, e tudo.


Caio F. In: Cartas

Eu tinha por ti amor

eu tinha por ti amor
e ainda não havia lido
nem escrito nem vivido nada igual
eu tinha por ti um sentimento
que não havia sido previsto, intuído
não havia sinal de reconhecimento
por isso ainda deixo a porta aberta
não entra você, entra o vento
todo amor desconhecido
precisa se entender com o tempo


Martha Medeiros. In: Poesia Reunida

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Frágil

"Toda felicidade é uma obra prima: o menor erro a deturpa, a menor hesitação a altera, a menor deselegância a estraga, a menor tolice a embrutece."


Marguerite Yourcenar. In: Memórias de Adriano

Pitty - Me Adora



"Não espere eu ir embora pra perceber
Que você me adora..."

Não sou fã da Pitty, mas devo admitir que essa música é bem legal. Tem algo de jovem guarda... :)

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Duas lágrimas

Ainda era cedo para acender as lâmpadas, o que pelo menos precipitaria uma noite. A noite que não vinha, não vinha, não vinha, que era impossível. E o seu amor que agora era impossível - que era seco como a febre de quem não transpira, era amor sem ópio nem morfina. E 'eu te amo' era uma farpa que não se podia tirar com uma pinça. Farpa encrustada na parte mais grossa da sola do pé. [...] Ela só percebe que agora alguma coisa vai mudar, que choverá ou cairá a noite. Mas não suporta a espera de uma passagem, e antes da chuva cair o diamante dos olhos se liquefaz em duas lágrimas. E enfim o céu se abranda.

Clarice Lispector. Calor humano. In: A Descoberta do Mundo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

A delicadeza da alegria

"E que eu não esqueça, nessa minha fina luta travada, que o mais difícil de se entender é a alegria. Que eu não esqueça que a subida mais escarpada, e mais à mercê dos ventos, é sorrir de alegria. E que por isso e aquilo é que menos tem cabido em mim: a delicadeza infinita da alegria. Pois quando me demoro demais nela e procuro me apoderar de sua levíssima vastidão, lágrimas de cansaço me vêm aos olhos: sou fraca diante da beleza do que existe e do que vai existir."


Clarice Lispector. In: A Descoberta do Mundo

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Delícia

"Também acho uma delícia quando você esquece os olhos em cima dos meus."

Chico Buarque. In: Leite Derramado

Dedicado a Você




Vem, se eu tiver você no meu prazer
Se eu pudesse ficar com você
todo momento, em qualquer lugar

Ah, se no desejo você fosse o amor
Durante o frio, fosse o calor
Na minha lua, você fosse o mar

Vem, meu coração se enfeitou de céu
Se embebedou na luz do teu olhar
Queria tanto ter você aqui!

Ah, se teu amor fosse igual ao meu
Minha paixão ia brilhar, e eu
Completamente ia ser feliz!


[Voz: Zizi Possi / Composição: Dominguinhos e Nando Cordel]

domingo, 16 de agosto de 2009

Às vezes, não vale a pena

"Ninguém sabe o ponto certo de se doar e quanto vale a pena. É verdade… Às vezes, não vale. A gente se dá sem querer nada em troca. Por quanto tempo conseguimos encher copos de água para o outro enquanto morremos de sede? Não será essa atitude uma maneira de simplesmente alimentar o egoísmo do outro? É cômodo apenas receber…"

Débora Böttcher

sábado, 15 de agosto de 2009

Profissão de Febre

quando chove, eu chovo,
faz sol, eu faço,
de noite, anoiteço,
tem deus, eu rezo,
não tem, esqueço,
chove de novo, de novo, chovo,
assobio no vento, daqui me vejo,
lá vou eu, gesto no movimento.


[Paulo Leminski]

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Em busca do prazer

"... pois queria que as coisas acontecessem e não que ela as provocasse. Ela conhecia o mundo dos que estão tão sofridamente à cata de prazeres e que não sabiam esperar que eles viessem sozinhos. E era tão trágico: bastava olhar numa boate, à meia-luz, os outros: era a busca do prazer que não vinha sozinho e de si mesmo."

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama

Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas.


[Cecília Meireles]

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Arte e cotidiano

"... terror, piedade, dor, sofrimento, absurdo, tudo isso, que é o cotidiano do mundo, ao se tornar matéria de uma obra, adquire coerência e beleza."

Jean-Pierre Vernant

Que seja doce

"[...] Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. [...]"

Caio Fernando Abreu. In: Os dragões não conhecem o paraíso

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Da amizade

"Não há nada que mais sirva para fazer nascer e formar a amizade, e mesmo a intimidade, do que seja o riso e as lágrimas. Aqueles que riram, e principalmente aqueles que uma vez choraram juntos, têm muita facilidade de fazerem-se amigos."

Manuel Antônio de Almeida. In: Memórias de Um Sargento de Milícias

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Da esperança

"Há esperanças que é loucura ter. Pois eu digo-te que se não fossem essas já eu teria desistido da vida."

José Saramago. In: Ensaio sobre a Cegueira

domingo, 9 de agosto de 2009

Ela não queria que ele a visse chorar...

"[...] quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.
— Adeus, disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
— Adeus, repetiu ele.
A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
— Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.
— É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
— Mas o vento...
Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor. [...]
Em seguida acrescentou:
— Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa..."


Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

Canção do vento e da minha vida

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E as amizades…
O vento varria as mulheres…
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos…
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.


[Manuel Bandeira. In: Lira dos Cinquent’anos]

sábado, 8 de agosto de 2009

Sempre

"Coisas belas, coisas feias: o bom é que passam, passam, passam. Deixa passar."

Caio Fernando Abreu. Paisagens em movimento. In: Pequenas Epifanias

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Os Pais - Gilberto Gil



Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais


Por isso não acham nada demais
Na semi-nudez de todos os carnavais
E na beleza estonteante e tão natural
Da moça que expressa no andar provocante
A força ondulante da sua moral
Amor flutuante acima do bem e do mal


Os pais, os pais
Estão preocupados demais
Com medo que seus filhos caiam nas mãos dos narco-marginais
Ou então na mão dos molestadores sexuais
E no entanto ao mesmo tempo são a favor das liberdades atuais


Por isso não podem fugir do problema
Maior liberdade ou maior repressão
Dilema central dessa tal de civilização
Aqui no Brasil sob o sol de Ipanema
Na tela do cinema transcendental
Mantem-se a moral por um fio
Um fio dental!


[Composição: Gilberto Gil / Jorge Mautner]


quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Além das aparências

"O ser sempre transcende a aparência. Assim que você começa a descobrir o ser que há por trás de um rosto muito bonito ou muito feio, de acordo com seus conceitos e preconceitos, as aparências superficiais somem até simplesmente não importarem mais."


William P. Young. In: A Cabana

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.'


[Cecília Meireles]

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Inimigos Públicos

Parece estranho, mas personagens fora-da-lei costumam provocar fascínio nos fãs de cinema. É o que fica comprovado em ‘Inimigos Públicos’. O filme conta um pedaço da história de John Dillinger (Johnny Depp), um dos maiores assaltantes a banco dos EUA. Depp – numa excelente atuação - cria um Dillinger multifacetado. O criminoso que realiza grandes assaltos, com habilidades geniais de enganar a polícia é, ao mesmo tempo, um bon-vivant com porte atlético, carisma, um homem fascinado pela beleza da vida e de seu amor, a bela Billie Frechette (Marion Cotillard). Trata-se da romantização de um criminoso implacável, que brinca com a polícia, mas que é capaz de assaltar um banco sem levar um centavo dos clientes.

Para tentar detê-lo, a polícia conta com o agente Melvin Purvis (Cristian Bale), que tem bem claro o seu objetivo: pegar a todo custo o famoso bandido.

Embora seja este um tema fartamente abordado pelo cinema norte-americano, Mann cria uma visão fora do convencional. As posições das câmeras e o jogo de imagens nas cenas de ação ficaram bastante realistas. O som alto dos tiros é explorado à exaustão, o que incomoda um pouco, mas com a câmera na mão, o diretor dá ao expectador a sensação de fazer parte da cena. O filme apresenta a união entre ótimas atuações e um visual excelente. Através de trajes, carros e ruas típicas da época consegue recriar o ambiente pós-crise de 1929.

A bela trilha sonora ajuda a compor o clima envolvente.

(‘Inimigos Públicos’ - Título original: Public Enemies - EUA - 2009 - Direção: Michael Mann - Com Johnny Depp, Cristian Bale, Marion Cotillard)


* Trata-se de uma pseudo-crítica, obviamente sem a qualidade de uma crítica profissional e especializada.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Preciso tanto...

"Para que te servem essas mãos que ardem e prendem? Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto..."


Clarice Lispector. Os desastres de Sofia. In: A Legião Estrangeira

domingo, 2 de agosto de 2009

A gente perde ou esquece...

"[...] Não vou perguntar por que você voltou, acho que nem mesmo você sabe, e se eu perguntasse você se sentiria obrigado a responder, e respondendo daria uma explicação que nem mesmo você sabe qual é. Não há explicação, compreende? Eu também não queria perguntar, pensei que só no silêncio fosse possível construir uma compreensão, mas não é, sei que não é, você também sabe, pelo menos por enquanto, talvez não se tenha ainda atingido o ponto em que um silêncio basta? É preciso encher o vazio de palavras, ainda que seja tudo incompreensão? Só vou perguntar por que você se foi, se sabia que haveria uma distância, e que na distância a gente perde ou esquece tudo aquilo que construiu junto. E esquece sabendo que está esquecendo. [...]"


Caio Fernando Abreu. Apenas uma maçã. In: O inventário do ir-remediável

Bandeira - Zeca Baleiro




Uma das músicas mais bonitas do Zeca.

sábado, 1 de agosto de 2009

E o essencial?

[...] As pessoas grandes adoram os números. Quando a gente lhes fala de um novo amigo, elas jamais se informam do essencial. Não perguntam nunca: “Qual é o som da sua voz”? Quais os brinquedos que prefere? Será que ele coleciona borboletas? “Mas perguntam”: “Qual é sua idade? Quantos irmãos tem ele? Quanto pesa? Quanto ganha seu pai?” Somente então é que elas julgam conhecê-lo. Se dizemos às pessoas grandes: "Vi uma bela casa de tijolos cor-de-rosa, gerânios na janela, pombas no telhado...” elas não conseguem, de modo nenhum, fazer uma ideia da casa. É preciso dizer-lhes: “Vi uma casa de seiscentos contos”. Então elas exclamam: “Que beleza! [...]


Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe