sábado, 7 de setembro de 2024

em outro alguém estou nascendo

(...) 


Eis que um segundo nascimento,

não adivinhado, sem anúncio,

resgata o sofrimento do primeiro,

e o tempo se redoura.

Amor, este é o seu nome.

Amor, a descoberta

de sentido no absurdo de existir.

O real veste nova realidade,

a linguagem encontra seu motivo

até mesmo nos lances de silêncio.

A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias:

Não sou eu, sou o Outro

que em mim procurava seu destino.

Em outro alguém estou nascendo.

A minha festa,

o meu nascer poreja a cada instante

em cada gesto meu que se reduz

a ser retrato,

espelho,

semelhança

de gesto alheio aberto em rosa.


Nascer de novo. Carlos Drummond de Andrade

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