quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Chamo-te amor

Chamo-te
amor
como o destino
o sonho
a paz
chamo-te
com a voz
o corpo
a vida
com tudo o que tenho
e o que não tenho
com desespero
sede
pranto
como se fosses ar
e eu me afogasse
como se fosses luz
e eu morresse.


Idea Vilariño


quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A medida da idade

Hoje sei como se mede a verdadeira idade: vamos ficando velhos quando não fazemos novos amigos. Estamos morrendo a partir do momento em que não mais nos apaixonamos.


Mia Couto. In: Mar me quer

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Urgência

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Equilibro-me como posso

Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.


Clarice Lispector. In: Um Sopro de Vida (Pulsações)

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Lua


A lua pode tomar-se às colheres
ou em cápsulas com intervalo de duas horas.
É boa como hipnótico e sedativo,
mas também alivia
quem esteja intoxicado de filosofia.
Um pedaço de lua dentro do bolsot
é um amuleto melhor que a pata de coelho:
serve para encontrar quem se ama,
assim como afasta os médicos e as clínicas.
Pode dar-se de sobremesa às crianças
quando não estão dormindo,
e umas gotas de lua nos olhos
ajudam os anciãos a morrer bem.


Põe uma folha tenra de lua
por baixo da travesseira
e logo olharás aquilo que queiras ver.
Usa sempre um frasquinho de ar de lua
para o caso de te afogares,
e entrega a chave da lua
aos presos e desencantados.
Quer para os condenados à morte,
quer para os condenados à vida
não há estimulante melhor que a lua
em doses precisas e controladas.


Jaime Sabines

sábado, 18 de dezembro de 2010

Estará a arte sempre a mentir?

Nunca vivi no campo. Como outros, nem sequer a planície visitei, a não ser por curtos períodos de tempo. Não obstante escrevi um poema sobre o campo e dei-lhe aquilo que os meus versos lhe devem. Esse poema pouco vale. Nada existe menos sincero do que ele; uma total mentira.

Agora ocorre-me, porém, o seguinte: tratar-se-á, realmente, de uma falta de sinceridade? Não estará a arte sempre a mentir? Melhor dizendo, não será ela tanto mais criativa quanto mais mente? Quando escrevi aqueles versos, não estariam a ser produto da arte? Na altura em que fiz aqueles versos haveria em mim sinceridade artística? Não estaria eu a pensar de uma forma que era como se vivesse, de facto, no campo?


Konstandinos Kavafis. In: Páginas Íntimas

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Palavras de mulher

Minha mãe
achava estudo

a coisa mais

fina do mundo.

Não é.
A coisa mais fina

do mundo é o sentimento.



Adélia Prado


quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Da eternidade

Que vivemos exclusivamente no presente pois sempre e eternamente é o dia de hoje – e o dia de amanhã será um hoje, a eternidade é o estado das coisas neste momento.

Clarice Lispector. In: A Hora da Estrela

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sempre acesa

Mesmo enrolada de pó,
dentro da noite mais fria,
a vida que vai comigo
é fogo:
está sempre acesa.

Thiago de Mello


terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Preferência

A única coisa que sabia com clareza era que entre a prosa e os versos preferia os versos, e entre estes preferia os de amor, que decorava mesmo sem querer a partir da segunda leitura, o que lhe era ainda mais fácil quanto mais se tratasse de versos bem rimados, bem medidos, bem desesperados.


Gabriel García Márquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Deixei-me fugir de mim

Deixei-me fugir de mim por não haver fundo.
Por ser inútil, canto.
Por ser absurdo, creio.


Carlos Marzal


domingo, 12 de dezembro de 2010

Remédio soberano

O estudo tem sido para mim o remédio soberano contra os desgostos da vida, e jamais tive tristeza de que uma hora de leitura não me tenha livrado.


MONTESQUIEU. "Mes pensées". In Oeuvres complètes.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cuida-te

(...)

Cuida-te do leal cem por cento!
Cuida-te do céu aquém do ar,
assim como do ar além do céu!
Cuida-te dos que te amam!
E dos teus heróis!
E dos teus mortos!
Cuida-te da República!
E do futuro!


César Vallejo


sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Amor sem exigências

Como chegar para alguém e dizer de repente eu te amo para depois explicar que esse amor independia de qualquer solicitação, que lhe bastava amar, como uma coisa que só por ser sentida e formulada se completa e se cumpre?


Caio Fernando Abreu. Amor. In: : O Inventario do Irremediável

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Poesia e propaganda

Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor.


Alexandre O'Neill


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Rosa vermelha

Se você me der um rosa vermelha, eu canto para você minha mais doce canção.


Oscar Wilde. O Rouxinol e a Rosa. In: Histórias de Fadas

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Não pode comigo

Não pode comigo
a tristeza
arrasto-a para a vida
e ela evapora-se.


Claribel Alegria


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Mais formoso

Tive muitos amores – disse – mas o mais formoso foi
o meu amor pelos espelhos.


Alejandra Pizarnik. In: Antologia Poética

domingo, 5 de dezembro de 2010

Receita contra dor de amor

chore um mar inteiro
com todos os seus barcos a vela
chore o céu e suas estrelas
os seus mistérios, o seu silêncio.
chore um equilibrista caminhando
sobre a face de um poema
chore o sol e a lua
a chuva e o vento

para que uma nova semente
entre pela janela adentro.


Roseana Murray. In: Receitas de Olhar

sábado, 4 de dezembro de 2010

Do destino

O destino tanto pode ferir quanto abençoar uma pessoa. Surpreendo-me a perguntar por quê, em meio a tantas pessoas que existem no mundo, tantas que eu poderia ter amado, tinha de me apaixonar justamente por alguém que eu estava destinado a perder.


Nicholas Sparks. In: Uma carta de amor

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Lírio branco

(...) Qual é a flor que exprime
A passagem dos dias
Os dias que se sucedem sem fim
Puxando-nos
Para o futuro?
A infinita
Passagem dos dias
Puxando-nos infinitamente
Para o futuro.

E a florista diz:
O lírio branco.


Laurie Anderson. In: Anéis de Fumo


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Entre o riso e o pranto

"... oscilava entre o riso e o pranto. Sob a fina camada da fervorosa alegria de viver, o que havia lá dentro era tristeza."


Jostein Gaarder. In: O Castelo nos Pirineus

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Delícia

Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.

Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.

As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.

Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.

- Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.


Manuel Bandeira


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Alegre e impaciente

A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora... e nas que haviam de vir.

Machado de Assis. In: A Cartomante

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Antes que o verão chegue

Antes que o verão chegue
e as longas tardes
se espalhem pelo coração
e te prendam ao desgaste habitual
toca uma palavra
para que permaneça
na minha boca
onde mais ninguém
possa ficar confundido.
Uma apenas.

E vê como pesa menos sobre o silêncio
a sombra que vais mover.



Vasco Ferreira Campos. In: A voz à chuva


domingo, 28 de novembro de 2010

Como o mar

"Que o amor é como o mar: sendo infinito, espera ainda em outra água se completar."




Mia Couto. In: A gorda Indiana

sábado, 27 de novembro de 2010

São gostos

Que nenhuma estrela queime o teu perfil
Que nenhum deus se lembre do teu nome
Que nem o vento passe onde tu passas.

Para ti eu criarei um dia puro
livre como o vento e repetido
como o florir das ondas ordenadas.


Sophia de Mello Breyner Andresen


sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Momentos eternos

"Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo."

José Saramago




segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Armadilha

o tempo é uma armadilha
na forma daqueles
que mais amamos.


Gil T. Sousa. In: Falso Lugar

domingo, 21 de novembro de 2010

Mais que amor

O meu mal era a grande fraqueza por ele, que eu sentia. Eu gostava de, comigo, chamar aquilo de amor. Mas só porque achava bonito e porque, no amor, tudo se perdoa. Mas não era amor, era pior, eu acho que era mesmo paixão. Nem era só um cio violento, mas passageiro, que depois de satisfeito se desvanece. Não era cio; e era muito mais que amor.


Rachel de Queiroz. In: Memorial de Maria Moura

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Paisagens

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração
ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.



Luís Miguel Nava. In: Poesia Completa

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Utilidade

"Chaminé que construísse em minha casa não seria para sair o fumo, mas para entrar o céu."




Mia Couto. In: Mar me quer


quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Do amor

Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.



Fiama Hasse Pais Brandão. In: As Fábulas


terça-feira, 16 de novembro de 2010

Horas vazias

Tem o relógio horas tão vazias que, breves mesmo, como de todas é costume dizermos, excepto aquelas a que estão destinados os episódios de significação extensa, (…), são tão vazias, essas, que os ponteiros parece que infinitamente se arrastam, não passa a manhã, não se vai embora a tarde, a noite não acaba.


José Saramago. In: O ano da morte de Ricardo Reis

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Grande amor

Não sei que palavras usar
Quando o tamanho do meu amor
Não quer entrar, se comportar,
Dentro de um “eu te amo”


Cáh Morandi

Enquanto isso, Natália suspira.

domingo, 14 de novembro de 2010

O amor fala alto

"Tentava sentir baixinho, mas o amor fala alto, mesmo quando silencia."

Ana Jácomo


sábado, 13 de novembro de 2010

Duas

Recebe-me em duas partes:
aquela que o mundo avista,
e a outra, a verdadeira.


Lya Luft. In: Para não dizer adeus


sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Amparo

"Mas quando o meu corpo encontrou esse amparo que é o seu, pensei: em algum sonho eu já estive aqui."


Marla de Queiroz

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Do teu nome

sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome

a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?

Gil T. Sousa. In: Falso Lugar


E o coração apertado de saudade. :(



terça-feira, 9 de novembro de 2010

Perto da vida

O impulso para amar, para encontrar e conhecer e mergulhar no outro, é o que nos traz para perto da vida.


Caio F. In: Cartas

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

No meu peito

Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo, até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.


Pablo Neruda

domingo, 7 de novembro de 2010

Pedido

Sinto que vou pedir que os fatos apenas escorram sobre mim, sem me molhar.

