sábado, 31 de outubro de 2009

Flor de Ir Embora - Maria Bethânia



Flor de ir embora
É uma flor que se alimenta
Do que a gente chora.
Rompe a terra, decidida,
Flor do meu desejo
De correr o mundo afora.
Flor de sentimento
Amadurecendo, aos poucos,
Minha partida.
Quando a flor abrir inteira.
Muda a minha vida.
Esperei o tempo certo.
E lá vou eu, e lá vou eu
Flor de ir embora, eu vou
E agora, esse mundo é meu.


[Composição: Fátima Guedes]

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Me socorria a lembrança

Demorasse assim sua ausência, a espera não se sujava com desespero. Me socorria a lembrança de seus braços como se fossem a parte do meu próprio corpo que me faltasse resgatar.

Mia Couto. A cantadeira. In: Na Berma de Nenhuma Estrada

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Na minha alma...

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece…
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana. In: Poesia Completa

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Distraindo a morte

[...] é que a morte também é leitora, por isso recomendo ter sempre um livro na mão, porque assim, quando a morte chega e vê o livro, se espicha toda para ver o que o que você está lendo, como eu faço no ônibus, e se distrai.


Rosa Montero. In: A Louca da Casa

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Verdade

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez

Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade.
E sua segunda metade
Voltava igualmente com meio perfil
E os meios perfis não coincidiam

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar. Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.


Carlos Drummond de Andrade. In: Corpo

domingo, 25 de outubro de 2009

Com o céu em nós

Não soltamos as mãos, nem elas se deixaram cair de cansadas ou de esquecidas. Os olhos fitavam-se e desfitavam-se, e depois de vagarem ao perto, tornavam a meter-se uns pelos outros. [...] Estávamos ali com o céu em nós. As mãos, unindo os nervos, faziam das duas criaturas uma só, mas uma só criatura seráfica. Os olhos continuaram a dizer coisas infinitas, as palavras de boca é que nem tentavam sair, tornavam ao coração caladas como vinham.

Machado de Assis. In: Dom Casmurro

sábado, 24 de outubro de 2009

A Descoberta

Anos de estudos
e pesquisas:
Era no amanhecer
Que as formigas escolhiam seus vestidos.


Manoel de Barros. In: Matéria de Poesia

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Por amor

Agora preciso da tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor.

Clarice Lispector. In: A paixão segundo G.H.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Languidez

...

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…


Florbela Espanca. In: Livro de Mágoas

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Volto a viver

Ah, que tenaz é a memória! A minha não me deixa sossegada, me enche a mente de imagens, palavras, dor e amor. Sinto que volto a viver de novo o que já vivi. *

Isabel Allende. In: Inés da Minha Alma


* Para ti, Lilizinha del mio cuore! ;)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Do desejo

O desejo não combina com segurança e senhas. O desejo é não saber o que vai acontecer depois.

Fabrício Carpinejar. In: O Amor Esquece de Começar

domingo, 18 de outubro de 2009

As sem-razões do amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.


Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.


Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.


Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


Carlos Drummond de Andrade


sábado, 17 de outubro de 2009

Sobre importâncias

Um fotógrafo-artista me disse outra vez: Veja que um pingo de sol no couro de um lagarto é para nós mais importante do que o sol inteiro no corpo do mar. Falou mais: que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós. Assim um passarinho nas mãos de uma criança é mais importante para ela do que a Cordilheira dos Andes. Que um osso é mais importante para o cachorro do que uma pedra de diamante. [...] Que o canto das águas e das rãs nas pedras é mais importante para os músicos do que os ruídos dos motores da Fórmula 1. Há um desagero em mim de aceitar essas medidas. Porém não sei se isso é um defeito do olho ou da razão. Se é defeito da alma ou do corpo. Se fizerem algum exame mental em mim por tais julgamentos, vão encontrar que eu gosto mais de conversar sobre restos de comida com as moscas do que com homens doutos.

Manoel de Barros. In 'Memórias Inventadas: a segunda infância'

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Primavera


"E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor."

Cecília Meireles. In: Obra em Prosa - Volume 1
 






quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Logo de manhã

Devia era, logo de manhã, passar um sonho pelo rosto. É isso que impede o tempo e atrasa a ruga.

