segunda-feira, 28 de março de 2011

Das obras-primas

As obras-primas não são frutos isolados e solitários; são o resultado de muitos anos de pensar em conjunto, de um pensar através do corpo das pessoas, de modo que a experiência da massa está por trás da voz isolada.


Virginia Woolf


sábado, 12 de março de 2011

Apagar-me

Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.


Paulo Leminski


sexta-feira, 11 de março de 2011

paixão é urgência

"Era tão premente a paixão restaurada que em mais de uma ocasião eles se olharam nos olhos quando se dispunham a comer e, sem se dizerem nada, tamparam os pratos e foram morrer de fome e de amor no quarto."

Gabriel Garcia Márquez. In: Cem Anos de Solidão




quinta-feira, 10 de março de 2011

Instante

(...)

E que mais, vida eterna, me planejas?
O que se desatou num só momento
não cabe no infinito, e é fuga e vento.


Carlos Drummond de Andrade



quarta-feira, 9 de março de 2011

Mutável

A senhora me desculpe, mas no momento não tenho muita certeza. Quer dizer, eu sei quem eu era quando acordei hoje de manhã, mas já mudei uma porção de vezes desde que isso aconteceu.

Lewis Carroll. In: Alice no País das Maravilhas


terça-feira, 8 de março de 2011

Circunferência




Deus me fez mulher.
Mas dou pernada
no homem que achar que eu vou ser dele.
Pertenço a mim.
Fui delimitada em território e espaço
desde sempre.
Circunscrita nas veias
do meu próprio sangue.
Implantada no espaço
da minha própria carne.
Não sou rei. Nem rainha.
Sou de mim. E de nada serei.


Anna Miranda


segunda-feira, 7 de março de 2011

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.


Affonso Romano de Sant'Anna. In: Lado Esquerdo do Meu Peito


domingo, 6 de março de 2011

A última reserva do passado


Ora, as lembranças de amor não constituem excepção às leis gerais da memória, também elas regidas pelas leis mais gerais do hábito. Como este enfraquece tudo, o que melhor nos recorda um ser é justamente o que esquecemos (porque era insignificante e lhe deixámos assim toda a sua força). Por isso é que a melhor parte da nossa memória está fora de nós, numa aragem pluviosa, no cheiro de um quarto fechado ou no cheiro de uma primeira labareda, em toda a parte onde encontramos de nós mesmos o que a nossa inteligência, por não o utilizar, pusera de lado, a última reserva do passado, a melhor, aquela que, quando todas as nossas lágrimas parecem esgotadas, nos sabe ainda fazer chorar.


Marcel Proust. Em busca do tempo perdido - À sombra das raparigas em flor

sábado, 5 de março de 2011

Crepúsculo

(...)

E nessa hora de saudade imensa,
Rindo e chorando desce ao coração:
Toda a doçura da melancolia,
Todo o conforto da recordação.




Auta de Souza


sexta-feira, 4 de março de 2011

O ato de escrever

Bastava-me o ato de escrever. Colocar no pergaminho letra após letra, palavra após palavra, era algo que me deliciava. Não era só um texto que eu estava produzindo; era beleza, a beleza que resulta da ordem, da harmonia. Eu descobria que uma letra atrai outra, essa afinidade organizando não apenas o texto como a vida, o universo. O que eu via, no pergaminho, quando terminava o trabalho, era um mapa, como os mapas celestes que indicavam a posição das estrelas e planetas, posição essa que não resulta do acaso, mas da composição de misteriosas forças, as mesmas que, em escala menor, guiavam minha mão quando ela deixava seus sinais sobre o pergaminho.


Moacyr Scliar. In: A Mulher que Escreveu a Bíblia

quinta-feira, 3 de março de 2011

A Voz



Uma canção cantava-se a si mesma
na rua sem foliões. Vinha no rádio?
Seu carnaval abstrato, flor de vento,
era provocação e nostalgia.

Tudo que já brincou brincava, trêmulo,
no vazio da tarde. E outros brinquedos,
futuros, se brincavam, lecionando
uma lição de festa sem motivo,

à terra imotivada. E o longo esforço,
pesquisa de sinal, busca entre sombras,
marinhagem na rota do divino,

cede lugar ao que, na voz errante,
procura introduzir em nossa vida
certa canção cantada por si mesma.


Carlos Drummond de Andrade. In: Boitempo

quarta-feira, 2 de março de 2011

Faz de conta

Faz de conta que ela não estava chorando por dentro — pois agora, mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado.


Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres


terça-feira, 1 de março de 2011

Como a sempre-viva



Minha poesia é como a sempre-viva
paga seu preço
à existência
em termos de aspereza.


Entre as pedras e o fogo,
frente à tempestade
ou no meio da secura,
por sobre as bandeiras
do ódio necessário
e o preciosíssimo empurrão
da cólera,
a flor da minha poesia busca sempre
o ar,
o húmus,
a seiva
o sol,
da ternura.


Roque Dalton