Clarice Lispector. In: Água Viva

sábado, 6 de novembro de 2010

Chão

Não há limite que não seja por ele suportado.
Suporta todo o cansaço. Traições, fadiga, falhanços.
Aconteça o que acontecer, tens um corpo que pesa;
e um chão, mudo, imóvel, que não desaparece.


Gonçalo M. Tavares. In: Relógio d'água

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Orgulhosas cicatrizes

Talvez a gente esteja no mundo para procurar o amor, encontrá-lo e perdê-lo, muitas e muitas vezes. Nascemos de novo a cada amor e, a cada amor que termina, abre-se uma ferida. Estou cheia de orgulhosas cicatrizes.


Isabel Allende. In: Paula

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Outra vez

aterrorizado outra vez
de não amar
de amar e não seres tu
de ser amado e não ser por ti
de saber e não saber fingir
e fingir


Samuel Beckett

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Felicidade

Entre as palavras, existem para cada falante as prediletas e as estranhas, preferidas e evitadas, cotidianas - que se usam mil vezes sem temer o desgaste - e outras - solenes - que, por mais que as amemos, só pronunciamos ou escrevemos com cuidado e reflexão, como objetos raros: fazendo as escolhas que correspondem a essa sua solenidade. Entre elas está, para mim, a palavra felicidade.

Hermann Hesse

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O morto e o vivo

Inútil pedir
perdão,
dizer
que o traz
no coração...

O morto não ouve.


Ferreira Gullar

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Canção Que Não Morre No Ar



Sintonize o seu rádio
procure em alguma estação
se eu entrar nos seus ouvidos
acelero seu coração.


Mas não esqueça de mim
agora eu corro com o vento
você não pode me ver
me guarde no pensamento.


Minha voz vai se espalhar no ar
cada verso que eu cantar
os falantes te lembrarão
minha voz é canção que não morre no ar.


Nunca mais vou te deixar

pois agora sou uma canção.



(Composição: China / Bruno Ximarú)

Recebi essa música de uma pessoa muito especial e querida. Achei tão linda... 😍


Limpeza Geral

Vamos fazer limpeza geral
e deitar fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que já não usamos e as
outras que apenas acumulam pó,
as que evitamos encontrar porque
nos trazem lembranças mais amargas,
as que nos ferem ou ocupam espaço
ou nunca quisemos ter ao pé.

Vamos fazer limpeza geral
ou, melhor ainda, uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer as tocar, sem sujar-nos,
deixando-as onde sempre estiveram;
vamo-nos nós embora, vida minha,
para começar a juntar de novo.
Ou vamos pegar fogo a tudo
e ficar em paz, com a imagem
do braseiro do mundo diante dos olhos
e de coração desabitado.

Amalia Bautista


Começa um novo mês, e o clima é de limpeza geral. É chegada a hora de fazer uma faxina e deitar fora aquilo que não serve mais!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Me recuso

Tenho repetido que, no que depender de mim, me recuso a ser infeliz.



Caio F. In: Cartas

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Ser, parecer

Entre o desejo de ser
e o receio de parecer
o tormento da hora cindida

Na desordem do sangue
a aventura de sermos nós
restitui-nos ao ser
que fazemos de conta que somos


Mia Couto


quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sempre se repetem

Oh vento... tu que me trazes uma lembrança machucada de coisas vividas que, ai de mim, sempre se repetem, mesmo sob formas outras e diferentes.


Clarice Lispector. In: Água Viva

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O amor e o outro

Não amo
melhor
nem pior
do que ninguém.

Do meu jeito amo.
Ora esquisito, ora fogoso,
às vezes aflito
ou ensandecido de gozo.
Já amei
até com nojo.

Coisas fabulosas
acontecem-me no leito. Nem sempre
de mim dependem, confesso.
O corpo do outro
é que é sempre surpreendente.




Affonso Romano de Sant'Anna

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dom secreto

Cada um de nós mereceria ao menos uma reportagem para homenagear nossos dons mais secretos, aqueles que acontecem bem longe dos holofotes. O dom de viver sem aplauso e sem platéia. O glorioso e secreto dom de vencer os dias.


Martha Medeiros

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Artigo III

Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.




Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem


quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Despercebido

" - O mal não permanece impune, senhora, mas às vezes, o castigo passa despercebido."


Agatha Christie. In: A Casa do Penhasco

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Distância


não possa tanta distância
deixar entre nós
este sol
que se põe
entre uma onda
e outra onda
no oceano dos lençóis



Paulo Leminski. In: Melhores Poemas


terça-feira, 19 de outubro de 2010

A qualquer momento

Amar é ter um pássaro pousado no dedo. Quem tem um pássaro pousado no dedo sabe que, a qualquer momento, ele pode voar.



Rubem Alves

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

amar-te devagarinho

Hei-de beber-te com goles pequeninos,
soletrar as frases, fazer alto
depois de cada encontro,
fechar os livros das confidências,
amar-te devagarinho, distanciando
os beijos como ilhas.