Mia Couto. In: Mar me Quer

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


Manoel de Barros. In 'Memórias Inventadas: a segunda infância'

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Devagarinho

Eu amo quando não me forço a existir. Reduzir meu corpo e o dela a um barco estreito e deixar todo o resto para o mar. O que falta fazer não me cansa. Ainda não cumpri tanta coisa, que não me apresso em pontuar. Farto-me de esperança. Vou imaginado devagarinho para não acabar.

Fabrício Carpinejar . In: O Amor Esquece de Começar

domingo, 11 de outubro de 2009

Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

Fernando Pessoa

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Metade

A gente se apertou um conta o outro. A gente queria ficar apertado assim porque nos completávamos desse jeito, o corpo de um sendo a metade perdida do corpo do outro. Tão simples, tão clássico.

Caio Fernando Abreu. Terça-Feira Gorda. In: Morangos Mofados
.

Paraíso

"Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de livraria."


Gabriel García Márquez

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Mulher

O mistério da mulher está em cada afirmação ou abstinência, na malícia das plausíveis revelações, no suborno das silenciosas palavras.

Henriqueta Lisboa

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Bela Flor - Maria Gadú



A Flor que vem me lembrar
A Flor que é quase igual
A Flor que muito pensa
A Flor que fecha o Sol


Parece a mesma flor
Só muda o coração
Quando se unem são
A Flor que inspirou a canção


Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Que dance a linda flor girando por aí
Sonhando com amor sem dor, amor de flor
Querendo a flor que é, no sonho a flor que vem
Ser duplamente flor, encanta colore e faz bem


Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio
Bela Flor, pouco disse
Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Oh flor, se tu canta essa canção
Todo o meu medo se vai pro vão
Pra longe, longe que eu não quero ir
Mas deixe seu rastro pólen, flor pra eu poder seguir


Bela Flor, pouco disse

Gêmea Flor, que cresceu no Rio

Bela Flor, pouco disse

Gêmea Flor, que cresceu no Rio


Tô apaixonada pela Maria Gadú! :) O CD é ótimo, não me canso de ouvir. Letras, melodias... tudo doce, tudo lindo!

Futuro

No mais fino e doído de seu sentimento ela pensava: vou ser feliz. Na verdade o era nesse instante e se em vez de pensar 'sou feliz' procurava o futuro era porque obscuramente escolhia um movimento para a frente que servisse de forma à sua sensação.

Clarice Lispector. In: O Lustre

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permita que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

- Cecília Meireles

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amores breves

A busca de prazer imediato e a recusa em suportar frustrações são comportamentos que não se conciliam com o delicado trabalho de uma relação amorosa, a ser construída ao longo da convivência. [...] É bem verdade que se o amor se funda no compromisso e se as pessoas cada vez mais têm medo da dor, do sofrimento, do risco de perda, o que resulta são as relações superficiais, os amores breves.

Maria Lúcia de Arruda Aranha. In: Filosofando

domingo, 4 de outubro de 2009

Cativar

— Que quer dizer "cativar"?
— É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços".
— Criar laços?
Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim o único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...

Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

sábado, 3 de outubro de 2009

Do indizível

Só outra pessoa que tivesse experimentado, saberia o que ela sentia, pois de quase tudo o que importa não se sabe falar.

Clarice Lispector. In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Única

"Se alguém ama uma flor da qual só existe um exemplar em milhões e milhões de estrelas, isso basta para que seja feliz quando a contempla."


Antoine de Saint-Exupéry. In: O Pequeno Príncipe

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Oriente

manda-me verbena ou benjoim no próximo crescente
e um retalho roxo de seda alucinante
e mãos de prata ainda (se puderes)
e se puderes mais, manda violetas
(margaridas talvez, caso quiseres)


manda-me osíris no próximo crescente
e um olho escancarado de loucura
(em pentagrama, asas transparentes)


manda-me tudo pelo vento:
envolto em nuvens, selado com estrelas
tingido de arco-íris, molhado de infinito
(lacrado de oriente, se encontrares)


Caio Fernando Abreu. In: O essencial da década de 1970