Chegou a primavera? Que me contas!Não reparei. Pois afinal de contasnem uma flor a mais no meu jardim,que aliás não existe, mas enfimessa ideia de flor é tão teimosaque no asfalto costuma abrir a rosae põe na cuca menos jardiníliaum jasmineiro verso de Cecília.Como sabes, então, que ela está aí?Foi notícia que trouxe um colibriou saiu em manchete no jornal?Que boato mais bacana, mais genial,esse da primavera! Então eu topo,e no verso e na prosa eis que galopo,saio gritando a todos: Venham vera alma de tudo, verde, florescer!Mesmo o que não tem alma? Pois é claro.Na hora de mentir, meu são Genaro,é preferível a mentira boa,que o santo, lá no céu, rindo, perdoa,e cria uma verdade provisória,macia, mansa, meiga, meritória.Olha tudo mudado: o passarinhona careca do velho faz seu ninho.O velho vira moço, e na paqueraele próprio é sinal de primavera.Como beijam os brotos mais gostosoao pé do monumento de Barroso!E todos se namoram. Tudo é amorno Méier e na rua do Ouvidor,no Country, no boteco, Lapa e Urca,à moda veneziana e à moda turca.Os hippies, os quadrados, os reaças,os festivos de esquerda, os boas-praças,o mau-caráter (bom, neste setembro),e tanta gente mais que nem me lembro,saem de primavera, e a vida é prímulaa tecnicolizar de cada rímula.(Achaste a rima rica? Bem mais ricoé quem possui de doido-em-flor um tico.)Já se entendem contrários, já se anulao que antes era ódio na medula.O gato beija o rato; o elefantedança fora do circo, e é mais galanteentre homens e bichos e mulheresque indagam positivos malmequeres.É prima, é primavera. Pelo espaço,o tempo nos vai dando aquele abraço.E aqui termino, que termina o fatosurgido, azul, da terra do boato.
Carlos Drummond de Andrade. Versiprosa.
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