 

Josefa Parra Ramos


domingo, 17 de outubro de 2010

Mais difícil

Nada existe de mais difícil do que entregar-se ao instante. Esta dificuldade é dor humana.


Clarice Lispector. In: Água Viva

Clarice me entenderia. Fato! :)


sábado, 16 de outubro de 2010

A flor e a náusea

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a policia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.




Carlos Drummond de Andrade. In: A Rosa do Povo

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Não consigo parar

Talvez eu esteja com receio de ter ido longe demais desta vez e esteja preparando a minha defesa, caso alguma coisa não saia como esperado. O que eu espero? Não espero nada, espero tudo, estou à deriva nessa aventura. Eu queria cristalizar esse momento da minha vida, mas estou em alta velocidade, e não sei se quero ir adiante, só que eu não tenho opção. Acho que é isso. Eu tinha opções, agora não tenho. Não consigo parar esse trem.


Martha Medeiros

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Soneto a quatro mãos

Tudo de amor que existe em mim foi dado.
Tudo que fala em mim de amor foi dito.
Do nada em mim o amor fez o infinito
Que por muito tornou-me escravizado.


Tão pródigo de amor fiquei coitado
Tão fácil para amar fiquei proscrito.
Cada voto que fiz ergueu-se em grito
Contra o meu próprio dar demasiado.


Tenho dado de amor mais que coubesse
Nesse meu pobre coração humano
Desse eterno amor meu antes não desse.


Pois se por tanto dar me fiz engano
Melhor fora que desse e recebesse
Para viver da vida o amor sem dano.


Vinicius de Moraes (com Paulo Mendes Campos)

Que lindo! 😍

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Posso esperar

Quanto tempo demora? - perguntou ele.
- Não sei. Um pouco.
Sohrab deu de ombros e voltou a sorrir, desta vez era um sorriso mais largo.
- Não tem importância. Posso esperar. É que nem maçã ácida.
- Maçã ácida?
- Um dia, quando eu era bem pequenininho mesmo, trepei em uma árvore e comi uma daquelas maçãs verdes, ácidas.
Minha barriga inchou e ficou dura feito um tambor.
Doeu à beça. A mãe disse que, se eu tivesse esperado as maçãs amadurecrem, não teria ficado doente. Agora, quando quero alguma coisa de verdade tento lembrar do que ela disse sobre as maçãs.


Khaled Hosseini. In: O Caçador de Pipas

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poeta

Poeta não é somente o que escreve.
É aquele que sente a poesia...
Se extasia sensível ao achado de uma rima...
À autenticidade de um verso.


Cora Coralina

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Anonimamente

Mas tenho em mim uma coisa que você se esqueceu de dizer: a capacidade de amar anonimamente, sem pedir nada em troca, sem reconhecimento, sem perdão.

Fernando Sabino

domingo, 10 de outubro de 2010

Se houver céu

Se houver céu depois da terra
e nessa estrela
a eterna primavera
pudera, tomara, que a vida quisera
que a gente se encontrara.
Proutra vida fica,
nosso amor mais louco,
fica tudo muito mais bonito,
fica a dita que faltou pro pouco,
se houver céu...
Se houver céu,
como nessa vida não há,
a gente se achou bichinha
a gente se encontrará,
a gente se encontrará.


Paulo Leminski


sábado, 9 de outubro de 2010

O encontro

Não havíamos marcado hora, não havíamos marcado lugar. E, na infinita possibilidade de lugares, na infinita possibilidade de tempos, nossos tempos e nossos lugares coincidiram. E deu-se o encontro.


Rubem Alves

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Seja

objeto
do meu mais desesperado desejo
não seja aquilo
por quem ardo e não vejo

seja a estrela que me beija
oriente que me reja
azul amor beleza

faça qualquer coisa
mas pelo amor de deus
ou de nós dois
seja


Paulo Leminski. In: Melhores Poemas




quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Quem sabe?

"... durmo, certo de que ainda há muitas histórias para serem lidas, para serem escritas, para serem lembradas. Até para serem vividas, quem sabe?"


Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Desobediência

Razão,
de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar,
Eu ardo, eu amo!
Dizes-me que sossegue,
Eu peno, eu morro.


Bocage


E como tem sido prazeroso desobedecer a razão... =)


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Corações

- E você, meu amigo galvanizado, você quer um coração. Você não sabe o quão sortudo és por não ter um. Corações nunca serão práticos enquanto não forem feitos para não se partirem.


Frank Baum. In: O Mágico de Oz

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-se ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar.


Florbela Espanca. In: Charneca em Flor

domingo, 3 de outubro de 2010

Sobre o passado

Descobri a doçura de ter atrás de mim um longo passado. Não tenho o tempo de me narrar, mas às vezes, de improviso, eu o vejo em transparência ao fundo do momento presente: ele lhe dá sua cor, sua luz, como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar. Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas. Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres.

Simone de Beauvoir. In: A mulher desiludida

sábado, 2 de outubro de 2010

Miragem

Sem qualquer esperança
te espero.
Na multidão que vai e vem
entra e sai dos bares e cinemas
surge teu rosto e some
num vislumbre
e o coração dispara.
Te vejo no restaurante
na fila do cinema, de azul
diriges um automóvel, a pé
cruzas a rua
miragem
que finalmente se desintegra
com a tarde acima dos edifícios
e se esvai nas nuvens.

Ferreira Gullar. In: Gullar Singular

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

À mercê do outro

Então porque é que pensava que todos os dias ela ia deixá-lo? (...) O amor era para ele o desejo de abandonar-se ao arbítrio e à mercê do outro. Quem se entrega ao outro como um soldado, se deixa fazer prisioneiro, tem de despojar-se de previamente de todas as armas. Vendo-se sem defesas, não pode coibir-se de estar sempre a pensar no momento em que o golpe fatal será dado.


Milan Kundera. In: A Insustentável Leveza do Ser

domingo, 26 de setembro de 2010

Composição


Há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


Manoel de Barros


sábado, 25 de setembro de 2010

No ar

São quase seis horas da tarde, o sol começou a se pôr bem aqui em frente à minha janela. Foi um dia muito bonito, a primavera está mesmo no ar.




Caio F. Abreu. In: Cartas

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uni-Verso

"Treme a folha no galho mais alto" - escrevo. Paro e sorvo, de olhos fechados, o cheiro bom da terra, do capim chovido... Parece que quer vir um poema... Abro os olhos e fico olhando, interrogativamente, a linha que escrevi no alto da página. Depois de longo instante acrescento-lhes tres pontinhos. Assim não ficará tão só enquanto aguarda as companheiras. O vento fareja-me a face como um cachorro. Eu farejo o poema. Ah, todo o mundo sabe que a poesia está em toda parte, mas agora cabe toda ela na folha que treme.

Por que não caberia então em um único verso? Um uni-verso.

Treme a folha no galho mais alto.

(o resto é paisagem...)


Mário Quintana. In: Sapo Amarelo

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Ela chegou!


"... dias lindos, claríssimos, céu e sol luminosos..."

É a primavera que então se instala. \o/





sábado, 18 de setembro de 2010

Soneto do amor total

Amo-te tanto meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te enfim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.



Vinícius de Moraes

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Esperança pueril

"... e nunca teve pretensões a amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor."


Gabriel García Marquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Metalinguagem

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.


Eugénio de Andrade

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Da necessidade de renovação

Interrupção, incoerência, surpresa são as condições comuns de nossa vida. Elas se tornaram mesmo necessidades reais para muitas coisas, cujas mentes deixaram de ser alimentadas por outra coisa que não mudanças repentinas e estímulos constantemente renovados... Não podemos mais tolerar o que dura. Não sabemos mais fazer com que o tédio dê frutos.

Paul Valéry

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Espelho da memória

Os dedos com que me tocou
persistem sob a pele, onde a memória os move.
Tacteiam, impolutos. Tantas vezes
o suor os traz consigo na memória, que não tenho
na pele poro através
do qual eles não procurem
sair quando transpiro.
A pele é o espelho da memória.

Luís Miguel Nava


Ai, que saudade d'ocê...


segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Modo de vida

Conheço um modo de vida que é sombra leve desfraldada ao vento e balançando leve no chão: vida que é sombra flutuante, levitação e sonhos no dia aberto: vivo a riqueza da terra.


Clarice Lispector. In: Água Viva

domingo, 12 de setembro de 2010

Antes que o mundo acabe

Antes que o mundo acabe, Túlio,
Deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso. E ao meu lado
Te fazes árabe, me faço israelita
E nos cobrimos de beijos
E de flores

Antes que o mundo se acabe
Antes que acabe em nós
Nosso desejo.


Hilda Hilst

sábado, 11 de setembro de 2010

Sobre o amor... ou a falta dele.

Se calhar há quem nunca tenha conhecido o amor e não precise nem queira. Se calhar há mesmo quem hasteie a bandeira da solidão e a faça abanar ao vento, orgulhosamente. (...) Mas eu, que tenho amor e que sei como é não ter, não quero andar para trás. Que ninguém me tire os beijos, os amuos, os abraços, as discussões, a contagem de segundos até o ver outra vez.


Ana Garcia Martins

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

(...)

Carlos Drummond de Andrade. In: Brejo das Almas

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Como uma lua na água

Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.

Julio Cortázar. In: O Jogo da Amarelinha

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Tão cúmplices...

Às vezes vêm de muito longe:
de fatigadas viagens,
de mortes prematuras,
de excessivas solidões.
Mas vêm.
E trazem a inicial pureza das fontes.
E a lâmina do silêncio.
E a desordem da noite.
E a luz extenuada do olhar.
Tão cúmplices, as palavras.


Graça Pires

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Como se fosse

"Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um 'te amo'."



Martha Medeiros

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Artigo VII

Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.


Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem

domingo, 5 de setembro de 2010

Em silêncio

E se não quisermos, não pudermos, não soubermos, com palavras, nos dizer um pouco um para o outro, senta ao meu lado assim mesmo. (...) Senta apenas ao meu lado e deixa o meu silêncio conversar com o seu. Às vezes, a gente nem precisa mesmo de palavras.

Ana Jácomo

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mar

De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Poesia I

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Uma luz

Pretendo que a poesia tenha a virtude de, em meio ao sofrimento e ao desamparo, acender uma luz qualquer. Uma luz que não nos é dada, que não desce dos céus, mas que nasce das mãos e do espírito dos homens.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Interior


"Quem não tem jardins por dentro
não planta jardins por fora.
E nem passeia por eles..."



Rubem Alves


Setembro, enfim, chegou! Logo, logo começa a primavera, e 'de tão azul, o céu parecerá pintado.' =)

domingo, 29 de agosto de 2010

De passagem

No meio dessas turbulências emocionais, uma sensação de estar aqui em férias, de estar de passagem.

Caio F. Abreu. In: Cartas

Sou Eu

(...)

Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.

(...)

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

sábado, 28 de agosto de 2010

Matéria de poesia

A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia.

Ferreira Gullar

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sugestão

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

[...]

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.


Thiago de Mello

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Eternidade

'A alegria', diz Nietzsche, 'quer eternidade, quer profunda eternidade'. Não é nem nunca foi assim: a alegria não quer nada, e é por isso que é alegria. A dor, essa, é o contrário da alegria, como a concebia Nietzsche: quer acabar, quer não ser. O prazer, porém, quando o concebemos fora da relação essencial com a alegria ou com a dor, esse, sim, quer eternidade; porém quer a eternidade num só momento.

Fernando Pessoa. In: Textos de Crítica e de Intervenção

Amor mudo

Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!


Canção japonesa (tradução de Helberto Helder)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Urgência

Nunca soube em que momento a diversão se converteu em ansiedade, e sentia o sangue virando espuma na urgência de vê-lo.
[...]
Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia.

Gabriel García Márquez. In: O Amor nos Tempos do Cólera


Hoje acordei com o coração cheio de amor... transbordando! E assim permaneci até o exato momento. =) Assim sendo, nada mais justo que postar algo do García Márquez. Ainda mais desse livro, que é lindíssimo! ;)


domingo, 22 de agosto de 2010

Metade Pássaro


A mulher do fim do mundo
Dá de comer às roseiras,
Dá de beber às estátuas,
Dá de sonhar aos poetas.

A mulher do fim do mundo
Chama a luz com assobio,
Faz a virgem virar pedra,
Cura a tempestade,
Desvia o curso dos sonhos,
Escreve cartas aos rios,
Me puxa do sono eterno
Para os seus braços que cantam.


Murilo Mendes. In: O visionário

sábado, 21 de agosto de 2010

Dos bons conselhos


Tenta te orientar pelo calendário das flores. Esquece, por um momento, os números, a semana, o dia do teu nascimento. Se conseguires ser leve, aproveita, enche tuas malas de sonho e toma carona no vento.


Fernando Campanella

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Os versos que te fiz


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!


Florbela Espanca

Do inexplicável amor


Oh Deus, como estou sendo feliz. O que estraga a felicidade é o medo. Fico com medo. Mas o coração bate. O amor inexplicável faz o coração bater mais depressa.

Clarice Lispector. In: Água Viva

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Sintonia para pressa e presságio


Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.

Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.


Paulo Leminski. In: La vie en close

Magnólias

Era todo arborizado com magnólias. As flores das magnólias são quase insignificantes. Mas o perfume é maravilhoso. Quem respira o perfume de uma magnólia tem a alma tocada pelo divino.


Rubem Alves. Em defesa das árvores. In: O Amor que acende a Lua

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

O olhar para trás

(...)

E o olhar estaria ansioso esperando
E a cabeça ao sabor da mágoa balançando
E o coração fugindo e o coração voltando
E os minutos passando e os minutos passando...


Vinícius de Moraes. In: Antologia Poética

Para atravessar agosto

Para atravessar agosto, ter um amor seria importante. Mas se você não conseguiu, se a vida não deu, ou ele partiu - sem o menor pudor, invente um.

Caio Fernando Abreu. In: Pequenas Epifanias

domingo, 15 de agosto de 2010

Soneto


Aceitarás o amor como eu o encaro?
... Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.


Mário de Andrade. In: Poesias completas


* Este é da série "se alguém me fizer um poema assim, eu caso no ato!" :)



Poesia se aprende na escola?

A poesia é um gênero mais sofisticado que a prosa, que requer um entendimento mais elaborado do leitor. Você acredita que uma das razões de se ler pouca poesia seja pelo fato de ser pouco ministrada na escola? Poesia se aprende na escola?

Acho em princípio é possível ensinar a ler poesia na escola. A maior parte das pessoas é analfabeta, em relação à leitura de poesia. A leitura de um poema, mesmo quando efetuada em voz baixa ou interior, não se compara às demais experiências de leitura. Não se lê um poema como se lê uma notícia de jornal, uma bula de remédio, uma carta, um ensaio. Lido desses modos, um poema é uma chatice. A leitura de um poema, mesmo em voz baixa, mesmo “para dentro”, deve levar em conta a sua sonoridade. E ela deve ser progressiva e regressiva, prestando atenção a todos os elementos semânticos e sintáticos, formais e materiais, descritivos e alusivos de que o poema é composto. O bom leitor permite que o bom poema o transporte para uma temporalidade diferente da temporalidade cotidiana. Os professores devem ser preparados para ensinar essas coisas aos alunos.

Antônio Cícero. In: Entrevista à Revista E

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Poema XLIV


Saberás que não te amo e que te amo
posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.

Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desafortunado.

Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda. In: Cem sonetos de amor

domingo, 8 de agosto de 2010

Plenitude


Plenitude é quando a vida cabe no instante presente, sem aperto, e a gente desfruta o conforto de não sentir falta de nada.


Ana Jácomo

sábado, 7 de agosto de 2010

Dos quereres


"Eu quero o mapa das nuvens

e um barco bem vagaroso."


Mário Quintana

O esplendor da linguagem

Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio seu próprio sentido. Assim o sentido de uma rosa é essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.


Sophia de Mello Breyner Andresen. In: Os três reis do Oriente

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Venturosa de sonhar-te


Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda parte,
mas, amor, só no meu peito!)
-Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.
-Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!


Cecília Meireles

Inadiável


Quero que daqui pra frente a vida seja hoje.



Caio F. Abreu. In: Cartas

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Artigo II

Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.


Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Realista

"... dessa vez era um amor mais realista e não romântico; era o amor de quem já sofreu por amor."

Clarice Lispector. Uma História de tanto amor. In: Felicidade Clandestina

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Por definição

Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.


Thiago de Mello. In: Os Estatutos do Homem
(Artigo XI)


"Foi um dia tão bonito ontem...

Já disse isso, mas repito: foi um dia tão bonito ontem!"




Caio F. Abreu. In: Cartas


terça-feira, 27 de julho de 2010

Poema de canção sobre a esperança

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vontade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios —
Os melhores lírios —
E as melhores rosas
Sem receber nada.
A não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.


Fernando Pessoa / Álvaro de Campos. In: Poesia

Como?

Eu tenho que deixar de gostar daquele diabo viajante. Mas como? Como é que se esquece alguém? Como é que se apaga a memória dos sentidos? Como é que se lava a alma e se limpa o coração?

Margarida Bebelo Pinto. In: Alma de Pássaro

domingo, 25 de julho de 2010

Paraíso

Esta manhã
há no ar a incrível fragrância
das rosas do Paraíso.


Jorge Luís Borges

Das coisas mais simples

Tenho aprendido com o tempo que a felicidade vibra na freqüência das coisas mais simples. Que o que amacia a vida, acende o riso, convida a alma pra brincar, são essas imensas coisas pequeninas bordadas com fios de luz no tecido áspero do cotidiano.


Ana Jácomo

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Alimento


Ó subalimentados do sonho,
a poesia é para comer!


Natália Corrêa. In: A Defesa do Poeta

Amor proibido

"... lhe dava trabalho entender que dois adultos livres e sem passado, à margem dos preconceitos de uma sociedade fechada em si mesma, tivessem escolhido o risco dos amores proibidos. Ela lhe explicou: "Era seu gosto." Além disso, a clandestinidade compartilhada com um homem que nunca tinha sido seu por completo, e na qual mais de uma vez conheceram a explosão instantânea da felicidade, não lhe pareceu uma condição indesejável. Ao contrário..."


Gabriel García Márquez. In: O amor nos tempos do cólera

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Da alma, e de quanto tiver


Da alma, e de quanto tiver

Quero que me despojeis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.

(...)

Se mais tenho que perder,
Mais quero que me leveis,
Contanto que me deixeis
Os olhos para vos ver.


Luís de Camões

Crisântemo

O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É a flor que descabeladamente controla a própria selvageria.

Clarice Lispector. In: Água Viva




Porque alguém me disse que se eu fosse flor, seria um crisântemo.
E eu achei lindo! :)

terça-feira, 20 de julho de 2010

Que importa um nome?

E depois de tanto
que importa um nome?

Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:
te chamo aurora, te chamo água.

Te descubro nas pedras coloridas, nas artistas de cinema,
nas aparições do sonho.


Ferreira Gullar. In: Poema Sujo

sábado, 17 de julho de 2010

Dias lindos

Os boletins meteorológicos não se lembraram de anunciá-los em linguagem especial. Nenhuma autoridade, munida de organismo publicitário, tirou partido do acontecimento. Discretos, silenciosos, chegaram os dias lindos. [...]



Carlos Drummond de Andrade. In: Crônicas

Leve

nave, ave, moinho
e tudo mais serei
para que seja leve
meu passo
em vosso caminho.


Hilda Hilst

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Das possibilidades

"Eu acho que a gente não deve perder a curiosidade pelas coisas: há muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas. Tudo isso estimula a gente, clareia a cabeça, refresca..."


Caio F. Abreu. In: Cartas

Auto-retrato


"Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia."



Natália Correia

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Tropeço

Há tanto tempo não usado, encontrei o amor, sem querer. Ontem. Jogado debaixo da cama. Empoeirado. Sem caixa, bula ou manual. Um amor, assim, abandonado. Sujo. Rasgado. Fóssil soterrado. Navio afundado há anos. Casarão com tábuas pregadas nas janelas. Lençóis brancos sobre os móveis. Um amor acostumado com o escuro. Com o frio do quarto fechado. Com a passagem rápida de um inseto no meio da madrugada. Um velho amor largado. Pronto pra ser reciclado. Um amor procurado por toda casa nos lugares errados. Nos armários limpos. Entre taças. Louças. Dentro de caixas fechadas com laços. Sob tapetes varridos. Cantos desinfetados. Um amor chamado no grito. No gemido da febre. No cochicho da oração. Um amor sumido. Necessitado. Um amor que apareceu quando quis. De repente. Em um lugar inesperado. Há tanto tempo não usado, eu, ontem, tropecei no amor.

Eduardo Baszczyn

domingo, 11 de julho de 2010

Bibliocausto

E só ficará comigo
o riso rubro das chamas, alumiando o preto
das estantes vazias.

Porque eu só preciso de pés livres,
de mãos dadas,
e de olhos bem abertos.

João Guimarães Rosa. In: Magma

O quarto

Róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo.

Raduan Nassar. In: Lavoura Arcaica




'O Quarto', de Van Gogh

terça-feira, 6 de julho de 2010

Dolores

(...)

Se alguém me fixasse, insisti ainda,
num quadro, numa poesia...
e fossem objetos de beleza os meus músculos frouxos...
Mas não quero. Exijo a sorte comum das mulheres nos tanques,
das que jamais verão seu nome impresso e no entanto
sustentam os pilares do mundo, porque mesmo viúvas dignas
não recusam casamento, antes acham sexo agradável,
condição para a normal alegria de amarrar uma tira no cabelo
e varrer a casa de manhã.

Uma tal esperança imploro a Deus.


Adélia Prado. In: Poesia Reunida


À minha mãe, que me ensinou a ter esperanças.
Porque ainda é aniversário dela.
PARABÉNS, mamis! :)

Um brinde

A todos aqueles que entraram na fila errada. [...] Não escrevem, não cantam, não esculpem nem declamam. Mas sentem, amam e acolhem anonimamente a poesia em seus ventres. Um brinde a todos os recipientes!

Marilda Confortin

domingo, 4 de julho de 2010

O Mais-Que-Perfeito

Ah, quem me dera ir-me
Contigo agora
Para um horizonte firme
(Comum, embora...)
Ah, quem me dera ir-me!

Ah, quem me dera amar-te
Sem mais ciúmes
De alguém em algum lugar
Que não presumes...
Ah, quem me dera amar-te!

Ah, quem me dera ver-te
Sempre a meu lado
Sem precisar dizer-te
Jamais: cuidado...
Ah, quem me dera ver-te!

Ah, quem me dera ter-te
Como um lugar
Plantado num chão verde
Para eu morar-te
Morar-te até morrer-te!

Vinícius de Moraes

sábado, 3 de julho de 2010

Olhos de ressaca

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.


Machado de Assis. In: Dom Casmurro

quarta-feira, 30 de junho de 2010

LUTO

.

"Pensar que a gente cessa é íngreme.
Minha alegria ficou sem voz."

Manoel de Barros. In: Livro sobre Nada




LUTO pelos camaradas Paulo Colombiano e Catarina Galindo, brutalmente assassinados na noite desta terça-feira, 29.

Solidariedade a Thiago Colombiano.
Força, colega! Você não está sozinho!



terça-feira, 29 de junho de 2010

O delírio do verbo

(...)

Em poesia,
que é voz de poeta,
que é a voz de fazer nascimentos -
o verbo tem que pegar delírio.


Manoel de Barros, no poema 'No descomeço era o verbo'

domingo, 27 de junho de 2010

Como um feitiço

Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego.

João Guimarães Rosa. In 'Grande Sertão: Veredas'

sábado, 26 de junho de 2010

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.




Adélia Prado

Calo-me

Deixo oculto o que precisa ser oculto e precisa irradiar-se em segredo. Calo-me.


Clarice Lispector. In: Água Viva

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Soneto Antigo

Responder a perguntas não respondo.
Perguntas impossíveis não pergunto.
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando.

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


Cecília Meireles

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Mais vale

"Mais vale quem a amar madruga do que quem outro verbo conjuga."


João Guimarães Rosa. Tutaméia. In: Terceiras Estórias

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Saúdo todos os que me lerem

(...)

Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.

(...)


Alberto Caeiro. In: O Guardador de Rebanhos I


terça-feira, 15 de junho de 2010

Descoberta

Descobri, faz algum tempo, que as mãos se opõem à cabeça, e quando você movimenta aquelas, esta pode parar. Não sei se é uma grande descoberta, talvez não, mas de qualquer forma gosto quando a cabeça pára o maior tempo possível, caso contrário enche-se de temores, suspeitas, desejos, memórias e todas essas inutilidades que as cabeças guardam para deixar vir à tona quando as mãos estão desocupadas.
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Caio Fernando Abreu. Marinheiro. In: Triângulo das Águas

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